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Nova hipótese pode explicar como o cérebro se adapta ao envelhecimento
Publicado 03/08/2026 • 20:53 | Atualizado há 15 horas
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Publicado 03/08/2026 • 20:53 | Atualizado há 15 horas
Fernanda Moll, presidente do IDOR
Por Gilmara Espino
Levita de Deus Nunes tem 109 anos. Ela e suas irmãs mais novas, Zoraide, de 104, e Zulina, de 103, entraram para o Guinness World Records em junho de 2026 como o trio de irmãs vivas de maior idade combinada do mundo: 316 anos e 302 dias. Nascidas no sertão de Sergipe, construíram suas vidas no Rio e continuam conversando, opinando e contando suas histórias. Elas ainda são exceção, não regra, mas tornam visível a pergunta: o que permite ao cérebro preservar funções por tanto tempo?
Essa questão está no centro de um artigo científico publicado na Brain: A Journal of Neurology, propondo uma nova hipótese sobre como o cérebro se adapta e se protege ao longo da vida. Conversamos com uma das autoras, Fernanda Tovar-Moll, neurocientista e presidente do Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino.
O cérebro funciona por meio de bilhões de neurônios conectados por fibras que formam circuitos. É por esses circuitos que passa aquilo que chamamos de pensamento, memória e emoção. Mas nem todas as conexões físicas entre os neurônios são recrutadas com a mesma intensidade. Existem caminhos utilizados de maneira recorrente e outros que permanecem pouco ativos.
É desse conjunto que trata o conceito proposto pelos pesquisadores: a reserva conectômica. Segundo a hipótese, parte das conexões formadas principalmente durante o desenvolvimento permaneceria no cérebro ao longo da vida, mesmo quando pouco utilizada. Esses caminhos poderiam ser recrutados diante de uma lesão, de uma perda sensorial ou das mudanças relacionadas ao envelhecimento.
Na prática, uma possibilidade levantada é que, quando um adulto perde a visão e passa a utilizar mais intensamente outros sentidos, o cérebro não dependeria apenas da formação de novas ligações. Ele também poderia recrutar caminhos que já existiam, mas eram pouco utilizados. Estamos falando de conexões subestimadas pelos mapas mais tradicionais do cérebro.
"É como se fossem circulações colaterais na vascularização", explica Tovar-Moll. De acordo com a hipótese, quando uma região se deteriora ou funciona mais lentamente, essas vias alternativas poderiam participar da reorganização do funcionamento cerebral.
É importante, porém, medir o alcance dessa explicação. A reserva conectômica ainda é uma hipótese científica. Os próprios autores afirmam que ela precisa ser validada funcionalmente por técnicas de imagem de alta resolução. Portanto, ainda não é possível afirmar que essas conexões expliquem, por si mesmas, a adaptação cerebral durante o envelhecimento.
Ainda assim, o conceito procura oferecer uma possível base estrutural para outro fenômeno já estudado, a reserva cognitiva. Ela ajuda a explicar por que algumas pessoas com alterações cerebrais associadas ao Alzheimer podem permanecer sem sintomas ou manifestá-los mais tarde.
Fatores como escolaridade, trabalho que exige raciocínio, leitura e aprendizado de idiomas parecem alimentar essas conexões de reserva. "Quanto maior a escolaridade, menor o risco de demência", diz a pesquisadora sobre o padrão que sugere que estímulos intelectuais constroem e mantêm essa rede neural de proteção.
Pode. O cérebro adulto ainda pode aprender e a explicação está na sua plasticidade. Essa capacidade do cérebro de se remodelar é mais intensa quando ele está em formação, mas não se encerra na infância.
É o argumento científico contra um velho ditado: cachorro velho aprende, sim, novos truques. Pode custar mais e levar mais tempo, mas a capacidade de aprender não termina com a idade.
"A reserva existe como potencial e depende de estímulo para se manter à mão. Exercício físico, atividade intelectual, alimentação e convívio ajudam a conservá-la. O contrário também vale: quando o estímulo diminui, a capacidade tende a recuar. Perda auditiva não tratada, por exemplo, aparece associada a maior risco de demência, porque priva o cérebro de informação e de troca com o mundo", explica a pesquisadora do IDOr.
O público idoso tem sido tratado como velho demais para aprender, para mudar de hábito, para consumir novidade. A hipótese de um cérebro que guarda reserva e continua plástico enfraquece esse pressuposto.
Quando uma empresa deixa de contratar, promover ou treinar um profissional porque presume que ele não conseguirá se adaptar, pode estar confundindo velocidade com capacidade. Algumas aprendizagens exigem mais tempo ou outras formas de apresentação, mas isso não significa que deixem de acontecer.
Ao mesmo tempo, experiência e repertório acumulado podem ajudar o profissional a estabelecer relações que alguém mais jovem ainda não consegue fazer. Leia também: Na era da IA, a longevidade pode se tornar uma vantagem competitiva.
Se a capacidade cognitiva pode ser preservada e estimulada ao longo da vida, cresce o espaço para novos produtos, educação continuada, entretenimento e requalificação profissional, entre outros.
Para o mercado, fica o recado prático: muitos clientes envelhecerão mantendo o discernimento, o desejo e o poder de decidir. Tratá-los como quem já saiu ou sairá de cena é ignorar uma parcela da população social e economicamente ainda ativa.
Gilmara Espino é mestre em gestão, palestrante e professora de MBA. Presidente da GPeS Comunicamos Saúde e colunista de Economia Prateada do Times Brasil - Licenciado exclusivo CNBC.
Reserva conectômica é uma hipótese científica segundo a qual parte das conexões formadas principalmente durante o desenvolvimento permaneceria disponível no cérebro, mesmo sendo pouco utilizada. Esses caminhos poderiam participar da reorganização cerebral diante de lesões, perdas sensoriais ou mudanças relacionadas ao envelhecimento.
Ainda não. Os pesquisadores propõem a reserva conectômica como uma possível base estrutural para a adaptação do cérebro, mas afirmam que a hipótese precisa ser testada em outros circuitos e validada funcionalmente por técnicas de imagem de alta resolução.
Sim. A plasticidade cerebral diminui em alguns aspectos com o envelhecimento, mas não desaparece. Algumas aprendizagens podem exigir mais tempo e prática, enquanto experiência e conhecimento acumulado podem ajudar a compensar parte dessas mudanças.
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