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Escalada das projeções para o IPCA afasta inflação da meta e amplia incertezas para juros

Publicado 02/06/2026 • 12:01 | Atualizado há 1 hora

KEY POINTS

  • As estimativas para a inflação brasileira acumulam 12 semanas consecutivas de alta e já ultrapassam o teto da meta perseguida pelo Banco Central, movimento que reflete principalmente os efeitos da guerra no Oriente Médio sobre os preços da energia e da logística global.
  • Para Hugo Garbe, o avanço do petróleo, o encarecimento dos fertilizantes e a pressão sobre os custos de produção formam um ambiente de risco para a economia brasileira, tornando mais difícil o controle dos preços nos próximos meses.
  • O economista também vê uma combinação de fatores externos e domésticos pressionando a atividade econômica, o crédito e os investimentos, cenário que pode limitar novos cortes da taxa Selic pelo Banco Central.

A crescente distância entre as projeções de inflação e a meta estabelecida pelo Banco Central tem relação direta com os impactos econômicos da guerra entre Estados Unidos e Irã, afirmou Hugo Garbe, professor doutor de economia do Mackenzie. Segundo ele, a sequência de aumentos nas estimativas para o IPCA reflete principalmente o encarecimento da energia e os efeitos do conflito sobre a logística global.

Durante entrevista ao Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC nesta terça-feira (2), o economista destacou que o avanço das projeções inflacionárias precisa ser analisado a partir da combinação de fatores internos e externos. “Cada vez mais no século XXI nós temos uma economia interligada, dependente do que acontece também fora do Brasil”, observou.

Segundo Garbe, o comportamento das expectativas de inflação acompanha a escalada das tensões no Oriente Médio. “Esse degrau, quando a gente analisa a escalada de previsão da inflação, tem uma relação diretamente proporcional com o conflito entre Estados Unidos e Irã”, afirmou.

Petróleo pressiona preços

Na avaliação do economista, o principal canal de transmissão da crise internacional para a economia brasileira é o petróleo. Ele lembrou que o preço do barril saltou de cerca de US$ 70 (R$ 352,10) para níveis próximos de US$ 120 (R$ 603,60) durante o conflito, elevando significativamente os custos de transporte e produção.

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“O combustível é um elemento fundamental para a economia e tem um reflexo brutal nos preços”, ressaltou.

Para Garbe, o aumento dos combustíveis afeta diretamente diversos setores produtivos e ajuda a explicar por que as projeções para o IPCA passaram da marca de 5%. “Quando a gente compara esse gráfico com o incremento do preço do barril do petróleo, fica claro que essa é uma relação direta”, disse.

O especialista destacou ainda que os impactos não se limitam ao setor energético. O encarecimento do transporte internacional também pressiona insumos agrícolas e amplia os riscos para os preços dos alimentos.

Efeito sobre o agro

De acordo com Garbe, os fertilizantes representam um dos principais pontos de preocupação. Como parte relevante desses produtos depende de importações, o aumento dos custos logísticos acaba sendo repassado para toda a cadeia produtiva.

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“O fertilizante é um componente fundamental para o agronegócio”, afirmou. Segundo ele, a alta dos fretes e dos insumos agrícolas tende a elevar os custos de produção, gerando reflexos diretos no bolso do consumidor.

O economista observou que muitas pessoas não percebem a conexão entre conflitos internacionais e o preço dos alimentos no Brasil, mas destacou que a globalização tornou essa relação cada vez mais evidente. “Uma guerra lá no Oriente Médio tem reflexo aqui no Brasil”, pontuou.

Dúvidas sobre a Selic

Com a inflação mais pressionada, Garbe acredita que o Banco Central deverá adotar uma postura cautelosa nas próximas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom).

Embora considere possível um novo corte de 0,25 ponto percentual na taxa Selic, ele não descarta uma interrupção do ciclo de flexibilização monetária caso as pressões inflacionárias persistam.

“O Banco Central vai continuar mantendo a sua ortodoxia econômica”, afirmou. Segundo ele, a autoridade monetária deverá aguardar os desdobramentos do conflito no Oriente Médio antes de promover movimentos mais intensos nos juros.

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O economista lembrou ainda que o cenário internacional continua cercado de incertezas, incluindo disputas comerciais envolvendo os Estados Unidos. “As tarifas que vão e voltam ao longo do tempo geram uma incerteza também na economia brasileira”, observou.

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“Tempestade perfeita”

Para Garbe, a combinação entre guerra, inflação, custos elevados, crédito restrito e desaceleração econômica cria um ambiente especialmente desafiador para empresas e consumidores.

O professor concordou com a definição de que o Brasil atravessa uma espécie de “tempestade perfeita”, não apenas para o agronegócio, mas para toda a atividade econômica.

Entre os sinais de alerta, ele destacou o crescimento dos pedidos de recuperação judicial no país. “Esse é um termômetro importante. Recuperação judicial quer dizer que as empresas não estão aguentando”, afirmou.

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Segundo o economista, o aumento do endividamento corporativo, o custo elevado do crédito e a desaceleração dos investimentos ajudam a explicar o quadro atual. Ele também mencionou que episódios recentes no sistema financeiro contribuíram para uma postura mais conservadora das instituições na concessão de empréstimos.

Diante desse cenário, Garbe avaliou que a economia brasileira atravessa um momento de forte vulnerabilidade. “A economia brasileira, com essa somatória de fatores tanto exógenos como internos, está no cheque especial. Precisamos tomar cuidado com o que vem por aí”, concluiu.

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