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Allan Ravagnani AI-451

Tudo que sabemos sobre o maior IPO da história; SpaceX, uma empresa de IA com máscara de fogueteira

Publicado 23/05/2026 • 12:30 | Atualizado há 1 hora

Foto de Allan Ravagnani

Allan Ravagnani

Repórter

Allan Ravagnani é jornalista há 20 anos, duas vezes eleito entre os 50 jornalistas de Economia mais admirados do Brasil. Assina a coluna AI-451 e é repórter do Times Brasil | CNBC. Estudou Publicidade na ESPM e Jornalismo na Fapcom, fez pós-graduações em Macroeconomia, Finanças e Ciência Política.

KEY POINTS

  • SpaceX protocolou o maior IPO da história com meta de US$ 75 bilhões e valuação de US$ 2 trilhões no Nasdaq sob o ticker SPCX
  • Documento da SpaceX revela TAM de US$ 28,5 trilhões, com 93% das apostas em inteligência artificial para o mercado empresarial
  • Starlink tem 10,3 milhões de assinantes em 164 países e SpaceX lançou 80% de toda a massa colocada em órbita desde 2023
SpaceX Foguete Falcon 9 no momento de lançamento ao entardecer com reflexo na água e padrões de dados holográficos ao redor da base, representando a fusão entre exploração espacial e inteligência artificial

SpaceX protocolou o maior IPO da história com a tese de que foguetes são só a base da infraestrutura de IA que ainda está por vir

Quando a Saudi Aramco abriu capital em 2019 e levantou US$ 29,4 bilhões, o feito foi saudado como o maior IPO da história humana, o tipo de número que aparece nos livros e que jornalistas de negócios citam durante anos como unidade de medida para outros excessos corporativos. Sete anos depois, a Aramco vai precisar de uma nova entrada nesses livros, porque na quarta-feira (20) a SpaceX protocolou junto à SEC (CVM americana) um documento com a intenção de levantar US$ 75 bilhões, quase triplicando o recorde, numa oferta que vai aterrissar no Nasdaq sob o ticker SPCX com Goldman Sachs, Morgan Stanley e Bank of America na ponta do lápis.

A data prevista para a estreia é doze de junho, o Dia dos Namorados no Brasil, o que é, convenhamos, uma coincidência perfeita, nunca na história do capitalismo tantos investidores foram convidados a se apaixonar por uma empresa ao mesmo tempo.

Os números imediatos já são impressionantes por si mesmos: US$ 18,7 bilhões em receita em 2025, 10,3 milhões de assinantes do Starlink espalhados por 164 países, 9.600 satélites em órbita baixa, responsabilidade por mais de 80% de toda a massa lançada ao espaço em cada ano desde 2023. Mas o que torna esse documento diferente de qualquer outro IPO da história recente não são os números de hoje, mas principalmente o argumento sobre o amanhã.

Leia também: SpaceX: Pedido de IPO prepara o terreno para oferta recorde

Foguetes e exploração espacial da SpaceX

A SpaceX acredita, e coloca isso em preto e branco para os reguladores e para os futuros acionistas, que identificou "o maior mercado endereçável acionável da história humana". O valor: US$ 28,5 trilhões. Para ter uma noção da escala do que isso representa, o PIB anual dos Estados Unidos é de aproximadamente US$ 27 trilhões. A empresa está dizendo, com a sobriedade obrigatória da linguagem jurídica de um documento regulatório, que o mercado que pretende capturar é maior do que a maior economia do planeta.

Acontece que, desses US$ 28,5 trilhões, "apenas" - entre muitas aspas - US$ 370 bilhões vêm do espaço em si. Outros US$ 1,6 trilhão vêm do Starlink, contando banda larga e telefonia móvel via satélite. O restante, US$ 26,5 trilhões, vem de inteligência artificial.

A esmagadora maioria desse valor, US$ 22,7 trilhões, seria capturada com soluções de IA para empresas.

🔍 TAM (Total Addressable Market): é o tamanho total do mercado que uma empresa poderia alcançar se conquistasse todos os clientes possíveis. É uma projeção, não uma promessa, e serve para os investidores avaliarem o teto teórico de crescimento de um negócio. TAMs enormes são comuns em IPO - o Uber alegou US$ 5,7 trilhões quando abriu capital em 2019, cobrindo basicamente qualquer deslocamento motorizado no planeta.

Isso significa que a SpaceX não está se vendendo ao mercado como uma empresa de foguetes com ambições de satélite. Está se vendendo como a espinha dorsal física da próxima fase da inteligência artificial, com foguetes e satélites sendo infraestrutura de suporte.

