CNBC

CNBCRival da Nvidia, Cerebras estreia perto de US$ 100 bilhões e reforça corrida por chips de IA

Notícias do Brasil

Venda da Naskar a gestora americana pode ser uma farsa e sócios estudam recuperação judicial

Publicado 16/05/2026 • 06:00 | Atualizado há 32 minutos

KEY POINTS

  • A Naskar é investigada pela Polícia Civil do Distrito Federal pelo desaparecimento de aproximadamente R$ 1 bilhão pertencente a cerca de 3 mil clientes em todo o Brasil.
  • Sócios ganhavam tempo com investidores com história da venda para gestora criada há 100 dias, sem registro nos EUA e cujo dono é processado por estelionato.
  • Na quinta-feira (14), a fintech e a Azara Capital divulgaram uma nota conjunta anunciando a compra das empresas Naskar, 7Trust e Next pela gestora americana.
  • A empresa não consta nos registros de órgãos de autorregulação financeira dos EUA, o que impede que a Azara Capital possa gerir legalmente recursos de terceiros em território americano.
  • O único sócio-administrador da Azara Instituição de Pagamento Ltda é Douglas Silva de Oliveira Azara, com 24 protestos ativos em cartório e mais de 15 processos por estelionato e crimes contra o patrimônio - o que representa alto risco de crédito e alto risco jurídico.

Foto: Montagem

Na tarde e noite de sexta-feira (15), enquanto 3 mil investidores lesados aguardavam notícias sobre a devolução de seus recursos, um dia após a notícia de uma venda salvadora para uma gestora americana, os três sócios da Naskar estavam reunidos num escritório de advocacia na Avenida Paulista, em São Paulo, especializado em reestruturação empresarial e recuperação judicial. A informação é de uma fonte próxima do caso.

A Naskar é investigada pela Polícia Civil do Distrito Federal pelo desaparecimento de aproximadamente R$ 1 bilhão pertencente a cerca de 3 mil clientes em todo o Brasil. A fintech prometia retornos de 2% ao mês, equivalente a 175% do CDI, e operava sem registro no Banco Central ou na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). 

No início de maio, os pagamentos pararam, o aplicativo saiu do ar e os três sócios, Marcelo Liranco Arantes, Rogério Vieira e José Maurício Volpato, mais conhecido como Maurício Jahu, ex-apresentador da ESPN Brasil, cortaram qualquer comunicação com investidores e clientes.

Naquela semana, a empresa afirmou que estava em “auditoria interna” e que iriam restabelecer as atividades na semana atual, o que não ocorreu.

Gestora criada há 100 dias sem registro em nenhum país

Na quinta-feira (14), a fintech e a Azara Capital divulgaram uma nota conjunta anunciando a compra das empresas Naskar, 7Trust e Next pela gestora americana, por aproximadamente R$ 1,2 bilhão. A promessa era de que as tratativas para a devolução do dinheiro aos investidores começariam na semana seguinte.

Uma operação salvadora. Uma gestora dos Estados Unidos estaria disposta a comprar uma fintech com sérios problemas financeiros e de credibilidade. 

A Azara Capital LLC se apresentou como uma gestora norte-americana sediada em Miami, na Flórida. O site declara um endereço na 1000 Brickell Avenue, mas o Google Maps aponta o local para o Ocean Bank, banco comercial independente que não tem qualquer relação com a empresa. Quando se busca “Azara Capital” em aplicativos de geolocalização, nenhum resultado aparece.

A empresa não consta nos registros da Securities and Exchange Commission (SEC, equivalente americano da CVM) nem da Financial Industry Regulatory Authority (FINRA, órgão de autorregulação do mercado financeiro dos Estados Unidos). Sem esse registro, a Azara Capital não pode legalmente gerir recursos de terceiros em território americano.

No Brasil, existe registrada como Azara Instituição de Pagamento Ltda, CNPJ 65.032.964/0001-67, aberta em 4 de fevereiro de 2026, exatamente 100 dias antes do anúncio da compra da Naskar. A Receita Federal classifica a empresa como Empresa de Pequeno Porte, com capital social de R$ 13 milhões. Seu CNAE é genérico e não autoriza gestão de ativos nem captação de recursos de investidores.

