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Lula 4 começa com sete recordes negativos no mercado; como a conta vai chegar ao bolso dos brasileiros

Publicado 31/10/2026 • 12:59 | Atualizado há 2 horas

KEY POINTS

  • O dólar teve a maior alta em um único dia desde 1999.
  • A Bolsa viveu dias de pânico: acionou o circuit breaker pela primeira vez desde a pandemia e teve uma semana tão ruim quanto a dos atentados de 11 de setembro de 2001.
  • Os juros que o mercado cobra para emprestar ao governo deram o maior salto em um dia desde 2005, quando começou a série do Tesouro prefixado.

A primeira semana depois da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deixou sete recordes negativos no mercado financeiro. Bolsa, câmbio e títulos públicos registraram movimentos que não eram vistos desde a pandemia e, em alguns casos, em mais de duas décadas.

O economista Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central e um dos formuladores do Plano Real, comentou o tamanho da perda na Bolsa numa publicação no X. Segundo ele, o valor de mercado das empresas do Ibovespa era de R$ 5,811 trilhões no fechamento da sexta-feira anterior à eleição e caiu para R$ 4,832 trilhões na quarta-feira seguinte. “Cerca de 1 trilhão foi embora e não voltou. Um trilhão”, escreveu.

Os sete recordes da semana

  1. Pior semana do Ibovespa desde março de 2020: queda de 18,12%, para 167.921,80 pontos.
  2. 5ª maior queda semanal desde o Plano Real, igual à da semana dos atentados de 11 de setembro de 2001, segundo a Elos Ayta.
  3. Maior alta semanal do dólar desde 2008: +9,04%, para cerca de R$ 5,44.
  4. Pior dia da Bolsa desde março de 2020: o Ibovespa caiu 13,88% na segunda-feira (26), com o primeiro circuit breaker desde a pandemia.
  5. Maior alta diária do dólar desde 1999: +8,21% na segunda, para cerca de R$ 5,40.
  6. Maior salto diário das taxas do Tesouro prefixado desde o início da série, em 2005. O Prefixado 2032 foi de 12,89% para 15,50%, com pico de 15,78%.
  7. Pior mês do Ibovespa desde junho de 2022: queda de 9,88% em outubro.

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As contas públicas por trás do nervosismo

Os recordes do mercado vieram na mesma semana em que o Banco Central e o Tesouro divulgaram os números fiscais de setembro. Os dados não são consequência da eleição, mas mostram uma herança indigesta: a que Lula 3 vai deixar para Lula 4.

Dívida em alta. A dívida bruta do governo chegou a R$ 11,1 trilhões, o equivalente a 82,9% de tudo o que o país produz em um ano. A dívida líquida, que desconta o que o setor público tem a receber, como as reservas internacionais, chegou a 70% do PIB, cerca de R$ 9,4 trilhões. Ela subiu 0,7 ponto percentual só em setembro e 4,7 pontos desde janeiro.

Juros mais pesados. Em 12 meses, o setor público gastou R$ 1,205 trilhão com juros da dívida, ou 8,99% do PIB. Um ano antes, a conta era de R$ 984,8 bilhões, ou 7,86% do PIB.

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Rombo de R$ 1,3 trilhão. O déficit nominal, que soma o resultado das contas e os juros, chegou a R$ 1,275 trilhão em 12 meses, ou 9,51% do PIB, alta de 0,04 ponto percentual.

Gasto acima da inflação. As despesas do Governo Central somaram R$ 1,965 trilhão de janeiro a setembro, alta real de 5,4%. Fora do Governo Central, as estatais tiveram déficit de R$ 3,4 bilhões em setembro, e estados e municípios, de R$ 5,6 bilhões.

Os únicos números positivos. O Governo Central teve superávit em setembro, e o desemprego caiu a 5,2%, o menor nível para um terceiro trimestre.

A sinalização de Durigan

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, tentou acalmar o mercado. Na segunda (26), disse que pretende mudar a lei ou, se necessário, a Constituição para que o governo persiga formalmente o centro da meta fiscal, e não apenas o piso da margem de tolerância. Ao longo da semana, repetiu o compromisso.

“Nós vamos dizer e dar todos os instrumentos para que a gente não tenha dúvida jurídica que a gente vai perseguir o centro da meta [fiscal]. Mas existem outras medidas que estão sendo avaliadas, então agora nós temos uma etapa”, afirmou.

O ministro também citou onde o governo pode mexer: “Vamos fazer todas discussões alocativas necessárias, para, por exemplo, rever alguns aspectos como emenda parlamentar ou supersalário, ou aposentadorias especiais, de modo que a gente abra espaço fiscal para que o presidente quer fazer para o povo”.

O mercado recebeu mal a sinalização. Até sexta-feira, nenhuma medida concreta havia sido anunciada. A promessa também perde força porque há especulações de que Durigan não deve seguir à frente da Fazenda no quarto mandato. Se isso acontecer, a equipe que vai apresentar o ajuste pode não ser a dele. O nome mais cotado para o cargo é o de Rafael Fonteles, governador reeleito do Piauí, que teve participação ativa na campanha de Lula.

Integrantes do governo e parlamentares da base, por sua vez, criticaram publicamente as cobranças por corte de gastos. O ministro José Guimarães, da Secretaria de Relações Institucionais, disse que enviar uma proposta de ajuste “não está em discussão”. O ministro Guilherme Boulos foi mais direto: “Quem está defendendo que Lula faça ajuste fiscal, cortando gastos em políticas sociais, não entendeu nada do que foi essa eleição”, declarou.

Como a conta chega ao bolso

O caminho mais direto passa pelo dólar. Um estudo do Banco Central publicado em março estima que cada alta permanente de 10% na moeda americana acrescenta cerca de 1 ponto percentual à inflação em 12 meses. Na semana, o dólar subiu 9%. Se a alta se mantiver, o repasse aparece primeiro em produtos atrelados ao câmbio, como combustíveis, pão e massas (que dependem do trigo importado), remédios e eletrônicos.

O segundo caminho é o crédito. Com os juros futuros em disparada, bancos tendem a encarecer financiamentos e empréstimos, e uma dívida pública que já custa mais de R$ 1,2 trilhão por ano em juros fica ainda mais cara de rolar. Analistas avaliam que o salto do dólar pode levar o Copom a interromper os cortes da Selic, hoje em 13,75% ao ano. O comitê se reúne na semana que vem, nos dias 3 e 4 de novembro.

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