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Carlo Pereira: Acordo Mercosul-UE avança sob tensão global mas enfrenta entraves regulatórios e de implementação

Publicado 15/04/2026 • 21:30 | Atualizado há 2 horas

KEY POINTS

  • Europa enfrenta contradição entre metas climáticas e barreiras comerciais, ao mesmo tempo em que depende de biocombustíveis e proteína brasileira
  • Divergências regulatórias, especialmente sobre desmatamento, podem dificultar a implementação prática do acordo
  • Especialista aponta que o Brasil precisa ampliar presença internacional e articulação para evitar que o acordo fique apenas no papel

Carlo Pereira, especialista em Sustentabilidade

Reprodução/LinkedIn/Carlo Pereira

O acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia deve entrar em vigor de forma provisória a partir de 1º de maio, em um contexto global marcado pela reorganização das cadeias de suprimento e pelo aumento das tensões geopolíticas. Segundo Carlo Pereira, especialista em sustentabilidade e notável do Times Brasil – licenciado exclusivo CNBC, embora o momento seja oportuno, o Brasil ainda precisa avançar na implementação para evitar que o tratado perca efetividade na prática.

Ele explica que o cenário internacional atual foi determinante para destravar negociações que se arrastavam há mais de duas décadas. Conflitos recentes, disputas tarifárias e a busca por segurança energética e alimentar pressionaram países e blocos a firmarem novos acordos comerciais.

“Há um rearranjo geopolítico em curso, impulsionado por conflitos, e todos querem garantir suas cadeias produtivas, seja em segurança alimentar, energética ou no acesso a minerais estratégicos”, afirmou.

Nesse ambiente, a União Europeia aparece como um ator central, ao mesmo tempo em que amplia sua dependência de importações estratégicas. O bloco necessita de biocombustíveis e proteína animal para cumprir metas climáticas e garantir o abastecimento interno, mas mantém barreiras regulatórias que dificultam a entrada desses produtos.

Para Pereira, há uma contradição na política europeia. De um lado, o bloco busca liderar a agenda regulatória global, com exigências ambientais rigorosas. De outro, enfrenta pressões internas por competitividade e redução de custos, especialmente entre produtores locais. Esse movimento tem gerado resistência a importações, mesmo em setores nos quais a Europa apresenta déficit.

“A população questiona políticas ambientais quando percebe perda de competitividade. A juventude europeia cobra melhores empregos e maior eficiência econômica. Isso afeta diretamente as decisões políticas”, diz o comentarista.

Um dos principais pontos de tensão envolve a legislação ambiental. A política europeia de desmatamento zero entra em conflito com o modelo brasileiro, que permite o uso parcial de propriedades dentro de limites legais, considerados entre os mais rigorosos do mundo. A divergência pode dificultar a operacionalização do acordo.

“No caso da proteína animal, a Europa precisa do Brasil, especialmente porque sua própria produção caiu. Ainda assim, cerca de 2% da população, formada por produtores agrícolas, exerce forte pressão política. Há também um componente cultural e de orgulho em relação à produção local, como vinhos, queijos e carnes”, explica.

No campo energético, o desafio também é relevante, segundo Pereira. Após reduzir a dependência de fontes russas, a Europa ampliou a exposição ao Oriente Médio, o que reforça a necessidade de diversificação. Nesse contexto, os biocombustíveis brasileiros ganham importância, mas ainda enfrentam barreiras regulatórias.

Apesar do avanço institucional, Pereira avalia que o Brasil precisa fortalecer sua atuação internacional para garantir resultados concretos. Segundo ele, a criação de grupos de trabalho no governo e no setor privado é um passo inicial, mas insuficiente.

O especialista defende maior presença direta em centros de decisão:

“Corremos o risco de produzir bons relatórios sem implementação. O Brasil precisa retomar uma atuação mais forte, direta e presencial nos centros de poder, não apenas em Bruxelas. Hoje, a representação brasileira, tanto do governo quanto do setor privado, é insuficiente. Sem presença efetiva, o país corre o risco de celebrar o acordo e fracassar na execução”

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