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Negócio de licenciamento imobiliário de Trump no exterior dispara para US$ 59,5 milhões com pagamentos de incorporadoras do Golfo

Publicado 10/08/2026 • 12:15 | Atualizado há 2 horas

KEY POINTS

  • Quase dois terços da receita vieram de projetos no Golfo, incluindo US$ 25,8 milhões ligados à incorporadora saudita Dar Al Arkan e suas subsidiárias, e US$ 11,3 milhões relacionados à incorporadora emiradense Damac, com sede em Dubai.
  • Algumas das incorporadoras que pagavam pelo licenciamento do nome Trump também buscavam investimentos nos Estados Unidos.
  • Entidades de defesa da ética afirmaram que os negócios criam conflitos entre o papel de Trump como líder político e seus interesses privados.

Foto: AFP

O negócio de licenciamento imobiliário do presidente Donald Trump no exterior cresceu durante seu primeiro ano de volta à Casa Branca, gerando US$ 59,5 milhões em 2025, enquanto incorporadoras internacionais pagavam um valor adicional para associar o nome Trump a torres de luxo, campos de golfe e resorts costeiros.

A receita de licenciamento no exterior, incluindo os valores recebidos pelo uso do nome Trump em propriedades ao redor do mundo, aumentou 71% em relação a 2024. O montante foi quase dez vezes maior que o registrado em 2023, segundo análise da CNBC sobre a declaração financeira anual de Trump — impulsionado pela reversão, por parte da Trump Organization, do compromisso assumido durante o primeiro mandato de não realizar “nenhum novo negócio no exterior”.

A política de ética da Trump Organization para o segundo mandato proíbe novas transações relevantes com governos estrangeiros, mas permite acordos com empresas privadas de outros países.

Quatro LLCs de licenciamento ligadas a Trump que não apareciam em sua declaração de 2024 geraram US$ 20,25 milhões em 2025, respondendo por 82% do aumento. Outras cinco LLCs de licenciamento que anteriormente apareciam como inativas geraram mais US$ 9,64 milhões.

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Mais de 60% da receita de licenciamento veio de projetos em países do Golfo.

Algumas das incorporadoras que licenciavam o nome Trump também buscavam grandes investimentos nos Estados Unidos, autorizações governamentais ou relações econômicas e diplomáticas favoráveis. Outros projetos com a marca Trump dependiam de terrenos pertencentes ao Estado, investimentos soberanos ou parcerias com empresas controladas pelo governo.

O resultado, segundo especialistas em ética ouvidos pela CNBC, é uma colisão sem precedentes entre o poder público e a riqueza privada do presidente. Os negócios também levantam questões jurídicas ainda não resolvidas sobre a Cláusula de Emolumentos Estrangeiros da Constituição dos Estados Unidos.

A CNBC não encontrou evidências de que qualquer pagamento de licenciamento tenha influenciado uma decisão do governo, que alguma incorporadora tenha recebido tratamento especial ou que Trump tenha intercedido em favor de alguma empresa.

A Trump Organization disse à CNBC que opera “completamente separada da Presidência”, cumpre as leis de ética e conflito de interesses e utiliza um consultor externo de ética para evitar conflitos. A empresa não respondeu a perguntas específicas sobre os projetos envolvendo licenciamento no exterior.

Questionado sobre os negócios de Trump no exterior, um porta-voz da Casa Branca não comentou diretamente os acordos. O representante afirmou que “o único interesse especial que orienta” as decisões de Trump é “o melhor interesse do povo americano” e citou mais de US$ 2 trilhões em compromissos de investimentos e acordos comerciais, de defesa, aviação e tecnologia anunciados durante a viagem do presidente ao Golfo em maio de 2025.

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“Governos estrangeiros e empresas politicamente conectadas agora têm uma maneira direta e extremamente visível de colocar dinheiro no bolso do presidente em exercício”, afirmou Scott Greytak, vice-diretor-executivo da Transparency International U.S., organização sem fins lucrativos de combate à corrupção.

“O conflito já está claramente exposto. Não precisamos esperar algum tipo de prova definitiva para identificar um possível acordo de troca de favores”, disse Greytak à CNBC.

Eric Trump afirmou ao The New York Times, em 2024, que a família “fez tudo o que era possível para evitar qualquer aparência de irregularidade” e que “mesmo assim foi duramente criticada”. Ele acrescentou: “Não podemos simplesmente ficar de fora para sempre, e eu não vou”.

Donald Trump foi mais direto ao falar sobre os negócios no exterior. Em janeiro, disse ao The Times: “Descobri que ninguém se importava. Eu tenho permissão para fazer isso”.

Incorporadoras do Golfo ampliam presença nos EUA

Projetos ligados aos Emirados Árabes Unidos geraram cerca de US$ 22 milhões em receitas de licenciamento para Trump em 2025, seguidos pela Arábia Saudita, com US$ 9 milhões, e pelo Catar, com US$ 5 milhões.

Grande parte dessa receita passou por duas incorporadoras imobiliárias do Golfo: a saudita Dar Al Arkan e a emiradense Damac.

