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Anthropic perde espaço para OpenAI no mercado corporativo diante de temor com retenção de dados e qualidade do modelo Sol
Publicado 24/08/2026 • 07:15 | Atualizado há 4 horas
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Publicado 24/08/2026 • 07:15 | Atualizado há 4 horas
Anthropic e OpenAI disputam espaço no orçamento das empresas americanas, num mercado onde a lealdade dura o tempo de um novo lançamento de modelo.
Enquanto a Anthropic comemorava a virada histórica que a colocou à frente da OpenAI no bolso das empresas americanas, uma métrica menos festejada, divulgada esta semana pelo Ramp AI Index e confirmada pelo TechCrunch, mostrou que a rival de Sam Altman cresceu 82% em gastos corporativos no trimestre em curso, contra 76% da própria Anthropic, um placar que ainda não derruba a liderança conquistada em maio, mas expõe a primeira rachadura visível numa vantagem que parecia, até poucas semanas atrás, irreversível.
A rachadura tem explicação exata, e chegou na mesma semana. Depois de meses sob pressão, a Anthropic recuou de uma política de retenção de dados que atingia exatamente o tipo de cliente que hoje está migrando de fornecedor: o departamento de compliance do banco, o hospital que processa prontuário, o escritório de advocacia que trata sigilo como ativo. A empresa que se vendeu ao mercado como a mais responsável do setor de inteligência artificial passou o verão americano tentando consertar uma promessa que ela mesma quebrou.
Leia também: Anthropic: US$ 1 bilhão de lucro no 3º tri, empresa mais valiosa do mundo e OpenAI comendo poeira
A confusão começou em 9 de junho, quando a Anthropic lançou o Fable 5 e o Mythos 5 acompanhados de uma cláusula pouco discutida na cobertura do dia: qualquer tráfego enviado a esses modelos passaria a ficar armazenado por 30 dias nos servidores da empresa, sem exceção e sem opção de recusa, mesmo para clientes que tinham assinado contratos de retenção zero.
🔍 Zero-data-retention, ou ZDR na sigla em inglês, é a cláusula pela qual uma empresa de inteligência artificial promete não guardar as perguntas e respostas trocadas com o cliente depois que a conversa termina. É o tipo de garantia que hospitais, bancos e escritórios de advocacia costumam exigir antes de liberar qualquer funcionário para colar informação sensível numa janela de chat.
A resposta corporativa não demorou. A Microsoft, segundo relatos da imprensa americana, passou a restringir o uso interno do Fable 5 enquanto seu departamento jurídico avaliava o choque entre a nova regra e os próprios compromissos de retenção zero embutidos em produtos como o GitHub Copilot. Empresas de setores regulados, que haviam construído toda a estratégia de adoção de inteligência artificial em cima da promessa de retenção zero, passaram a tratar a atualização como um problema de governança de dados, não como um detalhe técnico.
A Anthropic argumentou que a medida servia para identificar ataques sofisticados de jailbreak, e que os dados retidos não seriam usados para treinar novos modelos. Fazia sentido do ponto de vista de segurança. Do ponto de vista comercial, soou como pedir ao cliente que confiasse duas vezes na mesma promessa.
Dois meses e meio depois, a Anthropic mudou de posição. Aempresa vai permitir que os dados de tráfego fiquem armazenados na nuvem do próprio cliente, em vez de nos servidores da Anthropic, mantendo a janela de 30 dias para investigações de segurança, mas tirando a companhia do meio do caminho. Em relatório interno, a própria Anthropic admitiu que a regra havia se tornado impopular e representava um risco para o negócio, reconhecimento raro para uma empresa que costuma tratar decisões de produto como inegociáveis.
O novo sistema levou meses para ser construído em parceria com mais de cem clientes de setores regulados, sinal de que a pressão vinha sendo sentida internamente bem antes de qualquer notícia pública. A cronologia importa. A Anthropic só cedeu depois que o desconforto começou a aparecer nos números do Ramp, a mesma plataforma que, em maio, havia consagrado a empresa como a nova favorita das empresas americanas.
O que os dados do Ramp deixam mais claro do que qualquer comunicado é que a lealdade corporativa a um fornecedor de inteligência artificial dura, hoje, o tempo de um lançamento de modelo.
A economista do Ramp, Ara Kharazian, atribuiu o novo fôlego da OpenAI à qualidade do GPT 5.6 Sol, cada vez mais escolhido por times de desenvolvimento, mas a explicação técnica esconde um comportamento mais simples: o cliente corporativo troca de fornecedor com a mesma facilidade com que troca de fornecedor de papel higiênico, sem cerimônia e sem culpa.
A fatia de empresas rastreadas pelo Ramp que pagam por alguma ferramenta de inteligência artificial subiu para quase 56% em julho, ante pouco mais de 50% em março, e uma fatia delas, hoje em 6,1% e subindo mês a mês, já está migrando para plataformas de código aberto mais baratas.
O mercado inteiro está em movimento, e nenhuma das duas gigantes tem, por enquanto, motivo para se sentir segura.
Para a Anthropic, o episódio deixa a lição incômoda para uma empresa que fez da transparência sua principal moeda de venda, e que descobriu, entre junho e agosto, que proteger o próprio negócio de ataques sofisticados pode custar o tipo de confiança que ela mais precisa vender.
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