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Brasil e Canadá se unem na construção de corredor para o setor da pesca focado em ‘economia azul’

Publicado 03/08/2026 • 12:52 | Atualizado há 50 minutos

KEY POINTS

  • A iniciativa busca aproximar o Ceará da província canadense de Nova Scotia sob o guarda-chuva da Economia Azul — conceito que integra pesca, aquicultura, inovação oceânica, logística e sustentabilidade.
  • O plano vai além da troca comercial. A proposta conecta empresários, órgãos públicos e instituições de referência internacional.
  • O objetivo central é estruturar um corredor bilateral capaz de unir capacidade produtiva, tecnologia, intercâmbio científico e investimentos
Canadá

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O Ceará e o Canadá estão mais próximos do que a geografia sugere. Separados pelo Atlântico, os dois mercados avançam na concretização de uma parceria estratégica voltada ao setor de pescados e frutos do mar, articulada pela Câmara de Comércio Brasil-Canadá (CCBC).

A iniciativa busca aproximar o estado cearense da província canadense de Nova Scotia sob o guarda-chuva da Economia Azul — conceito que integra pesca, aquicultura, inovação oceânica, logística e sustentabilidade.

O plano vai muito além da simples troca comercial. A proposta conecta empresários, órgãos públicos e instituições de referência internacional, como a Dalhousie University (líder em pesquisa marinha no Canadá), o Bedford Institute of Oceanography (maior centro federal de pesquisas oceânicas do país) e o COVE (Centre for Ocean Ventures & Entrepreneurship), hub de tecnologia instalado no Porto de Halifax que reúne mais de 60 empresas e startups.

O objetivo central é estruturar um corredor bilateral capaz de unir capacidade produtiva, tecnologia, intercâmbio científico e investimentos, gerando negócios de alto valor agregado em ambos os países.

Leia também: Setor de pescados projeta alta de 10% nas exportações após isenção do tarifaço nos EUA

Crescimento acelerado no mercado de pescado

O movimento ganha tração em um momento de forte expansão no comércio bilateral do setor. Entre janeiro e maio de 2026, as exportações brasileiras de pescado para o Canadá somaram US$ 1,82 milhão, sendo que o Ceará respondeu por US$ 217,4 mil (11,9% do total nacional).

O protagonismo cearense, contudo, é consolidado. Entre 2023 e 2025, as exportações do estado para o mercado canadense dispararam 291%, saltando de US$ 525 mil para US$ 2,05 milhões. No mesmo período, o indicador nacional cresceu 167%, indo de US$ 2,7 milhões para US$ 7,3 milhões.

Em 2024, o Ceará movimentou US$ 93,8 milhões em exportações pesqueiras, concentrando cerca de 25% de tudo o que o Brasil vendeu ao exterior no segmento. O estado também lidera a aquicultura marinha nacional e responde por mais da metade da produção do Nordeste.

“O Ceará historicamente está muito associado ao desenvolvimento social e econômico ligado às atividades oceânicas. Quando identificamos o Canadá como um mercado estratégico, percebemos uma complementaridade muito clara entre os dois ecossistemas”, apontou Igor Gonçalves, idealizador da iniciativa e coordenador do Chapter Ceará da CCBC.

Segundo Gonçalves, a escolha pela Economia Azul como eixo de aproximação se deu pela capacidade do setor de gerar resultados comerciais mais ágeis do que frentes dependentes de obras estruturantes de longo prazo.

A Câmara reforça que o motivo do acordo vai além do econômico, mas que os dois países esperam ter um avanço de até 24% por ano no comércio de pescados e frutos do mar até 2030.

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Janela estratégica de complementaridade

A balança comercial entre as regiões revela uma complementaridade incomum. O Canadá busca espécies tropicais e produtos premium de alto valor agregado — com destaque para o pargo congelado (Lutjanus purpureus), principal item exportado pelo Ceará, além de atum, lagosta e filés de tilápia.

Em contrapartida, o Brasil registra forte demanda por peixes de águas frias e frutos do mar canadenses. Atualmente, cerca de 90% das importações brasileiras de pescado do país norte-americano consistem em vieiras congeladas, segmento no qual Nova Scotia figura entre os maiores produtores globais. Há, ainda, espaço para ampliar o fluxo de bacalhau, lagosta de água fria e salmão.

Para Hilton Nascimento, diretor-presidente da CCBC, a parceria abre portas para o processamento conjunto e a inovação industrial.

“Não estamos falando apenas da exportação de pescado para consumo final. Existe espaço para agregar valor, processar produtos e criar novas oportunidades de negócios para empresas dos dois países”

A instalação de unidades de processamento no Canadá com participação brasileira é avaliada como uma alternativa para utilizar matéria-prima de ambas as origens e expandir a presença mútua em mercados globais.

O que é a Economia Azul?

A Economia Azul define um modelo de desenvolvimento sustentável voltado ao uso racional, à conservação e à gestão integrada dos oceanos e recursos costeiros. A premissa é harmonizar atividades como pesca, transporte marítimo, energia renovável offshore e turismo com a preservação dos ecossistemas. Na prática, o conceito atrai investimentos verdes e estimula a transição para modelos de baixo carbono na aquicultura e na biotecnologia marinha.

Contexto geopolítico e tarifas dos EUA

O estreitamento de laços entre Brasil e Canadá ganha fôlego adicional em meio às recentes barreiras tarifárias impostas pelo governo dos Estados Unidos. Em julho, o mercado norte-americano aplicou sobretaxas de 25% e 12,5% a produtos brasileiros, enquanto o Canadá enfrentou tarifas de 50% e 10%.

Apesar de o pescado brasileiro ter saído isento das novas tarifas, os dois países enxergam na diversificação comercial uma estratégia vital. Além das iniciativas bilaterais, o governo canadense sinalizou interesse em avançar em um acordo comercial amplo com o Mercosul, cujo avanço é projetado para o final de 2026, segundo a ministra das Relações Exteriores do Canadá, Anita Anand, em visita recente ao Brasil.

Inovação e tecnologia oceânica em pauta

Além da troca de mercadorias, a parceria aposta na transferência de know-how. Nova Scotia é referência global em tecnologia aplicada ao mar, e a estratégia da CCBC é estruturar essa ponte por meio de redes institucionais que conectam empresas, centros de pesquisa e governos locais. Diálogos iniciais já foram abertos com órgãos como Invest Nova Scotia, Invest Halifax e Nova Scotia Intergovernmental Affairs.

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