Trump declarou US$ 25,8 milhões relacionados a projetos envolvendo a Dar Al Arkan e sua divisão internacional com sede em Dubai, a Dar Global. Projetos ligados à Damac geraram outros US$ 11,3 milhões.

No modelo de licenciamento, as incorporadoras locais geralmente financiam e constroem os empreendimentos, enquanto a Trump Organization recebe taxas pelo uso de seu nome e, em alguns casos, pela administração dos projetos.

Os acordos acontecem em meio a um boom no Golfo de residências de marca, que utilizam nomes de luxo e celebridades para cobrar preços mais altos. Em Dubai, por exemplo, o volume de transações de imóveis de marcas aumentou 26% na comparação anual nos primeiros nove meses de 2025, enquanto o valor das vendas subiu 51%, segundo a empresa de serviços e investimentos imobiliários CBRE, com base em seus dados mais recentes disponíveis.

O nome Trump oferece algo que outras marcas de luxo e celebridades não oferecem: a possibilidade de associação com o poder da Presidência dos Estados Unidos.

Críticos como Ben Freeman, diretor do programa de Democratização da Política Externa do Quincy Institute for Responsible Statecraft, afirmam que a associação à marca Trump pode sinalizar acesso político quando uma incorporadora — ou seu governo — possui interesses em discussão em Washington. O instituto defende a diplomacia em vez da intervenção militar.

“Esta é uma política externa ‘America First’ ou uma política externa ‘Trump First’?”, questionou Freeman à CNBC.

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A Damac oferece um exemplo dessa sobreposição, segundo especialistas em ética.

Os US$ 11,3 milhões em pagamentos de licenciamento feitos pela empresa incluem duas novas taxas de US$ 5 milhões relacionadas a projetos da Damac em Abu Dhabi, embora a Trump Organization não tenha empreendimentos ativos no local. Isso é possível porque as incorporadoras podem pagar pelo direito contratual de usar a marca Trump antes da construção de um projeto, inclusive por meio de pagamentos antecipados ou vinculados ao cumprimento de determinadas etapas.

Os pagamentos ocorreram enquanto a Damac, fundada pelo bilionário Hussain Sajwani, buscava expandir significativamente suas operações nos Estados Unidos.

Em janeiro de 2025, Sajwani se encontrou com Trump, então presidente eleito, em Mar-a-Lago para anunciar planos de investir pelo menos US$ 20 bilhões em data centers nos Estados Unidos. Trump elogiou o compromisso e afirmou que empresas que investissem pelo menos US$ 1 bilhão receberiam análises ambientais e regulatórias aceleradas.

Sajwani, amigo de longa data de Trump, afirmou à CNBC na época que “o céu é o limite” quando se tratava de investimentos nos Estados Unidos.

Seis meses depois, Trump assinou uma ordem executiva determinando que agências federais acelerassem as autorizações para data centers qualificados e para a infraestrutura de energia necessária para abastecê-los.

A política tinha aplicação ampla, e a Damac logo avançou com um grande projeto de data center que poderia se qualificar para autorizações federais aceleradas e outros tipos de apoio previstos na ordem.

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Em dezembro, uma subsidiária da Damac pagou outros US$ 36,5 milhões por um terreno próximo a Canton, Ohio, destinado à construção de um data center, segundo registros imobiliários do condado. A mesma propriedade, composta por oito lotes, havia sido vendida por US$ 8,55 milhões apenas dois dias antes, de acordo com os registros. O projeto exigirá coordenação com autoridades locais para questões relacionadas a energia, água e outras infraestruturas.

“Uma incorporadora cujo projeto depende de autorizações federais e de políticas energéticas tem um interesse financeiro direto nas decisões do governo”, afirmou Greytak.

Christian Turner, porta-voz da cidade de Canton, disse à CNBC que a Damac Digital está “sujeita aos mesmos requisitos que qualquer outra incorporadora”. O projeto ainda está em análise e nenhum incentivo foi aprovado, afirmou Turner.

Dar Al Arkan e Damac não responderam a vários pedidos de comentário.

A CNBC não encontrou evidências de que qualquer pagamento feito pela Damac tenha influenciado a ordem executiva ou que Trump tenha intercedido em favor da empresa. Ainda assim, especialistas em ética afirmaram que a sobreposição entre interesses financeiros e decisões de política pública cria, ao menos, a aparência de um conflito.

“Parece que esse projeto da Damac estava fortalecendo o negócio privado do presidente para ajudar a abrir caminho para data centers afetados pelas políticas de Trump”, afirmou Kedric Payne, diretor de ética do Campaign Legal Center, organização que atua pela ética no governo e pelo cumprimento das leis anticorrupção.

“Quando decisões presidenciais parecem estar diretamente relacionadas aos interesses financeiros do próprio presidente, temos, no mínimo, a aparência de um problema ético”, disse Payne.

Negócios privados, apoio público

Outros projetos no Golfo Pérsico levantam um conjunto diferente de questões relacionadas a conflitos de interesse.

