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‘Master paraguaio’: após escândalo financeiro, presidente Santiago Peña renuncia ao cargo

Publicado 05/11/2026 • 13:35 | Atualizado há 56 minutos

KEY POINTS

  • Santiago Peña anunciou renúncia à Presidência do Paraguai após os 80 deputados manifestarem apoio ao processo de impeachment.
  • Crise política foi desencadeada pela intervenção no Ueno Bank, que provocou bloqueio de contas, suspensão de operações bancárias e protestos de clientes.
  • Investigações sobre empréstimos irregulares e vínculos do presidente com o grupo controlador do banco ampliaram a pressão sobre o governo paraguaio.

O presidente do Paraguai, Santiago Peña, anunciou sua renúncia nesta quinta-feira (05), em meio à crise política desencadeada pela intervenção no Ueno Bank. A decisão ocorreu após os 80 deputados do país manifestarem apoio ao processo de impeachment, incluindo parlamentares do partido governista.

A saída foi comunicada pelo presidente em um pronunciamento gravado. Peña afirmou que decidiu deixar o cargo considerando a estabilidade do país, a paz social e a preservação das instituições democráticas. O pedido formal foi encaminhado ao Congresso paraguaio, responsável por analisar a solicitação para que a renúncia seja efetivada.

A pressão política aumentou nesta quinta-feira, quando a bancada A do Partido Colorado, formada por 36 integrantes, anunciou apoio ao afastamento do presidente. O posicionamento foi comunicado pelo deputado Rodrigo Gamarra, da Associação Nacional Republicana (ANR), pouco antes da sessão da Câmara dos Deputados convocada para discutir o impeachment.

Segundo o portal paraguaio ABC Color, a decisão do último bloco parlamentar que ainda não havia se manifestado consolidou o apoio de toda a Câmara ao processo. A Constituição do país exige pelo menos 53 votos, equivalentes a dois terços dos 80 deputados, para que a acusação avance.

Com a adesão da bancada governista, a proposta passou a contar com apoio suficiente para superar essa exigência.

Renúncia ocorre após pressão do Congresso

A mobilização contra Santiago Peña reuniu diferentes setores políticos, incluindo integrantes do Partido Colorado, parlamentares liberais e representantes da oposição.

Antes da manifestação da bancada governista, grupos dissidentes da ANR e outras forças legislativas já haviam declarado apoio à responsabilização do chefe do Executivo. A articulação avançou em meio aos questionamentos sobre as relações anteriores do presidente com o conglomerado empresarial responsável pelo Ueno Bank.

Peña havia assumido a Presidência em 2023 e tinha mandato previsto até 2028. Com a apresentação da renúncia, o Congresso passa a ter de analisar formalmente o pedido, enquanto o país enfrenta os desdobramentos da crise financeira.

Leia também: “Master paraguaio”: escândalo de mais de US$ 167 milhões tem queda do presidente do Banco Central, dinheiro de clientes bloqueado e protestos pelo país

Intervenção no Ueno Bank atingiu milhões de clientes

A crise teve origem na deterioração financeira do Ueno Bank, instituição com aproximadamente três milhões de clientes e participação expressiva no sistema bancário paraguaio.

No início de novembro, o Banco Central do Paraguai (BCP) determinou a intervenção na instituição após identificar que seu índice de solvência havia recuado para 5,56%, abaixo do mínimo legal de 12%.

Esse indicador representa a capacidade de um banco de manter capital suficiente para enfrentar eventuais perdas e cumprir suas obrigações financeiras.

A medida interrompeu operações bancárias, incluindo saques, transferências e pagamentos. O acesso aos aplicativos também foi prejudicado, enquanto resgates de fundos de investimento vinculados à instituição foram suspensos.

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O bloqueio afetou consumidores, comerciantes, trabalhadores e aposentados que dependiam dos serviços do banco para movimentar recursos ou receber pagamentos. Em Assunção, correntistas realizaram protestos para exigir explicações e a devolução dos valores depositados.

Investigações identificam suspeitas de empréstimos irregulares

Paralelamente à intervenção, autoridades paraguaias passaram a investigar operações financeiras envolvendo empresas ligadas ao Grupo Vázquez, controlador do Ueno Bank.

Auditorias e apurações do Ministério Público apontaram suspeitas de concessão de empréstimos acima dos limites autorizados a companhias vinculadas ao mesmo conglomerado.

As investigações também identificaram movimentações cruzadas entre empresas relacionadas, operações que podem dificultar a avaliação da real situação financeira de uma instituição.

A Justiça determinou a prisão preventiva de oito executivos e diretores associados ao banco e ao grupo controlador. Entre os investigados estão Miguel Vázquez e Juan Manuel Gustale.

Também foi ordenado o bloqueio de aproximadamente US$ 70 milhões em bens associados aos envolvidos.

Vínculos políticos ampliaram crise institucional

As investigações passaram a repercutir diretamente no governo devido à relação anterior de Santiago Peña com a holding responsável pelo Ueno Bank. O presidente manteve participação societária no conglomerado até março de 2025.

A ligação motivou questionamentos sobre possíveis conflitos de interesses e sobre a atuação das autoridades encarregadas de supervisionar o sistema financeiro. Peña negou ter cometido irregularidades.

A crise também levou à saída de Carlos Carvallo da presidência do Banco Central do Paraguai, a pedido do então chefe do Executivo. Antes de assumir o comando da autoridade monetária, em 2023, Carvallo havia dirigido a antiga Financiera Ueno.

Outro integrante do governo atingido pelo caso foi o vice-presidente Pedro Alliana. Com recursos aplicados no banco, ele decidiu suspender temporariamente sua pré-candidatura à Presidência da República.

Congresso deverá analisar pedido de renúncia

O anúncio de Santiago Peña alterou o cenário político que vinha sendo marcado pela possibilidade de um processo de impeachment com apoio de todos os deputados paraguaios.

A renúncia, porém, depende de análise e aprovação pelo Congresso para produzir seus efeitos formais. Até essa definição, permanecem em discussão os procedimentos institucionais relacionados à saída do presidente.

Além da situação política, as autoridades enfrentam a necessidade de solucionar os problemas decorrentes da intervenção no Ueno Bank, principalmente a recuperação dos recursos dos correntistas afetados.

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