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Relato bem honesto de um veterano usuário da Alexa+, há 2 meses no Brasil
Publicado 17/08/2026 • 10:00 | Atualizado há 1 hora
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Publicado 17/08/2026 • 10:00 | Atualizado há 1 hora
Amazon
Amazon Echo Show 8 (Geração mais recente) - Com novo design, tela vibrante HD de 8,7", áudio espacial e Alexa, Cor Grafite, com Acesso Antecipado à Alexa+
No início de junho, fui convidado pela equipe da AWS Brasil para um bate-papo com o head de arquitetura de sistemas das operações no Brasil, em uma ampla e confortável sala de reunião na sede da companhia, no complexo JK Iguatemi, em São Paulo, com vista para o parque do povo e o rio Pinheiros. A conversa foi solta, sem roteiro fechado, e passeou por praticamente todas as frentes de negócio da companhia, ampliação de operação no Brasil e no mundo, computação em nuvem, data centers, o e-commerce que segue em expansão. Em algum momento dessas variações de assunto, o executivo perguntou, meio de passagem, como eram minhas experiências pessoais com a Amazon. Pensei primeiro no aplicativo, no e-commerce, na entrega que costuma chegar dentro do prazo, e disse que estava satisfeito, sem ressalva.
Somente alguns minutos depois me lembrei da Alexa e resolvi fazer uma crítica que vinha guardada havia tempo. O executivo riu, um riso meio sem graça, deu contexto sobre os problemas da época de lançamento da assistente original e garantiu que a Alexa+ vinha justamente para corrigir pontos específicos da versão anterior.
Fiquei com a promessa guardada. E ela não é força de expressão vazia: segundo pesquisa divulgada pela própria Amazon Web Services em agosto de 2025, 40% das empresas brasileiras já adotam inteligência artificial de forma efetiva, à frente do México e do Chile e quase alcançando os índices europeus, com 95% delas relatando crescimento médio de receita de 31% depois da adoção. É um discurso sustentado por números reais, de operações corporativas onde a tecnologia resolve problemas concretos de logística, atendimento e produtividade.
Só que a inteligência artificial que otimiza um centro de distribuição e a que precisa entender um neto perguntando as capitais de todos os países do mundo, ou simplesmente acordar quando alguém chama pelo nome, são duas coisas bem diferentes. E a segunda raramente aparece nesses números de adoção empresarial.
Pedi ao meu pai, Jotta Ravagnani, 70 anos, que trabalha com tecnologia da informação há mais de quatro décadas, para me fazer uma avaliação honesta sobre a nova versão. Precisei cortar os palavrões do original.
Ele já usa a Alexa em casa desde os primeiros anos do produto no Brasil e, quando a Amazon abriu o programa de Acesso Antecipado da nova versão, em junho, logo após minha conversa na AWS, foi um dos sorteados. Não comprou dispositivo novo para ter direito, ganhou a senha por sorte, o que já diz algo sobre como a Amazon está tratando o lançamento por aqui, mais convite do que oferta.
Em casa, ele tem quatro dispositivos Echo, sendo dois deles bem antigos. Passou quase dois meses testando a versão nova no dia a dia real, aquele que não aparece em nenhuma pesquisa de adoção corporativa, o de família, filho, neto e comando de voz gritado da cozinha.
A primeira reclamação foi sobre a voz. A antiga já não empolgava, mas a nova, segundo ele, conseguiu piorar. E os problemas de sempre continuam ali, intocados: às vezes a Alexa simplesmente não escuta quando é chamada, é preciso repetir o nome duas ou três vezes até ela acordar. Só que agora acontece também o oposto. Em conversas de telefone no viva-voz, sem ninguém ter dito "Alexa" em momento nenhum, o dispositivo desperta sozinho e responde como se tivesse sido chamado, numa ocasião chegou a colocar música tocando no meio da ligação.
Comandos errados continuam frequentes, e o neto de Jotta, de 5 anos, descobriu um comando que desligou a casa inteira, inclusive a própria caixa que estava processando a ordem.
Nem tudo foi decepção. Existe uma mudança que meu pai considerou uma evolução de verdade: agora é possível dar vários comandos de casa inteligente numa única frase, ligar uma lâmpada, desligar outra, ajustar o termostato, tudo de uma vez, sem precisar chamar a assistente separadamente para cada tarefa.
Para quem usa a Alexa principalmente como interruptor de voz, que é o uso mais comum entre a maioria dos donos de Echo no Brasil, essa é a diferença que realmente aparece no dia a dia.
O aplicativo, porém, não acompanhou. Continua com as mesmas facilidades e as mesmas travas de sempre.
O relato de Jotta não é um caso isolado, nem exclusividade brasileira. Em agosto, o jornalista David Pogue, ex-colunista de tecnologia do New York Times, submeteu o Alexa+ a 135 pedidos diferentes e viu a assistente acertar pouco menos da metade. Chamou o resultado de vergonha cheia de bugs, numa lista de falhas que ia de comandos mal interpretados a respostas fora de contexto.
Na Wired, o repórter Reece Rogers passou um mês testando a Echo Show 15, o modelo com tela maior da linha, e descreveu o comportamento da assistente como imprevisível, comparando a experiência a lidar com uma criança levada demais. A Consumer Reports chegou a uma conclusão bem parecida com a de Jotta: o controle de casa inteligente evoluiu de verdade, mas o aplicativo segue truncado e lento, apesar de meses de ajustes desde o lançamento.
O neto de Jotta, que tem um certo hiperfoco, resolveu brincar de perguntar, uma atrás da outra, as capitais de vários países do mundo. Se a promessa da nova Alexa é entender contexto e ficar mais fluida ao longo de uma conversa, era razoável esperar que as respostas fossem ficando mais rápidas. Não ficaram. A latência seguiu igual do início ao fim.
E, em determinado momento, a assistente respondeu que ele estava tentando testar a paciência dela.
Jotta não escondeu o desconforto com a frase. Uma criança perguntando repetidamente sobre o mesmo assunto não é um problema que a máquina precise resolver com comentário. É só continuar respondendo, como qualquer ferramenta deveria fazer sem reclamar de um cansaço que não existe.
Uma coisa sobreviveu à atualização inteira, ao menos: a Alexa continua fazendo o som de peido quando pedem, para a alegria renovada do neto, que agora manda a assistente peidar em loop e ri toda vez como se fosse a primeira.
Jotta resume assim, depois de quase dois meses testando a versão nova: colocaram mais inteligência artificial na caixa, mas ainda falta tirar uma boa quantidade da burrice que já estava lá antes.
Lembrei então do riso sem graça do executivo, na sala com vista para o rio Pinheiros. A Alexa+ corrigiu alguns pontos específicos, exatamente como ele prometeu. Só não imaginou, talvez, que o lançamento chegaria com tantos outros problemas ainda intactos.
Leia outras colunas em AI-451.
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