No Catar e em Omã, a Trump Organization assinou acordos de licenciamento com incorporadoras privadas, e não diretamente com governos estrangeiros. Os dois projetos, porém, envolvem entidades controladas pelo Estado. A política de ética da Trump Organization proíbe apenas acordos diretos com governos estrangeiros. Na prática, os dois projetos dependem de terrenos, investimentos ou parceiros controlados pelo Estado.

Para Freeman, do Quincy Institute, a distinção entre uma incorporadora privada e um governo estrangeiro pode ser “sem sentido em muitos casos” no Golfo.

“Os maiores acionistas podem ser as famílias reais, ou eles podem estar no conselho de administração. Quase sempre existem enormes interconexões entre governos e empresas que fecham esses acordos, mesmo quando elas são ostensivamente privadas”, afirmou.

Trump declarou US$ 5,25 milhões em receitas de licenciamento relacionadas aos planos da Dar Global para um campo de golfe com a marca Trump e vilas de luxo no Catar. O projeto, no entanto, faz parte do desenvolvimento costeiro de Simaisma, liderado pela Qatari Diar, uma empresa de investimentos imobiliários criada pelo fundo soberano do Catar e presidida pelo ministro de Assuntos Municipais do país.

Os pagamentos declarados também coincidiram com uma grande expansão das relações entre Estados Unidos e Catar. A Dar Global e a Qatari Diar anunciaram o projeto licenciado pela Trump em 30 de abril de 2025, duas semanas antes da visita de Trump a Doha, durante a primeira grande viagem internacional de política externa de seu segundo mandato. Na ocasião, foram anunciados importantes acordos de aviação, defesa e economia com o Catar.

“A preocupação não é que esses acordos comprovem uma troca de favores. É que o Catar estava colocando dinheiro no negócio do presidente enquanto buscava grandes acordos com seu governo, levantando questões inevitáveis sobre quais interesses moldaram essa relação”, afirmou Greytak.

A CNBC não encontrou evidências de que o projeto Trump tenha influenciado qualquer um desses acordos.

O governo do Catar e a Qatari Diar não responderam às perguntas sobre se o projeto Trump foi discutido em conjunto com os novos acordos com os Estados Unidos.

O projeto em Omã tem estrutura semelhante, combinando uma incorporadora privada com um parceiro estatal.

Trump declarou quase US$ 1 milhão em receitas de licenciamento relacionadas ao Aida, um empreendimento construído por meio de uma joint venture entre a Dar Global e o Omran Group, braço do governo de Omã responsável pelo desenvolvimento do turismo.

O governo de Omã e o Omran Group não responderam a perguntas detalhadas sobre o papel da empresa estatal no projeto ou seu envolvimento no acordo de licenciamento com a Trump Organization.

A receita de licenciamento no exterior também se estendeu para além do Golfo.

No Vietnã, Trump declarou US$ 5 milhões relacionados a um projeto de campo de golfe planejado nos arredores de Hanói, avaliado em US$ 1,5 bilhão. O empreendimento avançou enquanto autoridades vietnamitas negociavam com o governo Trump para evitar uma tarifa de 46% que havia sido ameaçada pelos Estados Unidos.

O então primeiro-ministro Pham Minh Chinh participou ao lado de Eric Trump do lançamento das obras do projeto, em maio de 2025, e afirmou que a visita de Eric Trump havia “nos motivado a acelerar esse projeto”.

“É difícil dizer que existe uma coincidência quando decisões oficiais acontecem tão próximas no tempo do momento em que a empresa da família recebe benefícios financeiros”, afirmou Payne.

A CNBC não encontrou evidências de que o projeto Trump tenha influenciado as negociações tarifárias ou a alíquota aplicada aos produtos vietnamitas.

O governo vietnamita não respondeu às perguntas sobre se o projeto foi discutido durante as negociações ou por que as autoridades aceleraram sua aprovação.

Questões sobre emolumentos

Em conjunto, os projetos no Catar e em Omã levantam questões ainda não resolvidas, segundo especialistas jurídicos ouvidos pela CNBC, relacionadas à Cláusula de Emolumentos Estrangeiros da Constituição dos Estados Unidos, que proíbe ocupantes de cargos federais de aceitar determinados benefícios de governos estrangeiros sem autorização do Congresso.

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“A questão central é saber se pagamentos realizados por meio de uma incorporadora privada ainda podem ser atribuídos a um Estado estrangeiro quando uma empresa controlada pelo governo é proprietária do terreno, financia o projeto ou participa de seu desenvolvimento”, afirmou Scott Anderson, pesquisador sênior do Brookings Institution e conselheiro-geral e editor sênior do blog Lawfare.

Os tribunais nunca resolveram definitivamente essa questão. A Suprema Corte rejeitou vários processos do primeiro mandato que acusavam Trump de violar a cláusula, considerando-os sem objeto depois que ele deixou o cargo em 2021, sem decidir sobre o mérito das acusações.

“Obviamente, os autores da Constituição não previram taxas de licenciamento”, disse Anderson, ex-assessor jurídico da Embaixada dos Estados Unidos em Bagdá, à CNBC. Mas, segundo ele, o alcance “bastante amplo” da cláusula sugere que autoridades públicas não deveriam se beneficiar de governos estrangeiros sem aprovação do Congresso.

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