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Allan Ravagnani AI-451

Google parou de competir com a OpenAI e apresentou a infraestrutura Gemini que todo mundo vai usar

Publicado 20/05/2026 • 13:30 | Atualizado há 9 minutos

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Allan Ravagnani

Repórter

Allan Ravagnani é jornalista há 20 anos, duas vezes eleito entre os 50 jornalistas de Economia mais admirados do Brasil. Assina a coluna AI-451 e é repórter do Times Brasil | CNBC. Estudou Publicidade na ESPM e Jornalismo na Fapcom, fez pós-graduações em Macroeconomia, Finanças e Ciência Política.

KEY POINTS

  • Google I/O 2026 apresenta Gemini Spark, agente pessoal 24/7 que gerencia e-mail, agenda e tarefas enquanto o usuário dorme
  • Gemini 3.5 Flash é quatro vezes mais rápido que modelos concorrentes a menos da metade do preço, segundo Google
  • Óculos inteligentes com Gemini chegam no outono com parceiros Warby Parker e Gentle Monster para uso diário sem tela
Óculos inteligentes Warby Parker com Android XR e Gemini no ouvido chegam no outono sem display e sem precisar tirar o celular do bolso

Reprodução/Google com efeitos inseridos pelo Gemini

Óculos inteligentes Warby Parker com Android XR e Gemini no ouvido chegam no outono sem display e sem precisar tirar o celular do bolso

Na coluna de terça-feira (19), eu contei como o Google havia colocado o Gemini dentro do cursor do mouse, nos laptops Googlebooks e na camada de sistema do Android. Era o Android Show, o evento de aquecimento, e parecia grande o suficiente para ser o evento principal. Pois bem: o jantar chegou na terça-feira (19).

Quando Sundar Pichai subiu ao palco em Mountain View, a primeira coisa que ele fez não foi apresentar um produto. Foi revelar um número. Dois anos atrás, o Google processava 9,7 trilhões de tokens por mês em todas as suas superfícies. No ano passado, esse número havia saltado para 480 trilhões. Diante da plateia do Google I/O 2026, o número era outro: mais de 3,2 quadrilhões de tokens por mês, crescimento de sete vezes em doze meses.

Para quem acompanha a série AI-451 e se pergunta como medir a corrida de IA em algo concreto, ali estava a resposta. Não em demos de laboratório, nem benchmarks, mas em escala industrial, a cada segundo do dia.

O Google parou de correr atrás dos concorrentes e decidiu, ele mesmo, construir a estrada.

Leia também: Google fez com o mouse o que ninguém ousou em 58 anos, e ainda trouxe mais novidades

Velocidade que muda o jogo econômico

O anúncio mais denso do I/O, tecnicamente, foi o Gemini 3.5 Flash. O modelo entrega desempenho de fronteira, superando o próprio Gemini 3.1 Pro nas principais métricas de raciocínio e codificação, a uma velocidade quatro vezes maior que os modelos comparáveis no mercado, por menos da metade do preço.

Pichai foi direto ao ponto: grandes empresas estão esgotando seus orçamentos anuais de tokens em maio. Se migrassem 80% das cargas de trabalho para o 3.5 Flash, economizariam mais de um bilhão de dólares por ano.

O Google anunciou a oitava geração dos seus TPUs, os chips de processamento que a empresa fabrica para uso próprio, com arquitetura dual: um chip especializado em treinamento de modelos, outro otimizado para inferência, que é o momento em que o modelo responde ao usuário. O chip de treinamento tem quase três vezes mais capacidade de processamento bruto do que a geração anterior. O de inferência foi construído com uma obsessão que o Google resumiu numa frase que soa simples mas não é: latência importa. Quando a empresa diz que o Gemini 3.5 Flash é quatro vezes mais rápido que os concorrentes, está dizendo também que ela fabrica o silício que faz isso possível.

Nenhuma outra empresa do setor controla essa cadeia do início ao fim.

Spark, o agente que o Google viu nascer em outro lugar

Aqui a história fica interessante para quem acompanha esta coluna desde o começo. Em abril, quando a Anthropic revelou o Conway, o agente interno que operava em segundo plano nas máquinas dos funcionários, chamei aquilo de sinal de que a corrida havia mudado de categoria. Não era mais sobre qual modelo respondia melhor a perguntas, mas sobre qual empresa conseguia colocar um agente trabalhando enquanto você dormia.

O Google I/O respondeu com o Gemini Spark. O próprio The Verge definiu o Spark como "o OpenClaw do Google", e não foi por acidente. O Spark roda em máquinas virtuais dedicadas na nuvem do Google, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, mesmo quando o laptop está fechado.