🔍 SEC e FINRA: nos Estados Unidos, qualquer empresa que gerencie recursos de terceiros ou opere no mercado financeiro precisa de registro obrigatório nesses dois órgãos reguladores. Atuar sem esse cadastro é ilegal.

Site mambembe, domínio de US$ 50 e Instagram de três meses

A infraestrutura digital da Azara Capital diz mais sobre a empresa do que qualquer nota de imprensa. O site azara.capital é uma página única, sem subpáginas, sem histórico de operações, sem equipe identificada, sem relatórios, sem clientes listados e sem qualquer evidência de que a empresa já fez alguma coisa antes de aparecer no noticiário. 

O domínio foi registrado pela Hostinger, serviço de hospedagem barata com planos a partir de US$ 2,99 por mês. O servidor está na Amazon Web Services (AWS), em Ohio, o mesmo tipo de infraestrutura que qualquer pessoa contrata em minutos com um cartão de crédito, sem verificação de identidade, por menos de US$ 10 por mês.

Os servidores de e-mail divulgado no site como canal oficial funcionam numa caixa da Hostinger. Não há servidor corporativo, não há domínio próprio de e-mail, não há infraestrutura de empresa real. 

O detalhe mais revelador está no registro técnico do domínio: o arquivo de configuração foi atualizado em 14 de maio de 2026, o mesmo dia em que a nota de compra da Naskar foi divulgada à imprensa. O custo estimado de toda a infraestrutura digital da gestora que prometeu pagar R$ 1 bilhão a 3 mil investidores não chega a US$ 50 por ano.

Uma reportagem de William Matos, do portal Metrópoles, mostrou na tarde desta sexta-feira (15) que o perfil da Azara Capital no Instagram foi criado há apenas três meses. A partir desse ponto, a investigação do Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC levantou que a empresa não tem conta no LinkedIn. Após a repercussão da notícia de Matos, o perfil apagou uma publicação que prometia “capital rápido para negócios imobiliários”, deixou de seguir todas as contas que seguia e bloqueou a opção de comentários.

Gestor com renda de R$ 1,7 mil 

O único sócio-administrador da Azara Instituição de Pagamento Ltda é Douglas Silva de Oliveira Azara, de 25 anos. Em seu perfil pessoal no Instagram, ele se declarava fundador e diretor da Azara Capital. A informação foi removida horas após o anúncio da compra da Naskar.

Levantamento feito pelo Times Brasil | CNBC com base em dados públicos e documentos de compliance revela um perfil que não combina, nem de longe, com o de alguém à frente de uma gestora bilionária. Douglas tem renda declarada de R$ 1,7 mil por mês. Seu endereço residencial principal fica no Residencial Parque das Árvores, em Uberlândia (MG), um conjunto habitacional popular com apartamentos de 59 a 89 metros quadrados, aluguel médio de R$ 2,5 mil e valor de venda médio de R$ 320 mil. 

Segundo sites de compliance e pesquisas de reputação consultados pelo Times Brasil | CNBC, Douglas Silva de Oliveira Azara apresenta alto risco de crédito e alto risco jurídico. Tem 24 protestos ativos em cartório, totalizando R$ 386 mil, e responde a mais de 15 processos por estelionato e crimes contra o patrimônio. Múltiplas ações cíveis com execuções em andamento foram identificadas em seu nome.

Ao mesmo tempo, esse mesmo nome figura como sócio-administrador de outras 11 empresas brasileiras com capital social somado superior a R$ 2,4 bilhões, todas abertas entre janeiro de 2024 e fevereiro de 2026, quando tinha entre 23 e 25 anos. Entre elas está a Jabuti Capital Venture Group Ltda, com nome fantasia Banco Phoenix, capital social de R$ 1,07 bilhão e atividade de securitização de créditos, sediada em Barueri, São Paulo. Há ainda quatro fazendas com capitais entre R$ 27 milhões e R$ 285 milhões, duas transportadoras, um posto de combustíveis e uma empresa de armazéns gerais autorizada a emitir warrant, todas ativas, todas com Douglas como administrador único.

A Azara Instituição de Pagamento Ltda também apresenta alto risco de crédito e alto risco jurídico, apesar de ter apenas 100 dias de existência.

