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EXCLUSIVO CNBC: Ganhos de produtividade com IA podem gerar falta de mão de obra e deflação, diz Jeff Bezos

Allan Ravagnani AI-451

Além dos números, NVIDIA revelou que não depende da China e que vai avançar no mercado da Intel e AMD

Publicado 21/05/2026 • 09:25 | Atualizado há 7 minutos

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Allan Ravagnani

Repórter

Allan Ravagnani é jornalista há 20 anos, duas vezes eleito entre os 50 jornalistas de Economia mais admirados do Brasil. Assina a coluna AI-451 e é repórter do Times Brasil | CNBC. Estudou Publicidade na ESPM e Jornalismo na Fapcom, fez pós-graduações em Macroeconomia, Finanças e Ciência Política.

KEY POINTS

  • NVIDIA lança chip Vera e mira mercado de US$ 200 bilhões em processadores que sempre pertenceu à Intel e à AMD.
  • Guidance de US$ 91 bilhões para o próximo trimestre não considera nenhuma receita da China no cálculo.
  • NVIDIA investe US$ 18,6 bilhões em empresas privadas que usam seus próprios chips e fecha o ecossistema sobre si mesmo.
Nvidia Jensen Huang

Montagem via Times Brasil | Imagens: Divulgação/Nvidia/OpenAI

Montagem com Jensen Huang, fundador da Nvidia, ao lado dos logos da Nvidia e OpenAI

Toda terça-feira à tarde, nos andares altos das gestoras de Nova York e São Francisco, alguém abre uma planilha e atualiza os números esperados para os resultados da NVIDIA num ritual que se repete desde 2023, quando ficou claro que a empresa de Jensen Huang havia capturado, de forma irreversível, o sistema nervoso da corrida por inteligência artificial. O ritual tem uma peculiaridade que até os analistas veteranos mais céticos não conseguem contestar: o número nunca parou de subir, e a empresa nunca parou de superá-los.

Na noite de quarta-feira (20), a NVIDIA divulgou seu balanço do primeiro trimestre, com receita de US$ 81,6 bilhões, alta de 85% sobre o mesmo período do ano passado. O lucro líquido chegou a US$ 58,3 bilhões, mais que o triplo do resultado anterior. A margem bruta ficou em 75%, índice que, em qualquer outra fabricante de hardware industrial do planeta, exigiria várias páginas de explicação. Na NVIDIA, é o resultado padrão pelo segundo trimestre consecutivo.

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Bem, tudo isso o leitor já sabe, já viu no noticiário do dia, e a função do colunista é de analisar com seu próprio viés, e também suas limitações. O que os números não dizem sozinhos, mas o balanço revela nas entrelinhas, é que a NVIDIA decidiu que dominar o mercado de GPUs não é suficiente. A empresa está se movendo em direção ao território que Intel e AMD consideravam seu por direito histórico.

Por décadas, o mercado de processadores centrais, os CPUs, foi uma disputa entre Intel e AMD. A NVIDIA era o nome para GPUs, os chips de processamento gráfico que se revelaram perfeitos para treinar modelos de IA. 

Com a chegada dos agentes de IA, que executam tarefas de forma autônoma em vez de apenas responder perguntas, o tipo de processamento mais exigido mudou. 

A NVIDIA lançou o Vera, seu primeiro processador central para data centers, e a CFO disse na teleconferência que o produto "abre um mercado de US$ 200 bilhões que nunca endereçamos antes", com visibilidade de US$ 20 bilhões em receita de CPU ainda este ano. Para referência: o negócio inteiro de data center da Intel deve gerar US$ 22 bilhões no mesmo período.

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Outro pequeno detalhe

Olhando para o guidance, merece muita atenção o fato de a projeção não assumir nenhuma receita vinda da China.

O governo americano aprovou no ano passado a venda dos chips H200 para empresas chinesas. Os Estados Unidos disseram sim. A China, até agora, não disse nada. Jensen Huang embarcou semanas atrás, de última hora, no avião de Donald Trump rumo a Pequim para uma cúpula com Xi Jinping. O que a CFO Colette Kress disse na teleconferência de resultados é que a empresa segue “na incerteza” sobre se as importações serão permitidas, e que estão trabalhando sem contar com esse mercado no curto prazo.

