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Ueno, o ‘Master paraguaio’, dinheiro público e patrimônio: as suspeitas que cercam Santiago Peña após anúncio de renúncia

Publicado 05/11/2026 • 15:00 | Atualizado há 9 minutos

KEY POINTS

  • Presidente foi sócio do grupo controlador do banco até março de 2025; instituição administrava até US$ 850 milhões em recursos públicos.
  • Oposição questiona possíveis conflitos de interesses e evolução patrimonial; Peña nega irregularidades.
  • Santiago Peña anunciou a renúncia após a crise do Ueno Bank provocar protestos e retirar seu apoio no Congresso.

Foto: AFP

O presidente do Paraguai, Santiago Peña, anunciou sua renúncia nesta quinta-feira (05), pressionado pelo escândalo do Ueno Bank e pela adesão de sua própria base ao processo de impeachment. A crise colocou sob questionamento suas relações anteriores com os controladores da instituição, a aplicação de recursos públicos no banco e a atuação das autoridades responsáveis pela fiscalização.

O pedido de renúncia foi encaminhado ao Congresso, que precisa analisá-lo para efetivar a saída.

Peña manteve participação no Grupo Vázquez, controlador do Ueno, até março de 2025. A relação passou ao centro da disputa política depois que a intervenção no banco deixou aproximadamente 3 milhões de clientes sem acesso normal ao dinheiro. A oposição também levantou suspeitas de conflito de interesses e questionamentos sobre a evolução patrimonial do presidente. Peña nega ter cometido irregularidades.

Relação com o banco e crescimento dos depósitos públicos

Um dos principais pontos de cobrança é a presença de dinheiro estatal em uma instituição ligada aos antigos negócios do presidente. O Ueno administrava entre US$ 800 milhões e US$ 850 milhões em recursos públicos, incluindo cerca de US$ 380 milhões do sistema estatal de previdência e saúde.

Durante o mandato, Peña rejeitou dúvidas sobre a situação financeira do banco e acusou a imprensa de alarmismo, enquanto órgãos governamentais e fundos estatais ampliavam os depósitos. Em outubro, o próprio Ueno informou que recursos públicos representavam aproximadamente um quarto de seus depósitos.

Suspeitas de empréstimos para empresas do próprio grupo

A investigação criminal se concentra em operações do banco com empresas relacionadas ao conglomerado controlador. Segundo o Ministério Público, há indícios de empréstimos desproporcionais à capacidade financeira dos beneficiários, garantias insuficientes e problemas na documentação.

Os investigadores também apontaram suspeitas de que parte do dinheiro tenha circulado entre companhias do grupo, em vez de financiar as atividades apresentadas nos pedidos de crédito.

Outra operação investigada envolve a transferência de uma carteira de aproximadamente US$ 74,4 milhões. A hipótese da Promotoria é que a compradora tenha utilizado recursos originados indiretamente do próprio Ueno para realizar o negócio.
O Ministério Público formalizou acusações contra 27 pessoas, e oito dirigentes foram detidos.

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Fiscalização sob questionamento

A crise também expôs as relações entre o banco e a autoridade responsável por supervisioná-lo. Carlos Carvallo, que deixou a presidência do Banco Central a pedido de Peña, havia dirigido a antiga Financiera Ueno antes de assumir o regulador, em 2023.
A passagem pela instituição alimentou questionamentos sobre possíveis conflitos de interesses e sobre a fiscalização.
Os sinais de preocupação antecediam a intervenção.

Em junho, o Banco Central já havia alertado o Ueno sobre o excesso de empréstimos a empresas ligadas aos proprietários. Em outubro, a Fitch alterou a perspectiva do banco para negativa, citando o crescimento acelerado do balanço e o elevado volume de ativos intangíveis.

Os questionamentos sobre o patrimônio de Peña antecedem o colapso do Ueno. Segundo o jornal paraguaio ABC Color, parlamentares opositores apresentaram, em outubro de 2025, uma denúncia que apontava crescimento de aproximadamente 1.603% em seus bens entre 2017 e 2023, de cerca de 1,35 bilhão para 23 bilhões de guaranis, o equivalente a 20 milhões de reais. Os denunciantes questionavam a origem de parte dos recursos, o aumento de sua participação na holding do Ueno e a construção de uma residência em San Bernardino, estimada na denúncia em US$ 2 milhões.

Em maio de 2026, a Controladoria-Geral informou ter encontrado compatibilidade entre os rendimentos e o patrimônio declarado, incluindo pagamentos da residência com um empréstimo do Ueno e recursos do resgate de ações da holding. A conclusão foi contestada pelos denunciantes, e o Ministério Público designou um promotor para investigar as suspeitas de enriquecimento ilícito e outros possíveis crimes.

Impeachment, perda de apoio e renúncia

Além da gestão da crise bancária, o pedido de impeachment trouxe questionamentos sobre a evolução patrimonial de Peña. Os parlamentares acusaram o presidente de mau desempenho no cargo e levantaram suspeitas de conflito de interesses relacionadas aos vínculos com o grupo controlador do Ueno.

Peña negou irregularidades e classificou a crise bancária como um episódio pontual.

A pressão atingiu seu ponto decisivo quando a bancada A do Partido Colorado, com 36 deputados, aderiu ao impeachment. Com isso, os 80 integrantes da Câmara haviam manifestado apoio ao processo, superando os 53 votos exigidos para encaminhar a acusação ao Senado.

Em pronunciamento gravado, Peña anunciou a decisão de deixar o cargo, alegando preocupação com a estabilidade do país, a paz social e a preservação das instituições democráticas. Seu mandato estava previsto para terminar em 2028.

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