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Roberto Giannetti: Trump transformou comércio internacional em “jogo de pôquer”
Publicado 04/07/2026 • 09:45 | Atualizado há 1 hora
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Publicado 04/07/2026 • 09:45 | Atualizado há 1 hora
KEY POINTS
O governo de Donald Trump transformou as negociações comerciais em um “jogo de pôquer”, no qual regras tradicionais foram deixadas de lado e decisões podem mudar de um dia para o outro. A análise é de Roberto Giannetti da Fonseca, economista e ex-secretário-executivo da Câmara de Comércio Exterior (Camex).
Em entrevista ao Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC, Giannetti disse que o mundo vive uma fase disruptiva do comércio internacional, marcada por medidas unilaterais, ameaças tarifárias e uso político de instrumentos comerciais.
“Não é o novo normal e nem é para sempre. Acho que nós estamos vivendo uma fase disruptiva do comércio internacional”, afirmou.
Segundo ele, Trump adotou uma forma “inusitada” de negociar ao ignorar regras multilaterais e usar tarifas como mecanismo de pressão contra parceiros comerciais.
“Há, do lado americano, essa forma diferenciada e inusitada, porque nunca foi feita antes, de não ligar para as regras”, disse. “Esqueceram completamente da existência da Organização Mundial do Comércio.”
A fala ocorre em meio à investigação aberta pelos Estados Unidos contra práticas brasileiras no âmbito da Seção 301 da Lei de Comércio americana. O mecanismo permite ao governo americano reagir a atos, políticas ou práticas considerados injustificáveis, discriminatórios ou restritivos ao comércio dos EUA.
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Giannetti criticou a inclusão do Pix e de temas políticos na investigação comercial contra o Brasil. Para ele, o sistema de pagamentos instantâneos não tem relação com práticas desleais de comércio.
“Pix não tem nada de prática desleal de comércio. É uma coisa totalmente fora desse contexto”, afirmou.
A investigação da Seção 301 sobre o Brasil envolve temas como comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, tarifas preferenciais e outras práticas apontadas pelos Estados Unidos. O USTR propôs tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos brasileiros, com lista de exceções.
Para Giannetti, o governo americano usa a investigação para criar uma mesa de barganha mais ampla, com assuntos que extrapolam o comércio exterior.
“O Brasil está na berlinda”, disse. “Estamos agora com essa negociação em vista do tarifaço que vem por conta da Seção 301.”
Segundo ele, a pressão cria insegurança, afeta decisões de investimento, atrapalha o comércio e desorganiza cadeias produtivas.
“Cria todo um tumulto, uma situação extremamente indesejável de tensão, de insegurança. Isso atrapalha investimentos, atrapalha comércio, cria toda uma disrupção de cadeias produtivas”, afirmou.
Ao comentar como governos, empresas e analistas devem lidar com a imprevisibilidade de Trump, Giannetti disse que a lógica tradicional de negociação técnica perdeu espaço.
Segundo ele, no passado, negociações comerciais exigiam preparação com dados, argumentos jurídicos, jurisprudência, estratégia e clareza sobre os objetivos da reunião. Hoje, afirmou, o cenário é diferente.
“Parece mais um jogo de pôquer”, disse. “Você não sabe as cartas do adversário, até porque ele blefa. E ele blefa que tem uma carta e ele não tem essa carta.”
Para o economista, o problema principal é que o interlocutor americano não atua dentro de uma normalidade técnica.
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Siga o Times | CNBC“Ele está muito mais em um confronto de rivalidade, de tentar extrair o máximo sem oferecer, sem barganhar, sem respeitar a regra”, afirmou.
Giannetti disse que a falta de previsibilidade dificulta qualquer planejamento para empresas, governos e analistas.
“Nós temos uma situação hoje de absoluta imprevisibilidade”, afirmou. “Quando você menos espera, vem um comentário, uma decisão, uma atitude totalmente inesperada e que muda a regra do jogo da noite para o dia.”
Na avaliação de Giannetti, o comércio internacional entrou em um período de decisões casuísticas e arbitrárias, com menor peso para instituições multilaterais.
“As regras foram para o espaço”, afirmou. “Nós hoje temos um comércio internacional absolutamente casuístico, arbitrário, onde impera a vontade e as decisões do governo americano sem nenhuma base legal e nem factual.”
O economista afirmou que o Brasil enfrenta uma situação especialmente difícil porque é acusado e ameaçado de tarifas apesar de manter relação comercial deficitária com os Estados Unidos.
Segundo ele, o país não se enquadra no argumento tradicional de comércio desleal usado contra outros parceiros comerciais.
“O Brasil é um dos poucos países que os Estados Unidos não pode acusar de comércio desleal, porque não tem um produto brasileiro que esteja sendo vendido para lá que possa ser acusado de dumping, subsídio ou o que seja”, disse.
Leia também: Mercosul usa tarifaço dos EUA para acelerar acordos fora do bloco, diz Roberto Giannetti
Giannetti afirmou que espera que esse comportamento americano termine com o fim do governo Trump, e que os Estados Unidos voltem a atuar como parceiro mais previsível no comércio internacional.
“Estamos vivendo um momento muito difícil, mas espero que acabe com o final do governo Trump e que os Estados Unidos voltem a ser um parceiro normal”, afirmou.
Apesar das críticas, o economista disse que o Brasil precisa seguir negociando e levar argumentos técnicos e contrapropostas à mesa.
Ele citou a atuação do vice-presidente Geraldo Alckmin e do ministro Márcio Elias Rosa na defesa dos interesses brasileiros.
“Vamos para o jogo. Temos bons quadros na equipe do governo, como o ministro Márcio Elias Rosa e o vice-presidente Geraldo Alckmin, que estão nos defendendo bravamente”, afirmou.
Para Giannetti, o desafio é enfrentar um ambiente em que as regras mudam rapidamente e em que a previsibilidade deixou de ser parte central da negociação.
“Se a gente conhecesse as regras, você sabe que jogo está jogando. Mas, de repente, ele não respeita a regra”, disse.
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