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Falta de ajuste fiscal pode obrigar Banco Central a subir a Selic novamente, diz Sérgio Vale
Publicado 04/11/2026 • 20:10 | Atualizado há 22 minutos
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Publicado 04/11/2026 • 20:10 | Atualizado há 22 minutos
KEY POINTS
A ausência de uma sinalização fiscal mais forte do governo pode levar o Banco Central a sair de uma discussão sobre cortes de juros para um cenário de nova alta da Selic, avaliou Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, em entrevista ao Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC.
Segundo ele, a decisão do Comitê de Política Monetária de interromper o ciclo de cortes era esperada diante da deterioração recente das expectativas de inflação, do câmbio e das condições financeiras.
“Se continuar nessa toada, a gente entra num cenário mais perigoso e mais complicado, que não é só de ficar com a taxa de juros onde está. A gente vai começar a discutir se ela vai precisar subir ou não”, afirmou.
Para Vale, o Banco Central entrou agora em um “compasso de espera” e deverá acompanhar principalmente as primeiras sinalizações do governo sobre a política fiscal.
Segundo o economista, a piora das projeções para 2027 e 2028 deixou pouca margem para que o BC continuasse reduzindo a Selic.
“Não tinha muita alternativa para o BC”, disse.
Vale citou a alta do câmbio, a aceleração das expectativas para o IPCA e o excesso de demanda como fatores que limitaram o espaço para novos cortes.
“O único cenário para o Banco Central nesse momento é entrar num certo compasso de espera”, afirmou.
Na avaliação dele, parte da pressão de demanda tem origem na política fiscal.
Por isso, a possibilidade de retomada dos cortes dependerá, em grande medida, da capacidade do governo de apresentar um ajuste considerado suficiente para reduzir as expectativas de inflação.
“Tem que ter mudanças nesse sentido para a gente conseguir vislumbrar uma queda da expectativa e, consequentemente, poder pensar em baixar a taxa de juros no Brasil”, afirmou.
Vale afirmou não enxergar, neste momento, sinalização de retomada do ciclo de cortes na próxima reunião do Copom.
“Eu acho que não tem nenhuma sinalização de corte aí pela frente”, disse.
Segundo o economista, dificilmente haverá tempo suficiente até a reunião de dezembro para que o novo governo apresente uma mudança fiscal capaz de alterar significativamente o cenário.
“O Banco Central, muito provavelmente, também vai esperar”, afirmou.
Na avaliação de Vale, o cenário-base neste momento é de manutenção da Selic até o fim do ano.
“A gente está caminhando para terminar o ano com a Selic nesse patamar, e ano que vem está em aberto”, disse.
O rumo de 2027 dependerá, segundo ele, da composição da equipe econômica e das primeiras medidas anunciadas pelo governo.
Vale afirmou que um ajuste fiscal capaz de mudar de forma relevante a percepção do mercado teria de alcançar despesas obrigatórias.
Entre as medidas citadas por ele estão mudanças nos pisos constitucionais de saúde e educação e a correção dos benefícios previdenciários apenas pela inflação, sem ganho real vinculado ao salário mínimo.
“Só de você fazer esses dois ajustes ao longo dos anos, você pode ganhar até quase dois pontos percentuais do PIB”, afirmou.
Ele reconheceu, porém, que esse tipo de medida representa um desafio político relevante para um governo de esquerda.
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Siga o Times | CNBC“É um tópico muito sensível para um governo de esquerda, especialmente, e, se fizesse isso, acalmaria o mercado quase imediatamente”, disse.
Para Vale, medidas voltadas apenas a supersalários ou à eficiência da máquina pública têm importância, mas não seriam suficientes para resolver o problema fiscal.
“São perfumaria, essa parte cosmética do ajuste fiscal. Ajuda, é importante, mas é suficiente? Longe de ser suficiente”, afirmou.
O economista avaliou ainda que o cenário externo dificulta uma volta da Selic aos níveis registrados no fim da década passada.
Vale dividiu o problema em três fatores: equilíbrio entre oferta e demanda, situação fiscal e nível dos juros internacionais.
Segundo ele, nenhuma dessas condições está hoje favorável a uma queda expressiva dos juros brasileiros.
“Nos próximos anos vai ser muito difícil a gente conseguir baixar a Selic para os 6,5% que a gente viu em 2019”, afirmou.
Vale lembrou que, naquele período, os juros internacionais estavam próximos de zero. Hoje, segundo ele, as taxas longas no exterior estão entre 5% e 6%.
Além disso, o economista vê pressão doméstica de demanda e riscos de oferta, inclusive sobre a inflação de alimentos.
Ao comentar as propostas discutidas nos últimos dias para reduzir estruturalmente os juros, Vale defendeu a desindexação gradual da dívida pública, mas rejeitou a ideia de uma queda acelerada da Selic sem ajuste fiscal prévio.
“Eu acho que a gente não está na hora de ir para as mágicas”, afirmou.
Segundo ele, a redução da parcela da dívida pós-fixada e vinculada à Selic é desejável, mas deveria ocorrer gradualmente após uma melhora consistente das contas públicas.
“Você faz, ao longo da história, um ajuste fiscal relevante que dure. Ao longo do tempo, você vai trocando gradativamente essa dívida pós-fixada por mais pré-fixada”, afirmou.
Vale avalia que, com um ajuste fiscal adequado em 2027, seria possível levar os juros para patamares próximos de 9% a 10% em 2028, embora uma queda mais acentuada dependesse também do cenário internacional e das condições de oferta e demanda.
“A garantia de que vai ter uma queda de juros é dada. A intensidade, a velocidade, isso tudo depende de vários fatores”, disse.
Ao comentar a mudança de tom do comunicado do Banco Central, Vale afirmou que a autoridade monetária precisou alterar de forma significativa a sinalização adotada nas reuniões anteriores.
“Teve que ter um cavalo de pau em relação ao que estava vindo nas últimas decisões”, afirmou.
Para ele, a piora das expectativas, o câmbio mais elevado e a incerteza fiscal obrigaram o BC a assumir um tom mais cauteloso.
“O Banco Central está muito correto em sinalizar isso, indicar que tem uma preocupação concreta, sim, com o que vem pela frente”, disse.
Na avaliação de Vale, a prioridade agora é uma definição mais clara da política fiscal.
“A gente agora precisa esperar os sinais do Brasil em relação à questão fiscal”, afirmou.
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