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Em que idade se decide melhor?
Publicado 10/08/2026 • 21:30 | Atualizado há 3 meses
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Publicado 10/08/2026 • 21:30 | Atualizado há 3 meses
O auge intelectual costuma ser associado aos vinte e poucos anos, e há uma razão para isso: os testes que dominaram a psicologia durante décadas medem sobretudo velocidade de processamento, memória de trabalho e raciocínio rápido diante de problemas inéditos, habilidades que atingem o auge cedo e declinam gradualmente ao longo da vida adulta. Um estudo publicado em 2025 na revista Intelligence, assinado pelos pesquisadores Gilles Gignac e Marcin Zajenkowski, ampliou essa medição para 16 dimensões cognitivas e de personalidade, reunidas de grandes bases de dados internacionais, e concluiu que o conjunto de capacidades que sustenta decisões complexas atinge o pico entre 55 e 60 anos.
O raciocínio dos autores parte de uma soma. Algumas habilidades caem com a idade, caso da velocidade de processamento e da memória de trabalho. Outras sobem ao longo da vida adulta: o conhecimento acumulado, a estabilidade emocional, a disciplina, o raciocínio ético, a alfabetização financeira e a resistência ao impulso de insistir num investimento ruim só porque já se gastou muito nele, viés conhecido como custo afundado. Quando as 16 curvas são colocadas na mesma escala e somadas, o resultado forma um platô entre os 55 e os 60 anos. Para decisões de alto risco, esse conjunto pesa mais do que a agilidade isolada.
Em termos práticos, o artigo afirma que as pessoas mais indicadas para funções de decisão de alto risco dificilmente têm menos de 40 ou muito mais de 65 anos. Os próprios autores fazem a ressalva de que se trata de uma média populacional: as trajetórias individuais variam bastante, e há quem sustente alto desempenho bem depois dessa faixa. O achado se conecta com a hipótese da reserva conectômica, tratada em coluna recente neste espaço, que propõe que conexões formadas sobretudo durante o desenvolvimento permanecem preservadas no cérebro e podem ser acionadas para compensar as perdas do envelhecimento.
No Brasil, o grupo mais visível para aplicar essa régua são os conselhos de administração, responsáveis por decidir sobre aquisições, sucessões e investimentos de grande porte nas companhias abertas. O Spencer Stuart Board Index Brasil 2025, levantamento anual de governança feito pela consultoria global de recrutamento de lideranças Spencer Stuart, mapeou 118 companhias com valor de mercado acima de R$ 2,5 bilhões, listadas nos segmentos especiais da bolsa, com dados fechados em agosto de 2025. A idade média dos conselheiros é de 58,5 anos, dentro da janela de pico apontada por Gignac e Zajenkowski e a um ano e meio da sua borda superior. Essa média, aliás, subiu de 56,8 anos em 2021 para os atuais 58,5, com oscilações no caminho e amostras de tamanhos diferentes entre as edições, o que pede cautela na comparação, mas indica tendência de alta.
O quadro fica mais interessante quando se observa quem está entrando agora. Os 191 conselheiros que entraram nos conselhos da amostra nesta edição, o equivalente a 18% dos assentos, são consistentemente mais jovens do que a média de quem permanece: as novas conselheiras têm 54,5 anos, 3% abaixo das que ficam, e os novos conselheiros homens têm 56 anos, 6% abaixo. Ou seja, o envelhecimento da média é puxado por quem permanece, enquanto o critério de entrada puxa na direção contrária. Na prática, a renovação funciona como freio do envelhecimento do colegiado.
Existem razões legítimas para buscar gente jovem. Conselhos precisam de competências que as empresas costumam procurar em gerações mais novas, como tecnologia e dados, e a diversificação de gênero também reduz a idade média, já que as conselheiras têm em média 55,6 anos, contra 59,2 dos homens. O índice, porém, não investiga os motivos de os novos membros serem mais jovens, e é nesse espaço que cabe a hipótese menos confortável, a da imitação: reduzir a idade média porque o restante do mercado parece fazer o mesmo, sem verificar o efeito disso sobre a qualidade da decisão.
A própria Spencer Stuart dá nome a essa tensão. A seção qualitativa do índice, construída com mais de 30 presidentes de conselho, chama-se Entre Legado e Disrupção e sustenta que a composição ideal depende do estágio e dos desafios estratégicos de cada empresa, não de fórmula copiada do mercado. O argumento vale além da sala do conselho: o mercado de trabalho brasileiro já demonstrou que sabe desperdiçar experiência, como esta coluna discutiu ao tratar da longevidade produtiva, e os conselhos, cuja matéria-prima declarada é justamente a experiência, não estão imunes a esse desperdício.
A renovação dos conselhos vai continuar, e é bom que continue. O que a evidência recente acrescenta é uma nova lente para examinar os critérios desta renovação. Companhias que calculam com rigor o custo de capital de cada decisão relevante têm agora uma pergunta a mais para incluir na conta: em que idade se decide melhor?
Gilmara Espino é mestre em gestão, palestrante e professora de MBA. Presidente da GPeS Comunicamos Saúde e colunista de Economia Prateada do Times Brasil - Licenciado Exclusivo CNBC.
Segundo estudo de Gilles Gignac e Marcin Zajenkowski publicado na revista Intelligence em 2025, o funcionamento combinado de 16 dimensões cognitivas e de personalidade atinge o pico entre 55 e 60 anos. Os autores concluem que pessoas mais indicadas para decisões de alto risco dificilmente têm menos de 40 ou muito mais de 65 anos, ressalvando que se trata de médias populacionais e que as trajetórias individuais variam.
Parte dela. A inteligência fluida, ligada à velocidade de raciocínio diante de problemas novos, declina gradualmente a partir dos 25 a 30 anos. Outras capacidades, como conhecimento acumulado, estabilidade emocional, raciocínio ético e alfabetização financeira, continuam subindo ao longo da vida adulta e compensam boa parte dessa queda.
De acordo com o Spencer Stuart Board Index Brasil 2025, que analisou 118 companhias com valor de mercado acima de R$ 2,5 bilhões listadas na bolsa, a idade média é de 58,5 anos. Entre as mulheres, a média é de 55,6 anos; entre os homens, de 59,2.
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