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EXCLUSIVO: Sócios da Naskar desmontaram estrutura financeira semanas antes de sumirem com quase R$ 1 bilhão
Publicado 17/05/2026 • 20:04 | Atualizado há 4 semanas
Publicado 17/05/2026 • 20:04 | Atualizado há 4 semanas
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Reprodução
Quem são os sócios da Naskar, fintech investigada por sumiço de R$ 1 bilhão
Atualização: matéria atualizada às 6h25 com as respostas da Naskar à reportagem.
Registros públicos da Junta Comercial do Estado de São Paulo (JUCESP) mostram uma sequência de alterações societárias realizadas nos 60 dias anteriores ao colapso da Naskar, fintech investigada pela Polícia Civil do Distrito Federal por suposta captação irregular de recursos.
Entre março e maio de 2026, os controladores da empresa mudaram razões sociais, retiraram atividades financeiras dos objetos sociais e abriram duas novas empresas no mesmo dia em que comunicaram às vítimas uma suposta “perda na base de dados”.
A Naskar operava captação de recursos junto a pessoas físicas mediante contrato de mútuo, com promessa de rendimento mensal fixo entre 1,5% e 2%. Segundo estimativas de ações judiciais em curso, a operação teria envolvido entre R$ 850 milhões e R$ 1 bilhão de aproximadamente 3.000 clientes em todo o Brasil.
O Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC enviou uma lista de 16 perguntas aos sócios da Naskar. A empresa respondeu na noite de domingo (17), contestando alguns pontos da matéria e dando sua versão.
Leia também: Naskar: venda à gestora americana levanta suspeita de farsa e sócios estudam pedir recuperação judicial
60 DIAS ANTES DO COLAPSO
Cronologia do desmonte
17 MAR 2026
A alteração foi arquivada na JUCESP com o número NUM.DOC 1.152.593/26-2. Cinquenta dias depois, a fintech deixaria de pagar os rendimentos contratados a cerca de 3.000 clientes. A troca de “Instituição de Pagamento” por “Gestão de Ativos” elimina formalmente a referência regulatória do nome, mas não alterou o CNAE principal registrado na Receita Federal, que permanece como atividade auxiliar de serviços financeiros.
07 ABR 2026
A NextGen Gestão Financeira Ltda alterou a razão social para NextGen Serviços de Apoio Administrativo Ltda e retirou do objeto social os CNAEs de atividades auxiliares dos serviços financeiros e de correspondentes de instituições financeiras. O ato foi arquivado sob NUM.DOC 1.185.247/26-9. A mudança ocorreu 30 dias antes do colapso público da Naskar.
14 ABR 2026
Arquivada sob NUM.DOC 1.196.896/26-4, a alteração retirou formalmente as atividades financeiras do objeto social da Naskar Gestão de Ativos. A medida, porém, não chegou ao cadastro federal: o Cartão CNPJ da Receita Federal mantém até hoje o CNAE 66.19-3-99 e o nome fantasia “Naskar Holding”. Segundo o advogado Vinícius Barboza, do BMS Advocacia, a retirada de CNAEs não afasta a caracterização de captação irregular de recursos.
04 MAI 2026
Na primeira segunda-feira (4) do mês, data habitual de crédito dos rendimentos, os aproximadamente 3.000 clientes não recebem nada. Não há comunicado prévio. No dia 5, o aplicativo Naskar Cliente sai do ar. No dia 6, os telefones de atendimento param de responder. A operação teria movimentado entre R$ 850 milhões e R$ 1 bilhão, segundo estimativas de ações judiciais em curso.
07 MAI 2026
No mesmo dia em que a Naskar enviou por e-mail sua única nota corporativa do período, alegando “perda na base de dados”, dois dos três controladores constituíram novas empresas na JUCESP: Voga Apoio Administrativos Ltda (Marcelo Liranço Arantes, sede em Cotia/SP) e Spy Apoio Administrativos Ltda (José Maurício Volpato, sede em endereço residencial). Ambas com capital de R$ 10.000,00, registradas pela mesma contabilidade. O posicionamento prometido na nota nunca veio.