O que a SpaceX quer dominar - TAM Widget

O que a SpaceX quer dominar

TAM total: US$ 28,5 trilhões — clique em cada barra para saber mais

BLOCO 1 — ESPAÇO

Negócios espaciais US$ 370 bi

BLOCO 2 — CONECTIVIDADE

Starlink Banda Larga US$ 870 bi
Starlink Mobile US$ 740 bi
X (rede social) (em publ. digital) US$ 600 bi

BLOCO 3 — INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Enterprise apps US$ 22,7 tri
Infraestrutura de IA US$ 2,4 tri
Assinaturas de consumidores US$ 760 bi
Publicidade digital US$ 600 bi

Elaboração: Allan Ravagnani — Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC
ESPAÇO

Negócios espaciais

US$ 370 bilhões TAM Estimado

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A lógica da pilha vertical

A tese interna é coerente, mesmo que ousada. Os foguetes Falcon colocam satélites em órbita com taxa de sucesso acima de 99% e a um custo que nenhum concorrente consegue replicar. O Starlink usa esses satélites para oferecer internet de alta velocidade em qualquer ponto do planeta, inclusive zonas rurais, regiões de conflito e territórios onde nenhum cabo de fibra jamais chegou. A xAI, a empresa de inteligência artificial de Elon Musk absorvida pela SpaceX em fevereiro deste ano, produz o Grok e está desenvolvendo uma plataforma agêntica com a Tesla chamada Macrohard. E a SpaceX planeja lançar, já em 2028, satélites de computação orbital, basicamente data centers que rodam em órbita alimentados por energia solar coletada no espaço.

O X, a rede social antes conhecida como Twitter, entra nessa equação de um jeito que o prospecto deixa claro sem precisar explicitar: ao incluir no documento regulatório os 550 milhões de usuários ativos mensais e os 350 milhões de posts diários da plataforma, a SpaceX está dizendo ao mercado que a rede social é um ativo, não um passivo. É a camada de distribuição e de dados de comportamento humano em escala que alimenta o Grok com matéria-prima que nenhum concorrente consegue replicar.

Coloque esses cinco elementos em sequência e a narrativa se fecha: a SpaceX lança o satélite, o satélite conecta o mundo, a conexão alimenta a IA, a IA roda nos servidores orbitais. Do chão ao espaço, um único ecossistema proprietário.

O problema é que essa pilha ainda é teórica. A xAI perdeu US$ 6,4 bilhões em 2025, quase quatro vezes o prejuízo do ano anterior. O Starship, o foguete totalmente reutilizável que deveria mudar a física dos custos do setor, ainda está em fase de testes e deve começar a entregar cargas à órbita apenas no segundo semestre deste ano. Os satélites de computação orbital chegam em 2028, se o cronograma se mantiver. A SpaceX consolidada registrou prejuízo operacional de US$ 2,6 bilhões em 2025, mesmo com o Starlink gerando US$ 4,4 bilhões em lucro operacional.

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SpaceX e a arte de precificar o impossível

Musk não está pedindo ao mercado que avalie a SpaceX pelo que ela é. Está pedindo que avalie pelo que ela pode ser, e pelo fato de que ninguém mais está em posição de construir a mesma coisa. É um argumento diferente do que o mercado de capitais normalmente processa, mais próximo do raciocínio de um fundo de venture capital do que da análise de múltiplos que um analista de sell-side costuma aplicar a uma empresa madura.

A estrutura acionária garante que esse apostador-mor mantenha o controle independentemente do que os novos sócios pensem. As ações Classe A, vendidas ao público, têm um voto cada. As ações Classe B, que Musk detém, têm dez votos cada, e os detentores da Classe B também elegem a maioria do conselho de administração independentemente do resultado geral das votações. A SpaceX declara explicitamente que vai operar como "controlled company" segundo as regras do Nasdaq, isentando-se de uma série de requisitos de governança que valem para as demais empresas listadas.

A estreia está marcada para doze de junho, com o roadshow começando na semana de oito de junho. O preço e a quantidade de ações ainda constam em branco no prospecto preliminar, que é o padrão para essa fase do processo. Quando os números aparecerem, o mercado vai precisar decidir se está comprando uma empresa espacial que faz IA, uma empresa de IA que usa o espaço como diferencial, ou simplesmente a convicção de que Elon Musk ainda tem mais razão do que errado quando aposta no impossível.

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