O mercado chinês de chips de IA pode valer US$ 50 bilhões por ano, segundo o próprio Huang. A empresa está crescendo 85% sem um centavo desse mercado. Isso diz algo sobre a dimensão do que está acontecendo no restante do mundo, e sobre o que aconteceria se a China finalmente liberasse as compras.

A Huawei trabalha para fechar o gap com seus Ascend e clusters que prometem uma escala impressionante. A DeepSeek mostrou que modelos competitivos podem ser treinados com menos hardware do que o Vale do Silício admitia. Como já escrevemos aqui quando cobrimos a corrida tecnológica chinesa, o argumento de que Pequim dispensa a NVIDIA ganhou força ao longo de 2025. Os números desta quarta sugerem que, ao menos por enquanto, o restante do planeta ainda depende.

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O cliente que a empresa foi comprar

Há uma linha no balanço que passou quase despercebida na cobertura de quarta. Durante o trimestre, a empresa investiu US$ 18,6 bilhões em empresas privadas e fundos de infraestrutura. A nota explica, com a contenção burocrática de um filing regulatório, que "alguns desses investimentos incluem fabricantes de modelos de IA que podem indiretamente comprar ou usar nossos produtos na nuvem."

Traduzindo: a NVIDIA está comprando participações em empresas que compram chips da NVIDIA. O ecossistema se fecha sobre si mesmo com elegância quase perturbadora. A Apple fez algo parecido quando entendeu que a melhor forma de vender iPhone era controlar cada aplicativo que rodava nele. A NVIDIA chegou à mesma conclusão pelo caminho inverso: primeiro dominou o hardware, agora investe no software e nos modelos que tornam o hardware indispensável.

O GPT-5.5, modelo mais recente da OpenAI, foi treinado em chips Blackwell. A CFO citou isso na teleconferência como detalhe técnico. É uma declaração de posição. O SpaceX, que entrou com pedido de abertura de capital nesta mesma quarta-feira, destacou em seu prospecto que seus data centers rodam nos sistemas Grace Blackwell da NVIDIA, e que gastou US$ 12,4 bilhões em infraestrutura de IA no ano passado, o triplo do que investiu em seu negócio espacial. A empresa de foguetes de Elon Musk está, antes de mais nada, comprando chips verdes.

Dinheiro demais para um único destino

Quando uma empresa decide multiplicar seu dividendo por 25 num único trimestre, de US$ 0,01 para US$ 0,25 por ação, e ao mesmo tempo anuncia um programa de recompra de ações de US$ 80 bilhões, ela está enviando um sinal para o mercado que diz: temos caixa em volumes que ultrapassam nossa capacidade de reinvestir com retorno adequado, e a coisa mais honesta a fazer é devolver aos acionistas.

No mesmo trimestre em que anunciou US$ 80 bilhões em recompras, a NVIDIA gerou US$ 48,6 bilhões em fluxo de caixa livre, investiu US$ 18,6 bilhões em startups e devolveu US$ 20 bilhões aos acionistas. Ainda assim, encerrou o período com mais dinheiro em caixa do que havia começado.

Reação neutra

Importante ressaltar que a coluna foi escrita na manhã posterior à divulgação do balanço (21).

Apesar do resultado, o mercado não mostrou empolgação ou sanha compradora, pelo contrário, o mercado, que trabalha olhando para o futuro - não presente, já entende que os futuros crescimentos estão precificados. 

Variando próxima ao zero após o anúncio, um analista de Wall Street afirmou que isso é um reflexo condicionado ao que já tratam como fenômeno psicológico documentado: a empresa bateu estimativas em 14 trimestres consecutivos, e a ação caiu nas três últimas divulgações de resultado. 

No gráfico de um ano, porém, o papel saiu de US$ 133 para US$ 232 em movimento de alta sustentada. O mercado, ao que parece, não está entusiasmado com a NVIDIA. Está apenas, há quatro anos, sem conseguir parar de comprá-la.

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