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Protestos estudantis tomam a França enquanto Le Pen, favorita da direita radical à Presidência, promete ajuste fiscal

Publicado 06/10/2026 • 13:30 | Atualizado há 48 minutos

KEY POINTS

  • Um adolescente teria perdido uma das mãos durante os protestos que se espalharam pelo país, nos quais mais de 5 mil pessoas foram presas.
  • A onda de protestos ocorre enquanto o governo prepara um ajuste orçamentário de 54 bilhões de euros, em meio à alta dos custos de financiamento e à instabilidade política, que voltaram a pressionar a dívida francesa.
  • Favorita na corrida presidencial, Marine Le Pen afirma que seu programa pode reduzir o déficit para menos de 3% em até 18 meses, mas críticos questionam se as economias previstas são viáveis.
Estudantes reunidos durante protesto por mais recursos para a educação em Bayonne, na França.

Patxi Beltzaitz/Berria – CC BY-SA 4.0

Estudantes participam de protesto em Bayonne, na França, durante mobilização por mais recursos para a educação.

Os protestos estudantis em massa estão se intensificando em toda a França, com confrontos violentos que já provocaram incêndios, ferimentos graves e milhares de prisões.

As manifestações começaram no fim do mês passado, em Paris, e se espalharam pelo país. Estudantes bloquearam escolas e foram às ruas para protestar contra a falta de professores, as jornadas escolares longas e a deterioração dos prédios das instituições de ensino.

Os protestos estudantis em massa estão se intensificando em toda a França, com confrontos violentos que já provocaram incêndios, ferimentos graves e milhares de prisões.

As manifestações começaram no fim do mês passado, em Paris, e se espalharam pelo país. Estudantes bloquearam escolas e foram às ruas para protestar contra a falta de professores, as longas jornadas escolares e a deterioração dos prédios das instituições de ensino.

Centenas de escolas permanecem fechadas em todo o país enquanto as manifestações continuam. O ministro da Educação, Edouard Geffray, afirmou na noite de segunda-feira que 190 estudantes ficaram feridos durante os protestos. Um adolescente de 15 anos teria perdido uma das mãos em confrontos com a polícia de choque na cidade de Lens, no norte da França.

O Ministério da Justiça da França informou na segunda-feira que 5.060 pessoas foram presas desde o início dos protestos, sendo 87% delas menores de idade.

Embora Geffray tenha afirmado, em entrevista na semana passada, que o movimento era “legítimo no início”, o Ministério do Interior francês disse que os confrontos “já não têm mais nada a ver com a expressão legítima das reivindicações dos estudantes do ensino médio”.

A entidade estudantil L’Union Étudiante afirmou que os protestos devem continuar nesta terça-feira em diferentes regiões da França.

“Juntos, exigimos mais recursos para os jovens”, afirmou o sindicato em comunicado de 29 de setembro, segundo tradução do Google. “Pedimos a continuidade da mobilização e que todos participem de todas as suas formas: atos, bloqueios e da [próxima] manifestação.”

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Apesar das reivindicações dos estudantes, o governo francês tem pouca margem fiscal para ampliar os recursos destinados à educação. A administração do primeiro-ministro Sébastien Lecornu está prestes a iniciar duras negociações orçamentárias em meio à divisão política e à turbulência econômica.

O ministro das Finanças, Roland Lescure, afirmou a jornalistas na quinta-feira que o Orçamento de 2027 prevê um ajuste fiscal de 54 bilhões de euros (US$ 60,7 bilhões). Parte dos cortes deve vir do congelamento de salários de servidores públicos, incluindo professores.

Impasses anteriores em torno do Orçamento derrubaram governos franceses nos últimos anos. Os parlamentares têm 70 dias para debater e alterar a proposta apresentada pelo governo Lecornu na quinta-feira, mas governos anteriores recorreram a mecanismos de emergência para aprovar orçamentos após o Parlamento, politicamente fragmentado, não conseguir chegar a um consenso sobre a política fiscal.

