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A expectativa de vida aumentou. O desafio agora é preservar a capacidade de viver bem
Publicado 29/07/2026 • 11:58 | Atualizado há 3 horas
Publicado 29/07/2026 • 11:58 | Atualizado há 3 horas
Foto: Canva
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O Brasil alcançou, em 2024, a maior expectativa de vida de sua história. Segundo o IBGE, um brasileiro que nasce hoje pode esperar viver, em média, 76,6 anos. Aos 60 anos, a expectativa é de mais 22,6 anos de vida e, de acordo com as projeções do próprio instituto, pessoas com mais de 60 anos representarão quase 38% da população até 2070. Esses números mostram que a longevidade avança no país, mas também evidenciam um desafio que considero cada vez mais relevante: viver mais não significa, necessariamente, viver esses anos com saúde, autonomia e qualidade de vida.
Na minha prática como médico, professor e pesquisador dedicado à fisiologia metabólica e hormonal, percebo que o debate sobre envelhecimento ainda está excessivamente concentrado no aumento da expectativa de vida, enquanto aspectos que determinam a capacidade funcional acabam ficando em segundo plano. Na minha visão, o objetivo não deveria ser apenas aumentar o número de anos vividos, mas ampliar o período da vida em que a pessoa consegue trabalhar, caminhar, praticar atividade física, manter autonomia e preservar a capacidade cognitiva. Não é raro atender pacientes que chegam aos 70 anos vivos, mas convivendo há décadas com limitações que poderiam ter sido prevenidas.
O metabolismo influencia diretamente a forma como envelhecemos
Boa parte das doenças associadas ao envelhecimento não surge de maneira repentina. Alterações metabólicas costumam se desenvolver lentamente ao longo de anos, muitas vezes sem sintomas evidentes nas fases iniciais, o que faz com que muitos pacientes só procurem assistência quando a doença já está instalada.
Entre os fatores que merecem acompanhamento estão a perda progressiva de massa muscular, o aumento da resistência à insulina, alterações hormonais, deficiência de nutrientes, sedentarismo e alimentação inadequada. Em conjunto, essas mudanças aumentam o risco de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, fragilidade física e perda de autonomia.
O envelhecimento é um processo biológico natural, mas o adoecimento não precisa ser. Existe uma longa fase anterior ao diagnóstico das doenças em que o organismo já demonstra sinais de perda de eficiência metabólica, e é justamente nesse período que a prevenção produz maior impacto sobre a saúde ao longo das décadas.
Massa muscular é um dos principais indicadores da longevidade
Na minha avaliação, um dos maiores desafios do envelhecimento está na preservação da massa muscular. A redução gradual da musculatura, conhecida como sarcopenia, está relacionada ao aumento do risco de quedas, fraturas, hospitalizações e perda de independência entre idosos.
Por isso, considero um equívoco reduzir a discussão sobre saúde ao número que aparece na balança. Uma pessoa pode estar dentro do peso considerado normal e, ainda assim, apresentar baixa massa muscular, excesso de gordura visceral e alterações metabólicas importantes. O peso corporal, analisado de forma isolada, não traduz o verdadeiro estado de saúde nem permite avaliar a capacidade funcional do organismo.
A prevenção precisa começar antes do envelhecimento
Embora o envelhecimento esteja frequentemente associado à terceira idade, as principais estratégias preventivas deveriam ser adotadas ainda na vida adulta. Alimentação adequada, prática regular de exercícios de força, sono de qualidade, controle do estresse e acompanhamento clínico individualizado ajudam a preservar a capacidade funcional ao longo da vida e aumentam as chances de chegar à velhice com mais independência.
O organismo vai acumulando adaptações positivas ou negativas durante toda a vida, e esperar os primeiros sinais de limitação física para mudar hábitos reduz parte do potencial de recuperação. Quanto mais cedo se investe na saúde metabólica, maiores são as chances de envelhecer com autonomia e preservar a qualidade de vida nas décadas seguintes.
O desafio agora é viver melhor
Na minha experiência, não existe uma intervenção isolada capaz de preservar a saúde ao longo das décadas. O envelhecimento saudável depende da combinação de hábitos consistentes e do acompanhamento dos principais marcadores metabólicos antes do aparecimento das doenças. Na prática, isso significa monitorar alterações que muitas vezes evoluem de forma silenciosa, como perda de massa muscular, aumento da gordura visceral, resistência à insulina, deficiência de vitaminas e mudanças hormonais.
Também considero um erro acreditar que o organismo continuará respondendo da mesma forma ao longo da vida sem que haja cuidados preventivos. Com o avanço da idade, a chamada reserva fisiológica, a capacidade que o corpo tem de reagir a doenças, infecções, cirurgias e situações de estresse, diminui gradualmente, tornando a prevenção ainda mais importante.
Na minha visão, envelhecer bem não é consequência apenas da genética, mas do conjunto de decisões repetidas ao longo da vida. Alimentação adequada, treinamento de força, sono de qualidade, controle do estresse e avaliação periódica do metabolismo formam a base para reduzir o risco de doenças crônicas e preservar a independência física. Quando essas medidas são adotadas apenas depois que surgem as limitações, parte da capacidade de recuperação do organismo já foi perdida.
O envelhecimento da população brasileira tende a transformar a prevenção em uma das principais discussões da saúde pública nos próximos anos. Com mais pessoas vivendo por períodos cada vez maiores, o desafio deixa de ser apenas aumentar a longevidade e passa a incluir a manutenção da independência física, da capacidade cognitiva e da qualidade de vida durante todo esse tempo. Esse movimento também exige mudanças na formação dos profissionais de saúde e na forma como doenças crônicas são prevenidas e acompanhadas ao longo da vida.
Dr. Alexandre Duarte - CRMSP 162757
Médico, professor e pesquisador em fisiologia metabólica e hormonal
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