Empresas conectadas por protestos e processos criminais

Parte das empresas de Douglas tem como sócia a TRX Investimentos SA, CNPJ 39.232.481/0001-04, aberta em setembro de 2020. O CNAE declarado da TRX é criação de bovinos para corte, uma empresa registrada como pecuária que aparece como sócia em empreendimentos do setor financeiro. A TRX tem 96 protestos ativos somando R$ 870 mil e figura em processos que incluem menções a estelionato, sem condenação definitiva. A presidente da TRX é Célia de Fátima Ferreira, cujas conexões com os demais envolvidos ainda estão sendo investigadas.

No mesmo dia em que abriu a Azara IP, em 4 de fevereiro de 2026, Douglas constituiu também a Phoenix Instituição de Pagamento Ltda, com nome fantasia Phoenix Capital IP. Mesma data, mesmo endereço em Brasília, mesmo capital social de R$ 13 milhões, mesmo CNAE genérico. Duas instituições de pagamento idênticas abertas simultaneamente, sem explicação pública.

Nota conjunta levanta suspeitas sobre o papel da Naskar

A nota que anunciou a compra foi divulgada conjuntamente pela Naskar e pela Azara Capital. Em aquisições legítimas, quem anuncia a compra é o comprador. Neste caso, a empresa investigada pelo desaparecimento de R$ 1 bilhão participou ativamente da redação e divulgação da nota que anunciava sua própria venda.

Para Bruno Boris, sócio fundador do Bruno Boris Advogados, o anúncio representa, do ponto de vista jurídico, “um nada”. “Deve-se aguardar a efetiva concretização do alegado negócio”, afirmou o advogado, consultado pelo Times Brasil | CNBC.

Rafael Mortari, sócio do Mortari Bolico Sociedade de Advogados, vai além. Para ele, a preocupação legítima é que esse tipo de declaração sirva como instrumento de gestão do tempo, desacelerando ações judiciais enquanto ativos são movimentados ou diluídos. A orientação técnica, segundo o advogado, é que nenhum investidor deveria suspender medidas judiciais já em curso, especialmente bloqueios e cautelares, com base exclusivamente em uma nota pública. 

Uma fonte próxima do caso confirmou ao Times Brasil | CNBC que os três sócios da Naskar estudam entrar com pedido de recuperação judicial. Rogério Vieira é presidente da 7Trust, empresa incluída no pacote da suposta aquisição. Maurício Jahu é diretor da mesma empresa.

Eduardo Terashima, sócio do NHM Advogados, alerta para um padrão recorrente em casos brasileiros de captação irregular de recursos. Segundo ele, às vésperas ou no início do colapso de esquemas financeiros, é comum surgir o anúncio de um comprador internacional ou de uma fusão que supostamente vai honrar os passivos. Esse tipo de anúncio, avalia o advogado, cumpre três funções: deslocar o caso da esfera criminal para a cível, sob a narrativa de inadimplemento e não de fraude; ganhar tempo, desestimulando investidores a renovar medidas cautelares e manter o ritmo das ações em curso; e abrir uma janela para eventual dissipação patrimonial, com transferências e ocultação de bens. 

Terashima ressalva que não há elementos para afirmar que esse seja o caso da Naskar, mas recomenda que investidores que pausaram suas ações retomem imediatamente as estratégias processuais, sem subordiná-las a anúncios sem respaldo em documentação verificável. 

O Times Brasil | CNBC enviou perguntas formais à Azara Capital sobre a existência legal da empresa nos Estados Unidos, a origem dos recursos para a aquisição, o contrato de compra e venda e o perfil de Douglas Silva de Oliveira Azara. A assessoria pediu prazo até a noite de sexta-feira para responder. Até a publicação desta edição, não havia retorno.

📌 ONDE ASSISTIR AO MAIOR CANAL DE NEGÓCIOS DO MUNDO NO BRASIL:


🔷 Canal 562 ClaroTV+ | Canal 562 Sky | Canal 592 Vivo | Canal 187 Oi | Operadoras regionais

🔷 TV SINAL ABERTO: parabólicas canal 562

🔷 ONLINE: www.timesbrasil.com.br | YouTube

🔷 FAST Channels: Samsung TV Plus, LG Channels, TCL Channels, Pluto TV, Roku, Soul TV, Zapping | Novos Streamings

Siga o Times Brasil - Licenciado Exclusivo CNBC no

MAIS EM Notícias do Brasil