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Não é substituir o dólar: estratégia da China mira reduzir dependência financeira dos EUA

Publicado 28/06/2026 • 15:49 | Atualizado há 1 hora

KEY POINTS

  • Especialistas afirmam que o objetivo de Pequim não é apenas fortalecer o yuan, mas criar alternativas ao sistema financeiro dominado pelo dólar.
  • Medidas anunciadas no Fórum de Lujiazui ampliam o uso internacional da moeda chinesa e reforçam a estratégia financeira do país.
  • Analistas avaliam que o plano tem implicações geopolíticas e pode reduzir a influência dos Estados Unidos sobre o sistema financeiro global.

Todos os anos, em junho, formuladores de políticas públicas, reguladores, banqueiros, investidores e executivos do setor financeiro se reúnem em Xangai para o Fórum de Lujiazui, principal conferência de política financeira da China. Se o Fórum Econômico Mundial, em Davos, é visto como o espaço onde líderes globais discutem o futuro da economia mundial, o encontro em Lujiazui vem se consolidando como o palco onde Pequim apresenta sua estratégia para moldar esse futuro de acordo com seus próprios interesses.

No fórum deste ano, autoridades chinesas anunciaram uma série de medidas para ampliar as operações financeiras offshore em renminbi (RMB), fortalecer o papel de Xangai como centro financeiro internacional, criar novas linhas de liquidez para bancos centrais e fundos soberanos estrangeiros, expandir as transações internacionais em RMB e ampliar a abertura de parte do setor financeiro chinês à participação internacional.

Mais que substituir o dólar

É verdade que muitos desses anúncios já haviam sido feitos anteriormente, e parte dos analistas continua questionando sua efetividade e viabilidade. A dúvida recorrente é se a China está realmente preparada para desafiar a supremacia do dólar.

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A resposta é que Pequim demonstra, sem dúvida, intenção de reduzir aspectos da dominância da moeda americana. Mas essa talvez seja a pergunta errada.

O foco não deveria estar apenas em saber se a China conseguirá substituir o dólar pelo renminbi, mas em observar como o país vem construindo, de forma gradual e sistemática, uma infraestrutura financeira capaz de reduzir sua dependência de um sistema global centrado na moeda americana e oferecer alternativas ao poder financeiro exercido pelos Estados Unidos.

Em outras palavras, a China leva essa estratégia a sério, embora sua implementação deva ocorrer de forma gradual. Ainda que não consiga alcançar seus objetivos rapidamente, o país vem se posicionando como um concorrente relevante à predominância do dólar.

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Essa é, acima de tudo, uma questão geopolítica, e não apenas monetária.

Plano de quase duas décadas

Há quase 20 anos, a liderança chinesa busca ampliar a internacionalização do renminbi.

Após a crise financeira global de 2008, Pequim passou a implementar programas para liquidação de operações comerciais em RMB, criou centros internacionais de compensação da moeda, expandiu acordos de swap cambial, desenvolveu sistemas alternativos de pagamentos e abriu gradualmente partes de seu mercado de capitais.

Essas iniciativas não foram suficientes para deslocar ou enfraquecer de forma significativa a posição do dólar. Entretanto, a trajetória chinesa costuma ser marcada por avanços graduais e persistentes, e não por mudanças rápidas.

As medidas anunciadas no Fórum de Lujiazui representam mais um capítulo dessa estratégia de longo prazo.

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O momento também é considerado relevante porque coincide com o primeiro ano de implementação do 15º Plano Quinquenal da China.

Finanças como prioridade nacional

Em muitos países ocidentais, os planos quinquenais chineses costumam ser vistos como documentos com metas aspiracionais ou declarações políticas.

Para Pequim, porém, esses planos funcionam como instrumentos de alocação de recursos que orientam prioridades regulatórias, empresas estatais, bancos públicos, governos provinciais e instituições financeiras.

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O novo 15º Plano Quinquenal coloca o setor financeiro como objetivo estratégico nacional.

Entre as prioridades estão transformar a China em uma potência financeira, fortalecer Xangai e Hong Kong como centros financeiros internacionais, ampliar os mercados offshore de renminbi, aperfeiçoar os sistemas de pagamentos transfronteiriços e avançar na internacionalização da moeda chinesa.

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Esses objetivos deixaram de ser apenas temas de debate entre economistas e passaram a integrar o principal documento de planejamento do país, indicando que reguladores, bancos estatais e governos locais deverão direcionar recursos para alcançar essas metas.

Independentemente do sucesso dessas iniciativas, a disposição do governo chinês em persegui-las de forma contínua não parece estar em dúvida.

Alerta para Wall Street

Segundo a análise, investidores e formuladores de políticas nos Estados Unidos não deveriam subestimar esse movimento.

Os autores lembram que muitos analistas também minimizaram inicialmente o programa Made in China 2025, citando limitações tecnológicas, ineficiências do setor estatal e problemas de implementação.

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Apesar das críticas, Pequim manteve a estratégia por meio de políticas industriais, subsídios, financiamento estatal, incentivos regulatórios e investimentos na formação de profissionais das áreas de engenharia e tecnologia.

Embora os resultados não tenham sido perfeitos, a política contribuiu para fortalecer a posição chinesa em diversos setores estratégicos e ajudou a desencadear a guerra comercial iniciada pelo governo Donald Trump em 2018.

Oportunidades e riscos

Os anúncios feitos em Lujiazui podem abrir novas oportunidades para investidores internacionais por meio da ampliação das operações offshore em renminbi, da criação de novas linhas de liquidez, do aprofundamento do mercado de títulos e do maior acesso a produtos financeiros chineses.

No entanto, segundo a análise, esses movimentos não significam que a China pretende liberalizar totalmente sua conta de capitais ou permitir que os fluxos financeiros sejam determinados exclusivamente pelas forças de mercado.

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O objetivo principal continua sendo reduzir a exposição do país ao poder financeiro exercido pelos Estados Unidos e ampliar sua liberdade de atuação estratégica no cenário internacional.

Como consequência, os riscos geopolíticos associados aos investimentos relacionados à China tendem a aumentar, e não a diminuir.

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