Na manhã de quarta-feira (05), enquanto analistas de Wall Street ainda tentavam separar os números que Uber, DoorDash, Shopify e Disney tinham acabado de divulgar num intervalo de poucas horas, uma notícia vinda de Mountain View interrompeu o fluxo de relatórios trimestrais e roubou a atenção de quem cobre o setor de tecnologia.
O Google anunciou que Demis Hassabis, o rosto público da DeepMind e vencedor do prêmio Nobel, deixava a cadeira de comando direto da divisão para se tornar chair da unidade de inteligência artificial e cientista-chefe da controladora Alphabet, enquanto Koray Kavukçuoglu, até então o executivo que de fato tocava a rotina da empresa, assumia formalmente as rédeas operacionais.
No mesmo dia, do outro lado do mapa da corrida por inteligência artificial, a Anthropic anunciava um movimento na direção oposta, abrindo vagas para montar um time interno dedicado a desenhar chip próprio, projetado lado a lado com os modelos que a empresa treina.
Cadeira nova para o rosto da DeepMind
A julgar pela reação imediata do mercado, a notícia pareceu mais dramática do que é. As ações do Google caíram 4% na sequência do anúncio, e parte da imprensa tratou a mudança como sinal de crise interna. O jornalista Martin Peers, do The Information, discorda dessa leitura.
Hassabis nunca foi, segundo ele, quem geria o dia a dia da DeepMind. Essa função sempre coube a Kavukçuoglu, que agora apenas formaliza um papel que já exercia na prática. Hassabis continua sendo o rosto público da divisão e segue à frente da Isomorphic Labs, a unidade de descoberta de medicamentos da Alphabet, papéis que combinam mais com o perfil de cientista do que com o de executivo que precisa lidar com investidores, imprensa e audiências no Congresso americano.
🔍 Chair, no organograma corporativo americano, é um cargo de presidência de conselho ou unidade, mais ligado à representação e à direção de longo prazo do que à gestão do dia a dia, que no caso da DeepMind passa a ser função de Kavukçuoglu.
Saída de Jeff Dean pesa mais no símbolo
A notícia que realmente incomodou quem acompanha o Google de perto é a saída de Jeff Dean. Cientista-chefe e um dos nomes mais respeitados da história recente da empresa, Dean deixa a companhia para abrir a própria firma, ao lado de outros pesquisadores da DeepMind.
Segundo apurou a colunista Erin Woo, do The Information, o burburinho interno é de que Dean já vinha perdendo espaço nos esforços ligados ao Gemini, mesmo continuando reverenciado pelos funcionários. É o tipo de saída que pesa mais no símbolo do que na operação diária, mas que reabre a pergunta sobre quem sucede Sundar Pichai à frente do Google e da Alphabet. Hassabis figurava nessa lista informal de sucessores, ao lado do chefe do Google Cloud, Thomas Kurian.
Se Hassabis prefere seguir como cientista a se tornar CEO de uma divisão, o nome de Kurian ganha força.
Chip da Anthropic
Enquanto o Google reorganiza o topo do organograma, a Anthropic segue um caminho mais discreto e mais concreto. Quem acompanha esta coluna lembra que, há poucas semanas, tratamos aqui da aproximação entre a Anthropic e a Samsung, negociação que mira o processo de fabricação em 2 nanômetros da fabricante coreana e que avançou depois de a Samsung ver travar um acordo semelhante que tinha fechado antes com a OpenAI.
Naquele momento, o sinal mais concreto de que a Anthropic levava o projeto a sério era a contratação de Clive Chan, engenheiro que participou desde o início do próprio time de silício da OpenAI. Agora o movimento sai da fase de contratação pontual e vira estrutura.
A empresa abriu vagas para um time dedicado a desenhar chip de inteligência artificial sob medida, com o objetivo declarado de codesenhar hardware e modelo ao mesmo tempo, de forma que a tecnologia rode mais rápido e de maneira mais eficiente. É a mesma lógica que já levou Google, Amazon e Microsoft a desenvolver TPUs e chips próprios dentro de suas nuvens, na tentativa de reduzir a dependência da Nvidia, ainda que a fabricante liderada por Jensen Huang continue detendo algo perto de 74% do mercado de chips de inteligência artificial, fatia maior do que tinha antes de essa corrida do silício próprio começar.
O contraste entre os dois anúncios do mesmo dia diz sobre o momento das duas empresas. O Google, gigante estabelecido, discute sucessão, cadeiras e organogramas, num movimento que Pichai descreveu como um jeito de deixar Hassabis moldar ativamente o futuro da inteligência artificial.
A Anthropic, ainda em fase de construção, soma gente e amplia o próprio time de hardware, na tentativa de fechar um ciclo que começou nas negociações com a Samsung e que agora ganha um departamento interno dedicado a tocar o projeto do zero. Duas empresas, dois estágios diferentes da mesma corrida, e um detalhe que só um dia de coincidências de calendário conseguiu colocar lado a lado.
Montanha russa dos semicondutores na bolsa
Depois de fechar o segundo trimestre com crescimento de 48%, dois pontos acima do ritmo do primeiro, a Figma surpreendeu o mercado na quarta-feira (5) ao projetar apenas 36% para o terceiro trimestre, uma queda de doze pontos percentuais que investidores não perdoaram.
As ações caíram 15% no after hours. A empresa também revisou para baixo a margem operacional esperada para o ano, de 13% para 9%, e atribuiu parte do recuo a investimentos em produtos ainda em teste, que a Figma não cobra dos clientes enquanto amadurecem.
No release, a companhia citou diretamente a pressão de concorrentes movidos a inteligência artificial, entre eles a Anthropic, como parte do cenário competitivo que pesa sobre o negócio. Dois executivos de longa data também deixaram a empresa na mesma semana.
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