09 MAI 2026
No mesmo sábado (9), às 11h53, a Naskar enviou uma Carta de Circularização solicitando seis documentos pessoais a cada cliente em dez dias, com cláusula de não reconhecimento automático de saldo. Para o advogado Vinícius Barboza, o documento configura um mecanismo de gestão processual. Os réus incluem a 7Trust Finance, a Family Office Daytona, a Naskar Gestão de Ativos, a Next Holding e os controladores Marcelo Liranço Arantes e José Maurício Volpato.
Elaboração: Allan Ravagnani — Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC
Em 17 de março de 2026, a empresa mudou sua razão social de Naskar Instituição de Pagamento Ltda para Naskar Gestão de Ativos Ltda. Cinquenta dias depois, o colapso se tornaria público.
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Seguir no GoogleEm 7 de abril, a NextGen Gestão Financeira Ltda, empresa do mesmo grupo, alterou sua própria razão social para NextGen Serviços de Apoio Administrativo Ltda e retirou do objeto social os CNAEs de atividades auxiliares de serviços financeiros e de correspondentes de instituições financeiras. Trinta dias antes do colapso.
Em 14 de abril, foi a vez da própria Naskar retirar as atividades financeiras de seu objeto social junto à JUCESP. Vinte e três dias antes de deixar de pagar os rendimentos contratados.
Para Vinícius Barboza, doutor em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo e sócio fundador do BMS Advocacia, a sequência de movimentos societários registrada nos meses anteriores ao colapso aponta para um padrão que pode embasar pedidos de desconsideração da personalidade jurídica dos controladores. “A confusão patrimonial ou o desvio de finalidade da empresa podem originar a responsabilização dos sócios”, afirma o advogado, ressalvando que qualquer medida depende de intervenção do Poder Judiciário.
Na avaliação de Barboza, a retirada de CNAEs financeiros do objeto social não tem o efeito que a defesa poderia alegar. “Não afasta a caracterização de captação irregular de recursos”, afirma. A responsabilidade criminal dos controladores, acrescenta, “remanescerá e deverá ser apurada em investigação policial”, independentemente das alterações promovidas nos registros comerciais.
🔍 CNAE é o Código Nacional de Atividade Econômica, registro obrigatório que define legalmente o que uma empresa pode fazer. Retirar CNAEs financeiros do objeto social significa, na prática, que a empresa passa a declarar formalmente que não exerce mais atividades no setor, o que pode dificultar a responsabilização em processos judiciais futuros.
Leia também: Fintech Naskar, que oferecia remuneração maior que do Banco Master, desaparece com R$ 1 bi dos clientes

Em 7 de maio de 2026, quinta-feira, a Naskar enviou por e-mail sua única comunicação oficial do período, informando uma suposta “perda na base de dados” e prometendo um posicionamento institucional que nunca veio. No mesmo dia, registros da JUCESP mostram a constituição de duas novas empresas pelos controladores do grupo.
A primeira foi a Voga Apoio Administrativos Ltda, CNPJ 66.672.979/0001-52, com capital de R$ 10.000,00, tendo Marcelo Liranço Arantes como sócio único e administrador, com sede em Cotia/SP. A segunda foi a Spy Apoio Administrativos Ltda, CNPJ 66.672.571/0001-80, também com capital de R$ 10.000,00, tendo José Maurício Volpato como sócio único e administrador, com sede em endereço residencial declarado do próprio Volpato, em São Paulo/SP. Ambas foram registradas pela mesma contabilidade, a MC Mais Contabilidade S/S.
🔍 José Maurício Volpato é também conhecido como Maurício Jahu, ex-jogador de vôlei e ex-apresentador da ESPN Brasil. Junto com Marcelo Liranço Arantes e Rogério Vieira, ele compõe o núcleo controlador da Naskar, conforme reconhecido pelo Banco Central no Comunicado 44.862, de 11 de março de 2026.
