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Micron vale US$ 1 trilhão, falta memória no mundo e o assessor de imprensa está ‘até o pescoço’ com as pautas de I.A.
Publicado 27/05/2026 • 15:55 | Atualizado há 50 minutos
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Publicado 27/05/2026 • 15:55 | Atualizado há 50 minutos
KEY POINTS
Imagen (Google) / AI-451
Chips de memória HBM empilhados com circuitos iluminados em azul e dourado, representando a escassez de memória na era da inteligência artificial
Tem um detalhe na reportagem do Guardian que saiu no último domingo (24) que merece mais atenção do que recebeu. Jornalistas de tecnologia no Reino Unido estão relatando que os assessores de imprensa chegam até eles com um pedido cada vez mais frequente, e cada vez mais difícil de digerir: convencer a imprensa de que seus clientes são empresas de inteligência artificial.
Uma agência de Relações Públicas em Londres disse que cerca de 50% das pautas que envia, preferia não ter enviado. Outra descreveu o contorcionismo retórico dos clientes como "posturas de Hot Yoga" para parecerem relevantes no tema. Um terceiro profissional contou a história de uma empresa imobiliária tentando vender um scanner manual de ambientes como produto de IA. Era automação, explicou ele, não IA generativa. Mas o cliente insistiu.
Até mesmo a sigla AI a inteligência artificial roubou dos assessores de imprensa. E a nossa agenda agora virou uma confusão.
O leitor desta coluna já conhece esse movimento. Vimos a Allbirds, marca de tênis de lã que chegou a valer US$ 4 bilhões no IPO e depois implodiu, anunciar que viraria uma empresa de aluguel de GPUs chamada NewBird AI, com as ações disparando mais de 600% num único pregão. O manual é o mesmo que o dos rebrands de blockchain em 2017: quando o negócio vai mal e o label da vez está em alta, você troca a placa. Naquele ciclo, uma empresa de chá gelado no Reino Unido mudou de nome para Long Blockchain Corp e as ações subiram 200%. Hoje, o scanner de imóveis virou IA e o tênis de lã virou GPU.
Existe um termômetro pouco convencional para medir o grau de saturação de um ciclo de hype, que é o momento em que os profissionais contratados para vender uma ideia começam a se envergonhar do próprio trabalho. Os profissionais de PR venderam NFTs sem piscar. Venderam metaverso empresarial com PowerPoint de 40 slides e olho seco. Venderam o "momento ChatGPT" de cada empresa que fabricava desde parafuso até fertilizante. Mas agora, pela primeira vez em anos, estão dizendo não, ou pelo menos dizendo que gostariam de dizer não.
Na terça-feira (26), a Micron Technology atingiu US$ 1 trilhão em valor de mercado pela primeira vez na história, depois de um salto de 19% num único pregão. No mesmo dia, a sul-coreana SK Hynix também alcançou a mesma marca. As duas empresas, junto com a Samsung, controlam cerca de 90% do mercado global de chips de memória, e chegaram juntas ao clube mais seleto do capitalismo contemporâneo, agora com doze integrantes, sendo dez deles de tecnologia. As outras são a estatal de petróleo da Arábia Saudita e a fabricante do Mounjaro.
O gatilho do último salto foi um relatório do banco UBS, que triplicou sua estimativa de preço-alvo para as ações da Micron, de US$ 535 para US$ 1.625, citando contratos de longo prazo com preços parcialmente fixados e uma mudança estrutural no mercado. O argumento do banco é que a memória, historicamente uma commodity sujeita a ciclos brutais de expansão e retração, estaria se tornando um ativo diferente numa era em que os chips são co-desenvolvidos com a Nvidia para encaixar em plataformas específicas, o que torna os produtos menos intercambiáveis e os contratos mais longos.
Por baixo dessa leitura financeira, há um dado de engenharia que explica melhor a situação. Toda a produção de HBM (High Bandwidth Memory) da Micron para 2026 já está vendida. Não é uma expressão figurada. Os chips que vão sair da fábrica nos próximos meses já têm destino certo antes de existirem fisicamente. A Micron entrou em produção em volume do HBM4 de 12 camadas para a plataforma Vera Rubin da Nvidia, com largura de banda acima de 2,8 terabytes por segundo, e os clientes estão assinando contratos de vários anos para garantir acesso.
A explicação para essa escassez vai além do crescimento normal de demanda. Cada geração de modelo de linguagem grande consome mais memória do que a anterior, mas a virada para agentes de IA dobrou a curva. Inferência com janelas de contexto longas, o mecanismo que permite ao modelo "lembrar" de uma conversa inteira, e o estado persistente de agentes que ficam rodando em segundo plano enquanto executam tarefas, criam uma demanda por memória em magnitude diferente do que existia há dois anos. Analistas estimam que os chips de memória devem continuar escassos até pelo menos meados de 2028.
🔍 HBM (High Bandwidth Memory) é um tipo de memória de alta velocidade empilhada verticalmente em camadas, projetada para ficar dentro do mesmo pacote que a GPU. Diferente da memória RAM do seu computador, que fica separada do processador e se comunica por um barramento, o HBM fica colado ao chip de IA, o que permite transferir enormes volumes de dados em frações de segundo. É mais caro, mais difícil de fabricar e existe em quantidade muito menor no mundo. Cada acelerador de IA de última geração usa dezenas de gigabytes de HBM, e os agentes de IA precisam de muito mais do que os modelos anteriores.
O problema é que HBM e RAM saem da mesma fábrica. Quando Samsung, SK Hynix ou Micron decide produzir mais HBM para vender para data centers de IA, tira capacidade da linha que fabricava a memória do seu notebook ou celular. Os fabricantes fizeram as contas e escolheram o produto mais lucrativo, o que faz todo sentido para eles e todo custo para você.
Os preços da RAM convencional subiram 171% em relação ao ano passado. O DDR5, que equipa os computadores mais novos, quadruplicou de preço desde setembro de 2025. A estimativa é que PCs e smartphones fiquem entre 15% e 20% mais caros só por causa disso. A IA não está apenas consumindo memória nos servidores. Está encarecendo a memória que você compra na loja.
Os analistas mais entusiastas argumentam que o mercado está precificando uma mudança permanente na estrutura do setor de memória: menos ciclicidade, contratos mais longos, produtos menos intercambiáveis. Mesmo depois do salto de 19%, a Micron negociava a menos de 10 vezes o lucro esperado, um múltiplo que, comparado às 21 vezes da Nvidia, ainda parece barato se a tese da descommoditização estiver correta.
Os mais cautelosos lembram que essa frase, "desta vez é diferente", foi pronunciada antes de cada um dos onze grandes booms de capital da história que analistas do Raymond James mapearam nos últimos 150 anos, incluindo a construção das ferrovias americanas, a bolha japonesa dos anos 1980 e a internet no final dos anos 1990. Todos eles terminaram em bust. Todos eles também foram genuinamente úteis para a economia no prazo longo. A questão, escreveram os analistas, nunca é se o ciclo vai se inverter. É quando e por quê.
Os termômetros seguem marcando em direções opostas. O assessor de imprensa cada vez mais pistola com as pautas que tudo virou I.A. A Micron, no mesmo instante, vendendo para 2027 chips que ainda não existem. Enquanto isso, é bom ir acostumando com os notebooks de 8 GB de memória RAM.
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