Ele se integra ao Gmail, ao Docs, ao Sheets, ao Slides, ao Canva e ao Instacart. Recebe tarefas complexas, cria subagentes, itera, entrega. Você pode mandar um e-mail para ele. Pode pedir que monitore faturas de cartão de crédito, que sintetize notas de reunião e crie documentos, que rastreie prazos e avise quando alguma coisa importante acontecer.

Conway, da Anthropic. Operator, da OpenAI. Spark, do Google. Três empresas, três agentes pessoais, uma mesma aposta: que o próximo campo de batalha não é o modelo mais inteligente, mas o agente mais confiável, aquele que você vai deixar entrar na sua caixa de entrada - e ele talvez sempre retribuirá a gentileza.

Gemini Omni e o vídeo que aprende física

Entre os lançamentos que merecem atenção separada está o Gemini Omni Flash, o primeiro modelo da família Omni, disponível a partir de quarta-feira (20) no aplicativo Gemini, no Google Flow e no YouTube Shorts. A diferença em relação ao que existia antes é mais do que técnica: o Omni gera vídeo a partir de texto e também aceita qualquer combinação de entradas, texto, imagem, vídeo já existente e áudio, e produz um resultado coerente com todos eles.

Você pode editar um vídeo descrevendo o que quer mudar em linguagem natural, e o modelo mantém a consistência de personagens, a física da cena e o contexto da sequência através de múltiplas rodadas de edição.

O Google diz que o Omni tem compreensão intuitiva de forças como gravidade, energia cinética e dinâmica de fluidos. Isso soa como material de release, mas a demonstração com uma bola de gude percorrendo uma pista de reação em cadeia, sem cortes, sem artefatos, com física coerente ao longo de toda a trajetória, foi o tipo de coisa que, há dezoito meses, teria sido impossível de gerar sem renderização 3D manual. Todos os vídeos gerados pelo Omni carregam a marca d'água invisível SynthID, o sistema de rastreamento de conteúdo gerado por IA que o Google desenvolve desde 2023 e que agora conta com a adesão da OpenAI, da Kakao e da Eleven Labs.

Motor de busca em uma nova era

O Search também ganhou outra camada de complexidade no I/O. A caixa de busca foi redesenhada pela primeira vez em 25 anos: expande para dar espaço a perguntas longas, aceita texto, imagem, arquivo, vídeo e abas abertas no Chrome como entrada, e gera sugestões que vão além do autocompletar.

Mais do que isso, o Search passou a ter agentes de informação que operam em segundo plano, monitorando tópicos específicos escolhidos pelo usuário, e a capacidade de gerar interfaces interativas sob medida para cada pergunta, gráficos, simulações, painéis de acompanhamento, sem que o usuário precise programar nada. Pichai chamou isso de "mini apps para tarefas que você pesquisa repetidamente". É o Search deixando de ser uma porta de entrada para se tornar o próprio destino.

Gemini no espaço entre os olhos e o mundo

E então vieram os óculos. Um dos melhores lançamentos da empresa no ano. O Google anunciou as primeiras armações com Android XR para o outono, em parceria com a Warby Parker e a Gentle Monster. Sem display, com Gemini no ouvido. Você olha para um restaurante e pede as avaliações. Está numa calçada e quer direções. Ouve uma conversa em outro idioma e precisa de tradução em tempo real, com a voz do Gemini mantendo o tom e o ritmo do falante original. O telefone fica no bolso.

Isso não é gadget de nicho. É o Gemini alcançando a última superfície que ele ainda não havia tocado, o espaço entre os seus olhos e o mundo. Quer dizer, já tentaram né, mas o google glasses não teve tanto apelo.

Depois do cursor de ontem, do celular, do relógio, do carro e do laptop, o óculos fecha o círculo. A pergunta que fica, e que a coluna AI-451 vai continuar acompanhando, é quando esse círculo começa a apertar.

O Google jogou o seu próprio jogo

Há doze meses, a narrativa dominante era a de que o Google havia perdido a corrida de IA para a OpenAI e precisava recuperar terreno. O I/O 2026 encerrou esse capítulo.

Com 900 milhões de usuários mensais no app do Gemini, mais de dois bilhões no AI Overviews do Search e um bilhão no AI Mode em apenas um ano de vida, o Google não está recuperando terreno. Está construindo um território diferente, onde a IA não é um produto separado que você abre quando precisa, mas a camada que atravessa tudo: o e-mail, a busca, os olhos, o cursor do mouse, o agente que trabalha enquanto você não está olhando.

Pichai disse que vê o Gemini como "a maneira mais profunda de avançar a missão do Google". Pode ser mais um clichê corporativo, mas quando a empresa anuncia que vai investir entre 180 e 190 bilhões de dólares em infraestrutura neste ano, seis vezes o que investia em 2022, o clichê começa a ter peso de concreto.

O Google está construindo a ferrovia e não está pedindo licença - nunca pediu né? - para passar.

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