Barboza pondera que a coincidência de datas, por si só, não gera consequências automáticas. Para enquadrar a abertura das empresas como fraude a credores ou blindagem patrimonial, nos termos dos artigos 158 e seguintes do Código Civil e dos artigos 130 a 133 da Lei 11.101/2005, será necessário demonstrar má-fé e nexo de causalidade entre os atos e os prejuízos sofridos pelos investidores. “A anulação não é consequência imediata”, afirma o advogado.
Leia também: Linha do tempo: como os sócios da Naskar abandonaram a sede e sumiram com o dinheiro de investidores
A sequência de atos registrada nos 60 dias anteriores ao colapso corresponde ao que a doutrina e a jurisprudência brasileiras reconhecem como blindagem patrimonial reativa, prática regulada pelos artigos 130 a 133 da Lei 11.101/2005 e pelos artigos 158 e seguintes do Código Civil.
Ainda assim, nenhuma das alterações societárias foi suficiente para atualizar o cadastro federal da empresa. O Cartão CNPJ da Naskar Gestão de Ativos mantém, até o fechamento desta reportagem, o CNAE principal 66.19-3-99, de outras atividades auxiliares dos serviços financeiros, e CNAEs secundários de factoring, correspondentes de instituições financeiras e atividades de cobrança. O nome fantasia oficial registrado na Receita Federal também permanece como “Naskar Holding”.
Para Barboza, essa divergência entre o registro estadual e o cadastro federal tem consequências jurídicas, ainda que limitadas para os credores. Do ponto de vista argumentativo, a manutenção dos CNAEs financeiros na Receita Federal pode ser usada para demonstrar que a empresa continuava a se apresentar publicamente como instituição financeira mesmo após as alterações na JUCESP, embora o advogado avalie que essa linha teria “muita fraqueza” se adotada como argumento de defesa pelos sócios.
Leia também: Meses antes de sumir com quase R$ 1 bilhão, Naskar já havia abandonado sede oficial em São Paulo
Questionada pelo Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC, a Naskar afirmou que todas as alterações societárias realizadas nos meses anteriores ao colapso – mudança de razão social, retirada de CNAEs financeiros e constituição das empresas Voga e Spy – decorreram de “reorganizações societárias e administrativas”, sem detalhar quais foram essas reorganizações ou qual cronograma as motivou.
Sobre a abertura de Voga e Spy no mesmo dia da nota corporativa de 7 de maio, a empresa acrescentou que Marcelo Liranço Arantes e José Maurício Volpato constituíram as sociedades “em função da possível venda do grupo“, com o objetivo de atuarem como consultores ou prestadores de serviço.
A Naskar também contestou as estimativas de captação divulgadas por veículos de imprensa e presentes em ações judiciais em curso. Segundo a empresa, o processo de auditoria interna aponta valor inferior a R$ 400 milhões, embora ressalve que “os números ainda não se encontram totalmente fechados”. As estimativas de processos judiciais e da imprensa apontam entre R$ 850 milhões e R$ 1 bilhão.
Sobre a Family Office Daytona – empresa registrada com o e-mail de Rogério Vieira mas tendo como sócia formal Ana Elisa Laporta de Abreu, a Naskar afirmou que a sociedade “não possui nenhum vínculo com o Grupo Naskar“.
Por fim, a empresa confirmou o vínculo com a Hagar Gestão Financeira, que opera fisicamente na antiga sede da Naskar na Vila Olímpia. Segundo a resposta enviada à reportagem, a Hagar “representa comercialmente a Naskar” e se instalou no endereço “em função de políticas de planejamento comercial“, junto a outros parceiros que também ocupavam o espaço.
Em 11 de março de 2026, o Banco Central publicou o Comunicado 44.862, confirmando a Next Holding Financeira Ltda como controladora direta da 7Trust Finance Instituição de Pagamento S/A e identificando Marcelo Liranço Arantes, Rogério Vieira e José Maurício Volpato como controladores finais da estrutura. O mesmo comunicado veio seis meses após o Bacen ter registrado, em outubro de 2025, que a 7Trust operava em regime de “processo de autorização”, sem nunca ter obtido a autorização final para funcionar como instituição de pagamento.