A instabilidade política, ligada às divergências sobre gastos e cortes orçamentários, pressionou os títulos públicos franceses, conhecidos como OATs, que também foram afetados neste ano por uma onda global de vendas de dívida e por preocupações com as contas públicas do país.

O rendimento de referência dos títulos franceses de 10 anos subiu 129 pontos-base neste ano, segundo dados da LSEG. Os rendimentos e os preços dos títulos se movem em direções opostas.

O euro também ficou sob pressão e caiu para o menor nível em 17 meses frente ao dólar na segunda-feira.

Le Pen promete ajuste fiscal

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A expectativa é de aumento da instabilidade política com a eleição presidencial francesa, marcada para a primavera. A candidata de extrema direita Marine Le Pen, que aparece na liderança das pesquisas, afirmou em discurso nesta terça-feira que “se os franceses não optarem por uma ruptura política com o status quo, a França caminha para um default de fato”.

Ela afirmou que suas propostas, entre elas a “extinção de mais de 120 impostos absurdos ou desnecessários”, ajustes em medidas que considera injustas e ineficazes no atual sistema previdenciário, um limite de 5 bilhões de euros para a contribuição líquida da França ao orçamento da União Europeia e o “combate às estratégias agressivas de otimização tributária das multinacionais”, permitiriam reduzir o déficit para menos de 3% do PIB em até 18 meses e gerar uma economia de 140 bilhões de euros até 2032.

“Esse esforço radical é uma decisão deliberada para enviar um sinal claro de que a deterioração das finanças públicas chegou ao fim e de que os mercados podem voltar a enxergar a França como um parceiro confiável”, afirmou.

A França está submetida ao procedimento por déficit excessivo da União Europeia, e o bloco recomenda que o país corrija o déficit excessivo até 2029. O desafio, porém, ainda é significativo.

Os tratados da União Europeia estabelecem como valores de referência um déficit público de até 3% do PIB e uma dívida pública equivalente a até 60% do PIB. No ano passado, o déficit da França chegou a 5,1% do PIB, enquanto a relação dívida/PIB alcançou 119% no fim de junho.

Mercados de títulos ‘punem a França’

Ian Bremmer, presidente e fundador do Eurasia Group, afirmou à CNBC nesta segunda-feira que Le Pen é “a líder mais popular neste momento na França”.

“O que ela vem prometendo é que, se for eleita presidente, vai retirar 120 bilhões de euros do Orçamento ao longo dos cinco anos de mandato”, disse no programa “U.S. Markets Edition”.

“O único problema é que ela se recusa a aumentar impostos, se recusa a mexer nos principais gastos sociais, que representam mais de 50% das despesas francesas, e quer reduzir o nível das aposentadorias. Então, obviamente, ela teria de fazer mágica, porque não há outro lugar de onde esse dinheiro possa sair… Se ela quer vencer a eleição presidencial e também apresentar um Orçamento crível, essas duas coisas não combinam.”

Segundo Bremmer, os investidores que negociam títulos franceses “já perceberam isso”.

“Eles estão claramente punindo a França, mais ou menos como puniam os britânicos quando diziam coisas completamente inacreditáveis e que não funcionavam do ponto de vista do mercado”, acrescentou.

Esta semana trouxe “alguns sinais iniciais de que a pressão sobre a França estava se estabilizando, com desempenho claramente melhor da dívida francesa”, afirmaram analistas do Deutsche Bank liderados por Jim Reid em nota nesta terça-feira.

Uma sessão volátil na segunda-feira levou o spread entre os títulos franceses e alemães a aumentar 10 pontos-base pela manhã, antes de encerrar o dia 4,3 pontos-base menor.

🔎 O que é o spread entre os títulos da França e da Alemanha?

O spread é a diferença entre os rendimentos dos títulos públicos de dois países. Nesse caso, compara quanto a França precisa pagar para se financiar em relação à Alemanha, cuja dívida é usada como referência de menor risco na zona do euro.

Quando o spread aumenta, isso significa que investidores exigem um retorno maior para comprar títulos franceses, o que sinaliza uma percepção de risco mais elevada. Quando diminui, indica redução dessa diferença de risco e de custo de financiamento.

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