A concentração física do grupo em torno de um único endereço reforça o quadro de estrutura unificada de controle que o Bacen já havia reconhecido formalmente. Em 8 de setembro de 2025, os três controladores declararam simultaneamente, na JUCESP, mudança de endereço residencial para salas individuais no 20º andar do edifício Alameda Rio Negro, 500, em Alphaville, Barueri. No mesmo edifício e no mesmo andar estão registradas a sede oficial da 7Trust Finance, a Next Holding Financeira e a NextGen Serviços. A sala 2003, declarada como residência de Marcelo Liranço Arantes, é o mesmo endereço oficial da sede da 7Trust na Receita Federal, com domicílio de pessoa física e sede de pessoa jurídica sobrepostos no mesmo espaço.
O reconhecimento formal do Banco Central sobre a estrutura de controle é, segundo o jurista Vinícius Barboza, um ponto de partida relevante para a responsabilização dos três nas esferas civil e criminal. “É um começo, mas a outorga judicial do entendimento é necessária”, afirma.
🔍 7Trust Finance era a instituição de pagamento parceira da Naskar, responsável pelo processamento das operações financeiras dos clientes. A custódia das contas ficava a cargo da CelCoin Instituição de Pagamento S.A., empresa independente que atuava como infraestrutura tecnológica da operação.
Na segunda-feira (4) de maio de 2026, a Naskar deixou de creditar os rendimentos mensais contratados. No dia seguinte, o aplicativo Naskar Cliente saiu do ar. No sábado (9), foram distribuídas quatro tutelas cautelares antecedentes em três tribunais distintos, com réus que incluem a 7Trust, a Family Office Daytona, a Naskar Gestão de Ativos, a Next Holding e os controladores Marcelo Liranço Arantes e José Maurício Volpato.
No mesmo sábado (9), às 11h53, a Naskar enviou uma Carta de Circularização pelo e-mail auditoria@sejanaskar.com.br solicitando seis documentos pessoais a cada cliente em prazo de dez dias, com cláusula expressa de não reconhecimento automático de saldo, novação ou quitação.
🔍 Tutela cautelar antecedente é um mecanismo processual que permite ao juiz tomar medidas de proteção, como bloqueio de bens, antes mesmo de o processo principal ser iniciado. Seu deferimento exige que o autor demonstre urgência e risco de dano irreparável.
Na quinta-feira (14) de maio, a Naskar e a empresa Azara, constituída em fevereiro e apresentada como “gestora americana”, divulgaram nota conjunta anunciando a venda das empresas do grupo por aproximadamente R$ 1,2 bilhão, com a promessa de que as tratativas para a devolução dos recursos aos investidores começariam na semana seguinte.
Barboza avalia que anúncios desse tipo, sem documentação verificável, podem funcionar como instrumento para amenizar os efeitos das ações judiciais em curso, inibir novos processos e melhorar a imagem institucional da empresa investigada. Investidores que suspenderam medidas cautelares com base no anúncio, afirma o advogado, “se sub-rogaram ao risco da confiança”. Se o anúncio se revelar infundado, acrescenta, é possível pedir a responsabilização dos emissores da informação por manipulação de mercado.
Na tarde e noite da sexta-feira (15), enquanto os 3.000 investidores lesados aguardavam notícias sobre a devolução de seus recursos, os três sócios da Naskar estavam reunidos num escritório de advocacia na Avenida Paulista, em São Paulo, especializado em reestruturação empresarial e recuperação judicial. A informação é de uma fonte próxima ao caso, ouvida pelo Times Brasil | CNBC em condição de anonimato. Segundo essa mesma fonte, os controladores estudam entrar com um pedido de recuperação judicial.
A Polícia Civil do Distrito Federal abriu apuração formal sobre o caso na sexta-feira (8) de maio. Até o fechamento desta reportagem, os três controladores da Naskar permaneciam incomunicáveis, o aplicativo inacessível e as empresas do grupo sem manifestação oficial substantiva. O Times Brasil | CNBC foi o primeiro veículo a receber respostas do grupo.
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