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A curva de juros diante da divergência entre o Federal Reserve e o Copom
Publicado 21/09/2026 • 10:07 | Atualizado há 18 horas
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Publicado 21/09/2026 • 10:07 | Atualizado há 18 horas
Foto: Freepik
juros
A curva de juros voltou a ocupar aquele lugar pouco confortável em que deixa de ser apenas um instrumento financeiro e passa a funcionar como um indicador do estado da economia. Em determinados vencimentos e referências internacionais, observam-se níveis que remetiam, até há pouco tempo, a períodos que pareciam relegados aos livros de história econômica. As decisões anunciadas na semana passada pelo Federal Reserve e pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central confirmam essa leitura, ao seguirem, pela primeira vez em vários trimestres, direções opostas.
Vale começar pela definição, já que a expressão “curva de juros futuros” costuma provocar no leitor uma reação semelhante à despertada por manuais de instrução de aparelhos eletrônicos: presume-se que haja ali alguma utilidade, mas poucos se dispõem a investigar exatamente qual.
Bancos, fundos e grandes participantes do mercado administram constantemente sua exposição aos juros, recorrendo a títulos, contratos futuros, swaps e outros instrumentos concebidos para que uma mudança inesperada nas taxas não comprometa a saúde de um balanço. Ao negociarem os juros futuros para se proteger dos juros presentes, esses mesmos agentes acabam influenciando as taxas e os preços observados hoje, um mecanismo em que a tentativa de antecipar o futuro contribui para formá-lo.
Essa circularidade decorre da própria natureza dos juros futuros, que respondem a expectativas de inflação, crescimento, política fiscal, política monetária e risco cambial e político. Como essas expectativas influenciam decisões presentes, a curva funciona simultaneamente como projeção e como fator causal: aquilo que deveria apenas antecipar o amanhã já produz consequências hoje.
O juro é, em larga medida, o preço atribuído ao risco e ao tempo: quanto maior a possibilidade de algo dar errado entre o momento em que o dinheiro é entregue e aquele em que deve retornar, maior tende a ser a remuneração exigida por quem o cede.
Essa lógica de precificação do risco não se limita ao crédito: estendeu-se a imóveis, empresas, marcas e outros ativos antes considerados de difícil mensuração, em um processo mais amplo de financeirização da economia. Os juros continuam sendo, no entanto, a expressão mais completa desse processo, por cristalizarem em poucas casas decimais um conjunto amplo de expectativas sobre inflação, crescimento e risco.
Chegamos, então, a este 16 de setembro de 2026, data em que Federal Reserve e Copom anunciaram suas decisões dentro de um intervalo de poucas horas — e o fizeram em sentidos opostos. O Fed elevou a taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual, para o intervalo de 3,75% a 4,00% ao ano, a primeira alta desde julho de 2023. A decisão já era amplamente esperada: na véspera, o FedWatch ferramenta que acompanha as apostas do mercado para as reuniões do Federal Reserve, indicava probabilidade de 94,5% para um aumento de 25 pontos-base. O comitê sinalizou, ainda, a possibilidade de nova alta até o fim do ano, o que levou o rendimento do Treasury de dez anos a superar 5% pela primeira vez desde 2007.
O Copom, por sua vez, cortou a Selic em 0,25 ponto percentual, para 13,75% ao ano — o quinto corte consecutivo desde março, período em que a taxa básica brasileira caiu 1,25 ponto percentual após permanecer em 15% por dez meses seguidos. O contraste é o dado mais relevante do dia: enquanto o Federal Reserve retoma um ciclo de aperto após mais de três anos, o Banco Central do Brasil mantém uma trajetória de afrouxamento monetário, ainda que gradual e cercada de ressalvas.
Essa divergência de trajetórias tende a se refletir na curva de juros dos dois países por vias distintas. Nos Estados Unidos, a alta da taxa básica eleva diretamente o custo de capital e reforça a pressão sobre os vencimentos longos, já elevados pela persistência da inflação. No Brasil, mesmo com a Selic em queda, os juros futuros de prazo mais longo continuam pressionados — não pela política monetária em si, mas pelo prêmio de risco fiscal e político embutido na curva, o que ilustra como um banco central pode cortar a taxa básica sem que os juros relevantes para investimento e crédito de longo prazo caiam na mesma proporção.
No caso brasileiro, a política fiscal permanece cercada de incertezas, a atividade econômica perdeu força e convive-se com uma inflação percebida pela população que segue acima do IPCA oficial. O índice pode indicar determinada inflação média, mas a experiência de quem paga alimentação, moradia, serviços e educação frequentemente revela outra realidade — o consumidor não experimenta a cesta estatística do país, mas a própria cesta, e a distância entre a inflação medida e a inflação vivida tem consequências econômicas, sociais e políticas: molda expectativas, influencia decisões de consumo e investimento e, por essa via, retroalimenta a própria curva de juros.
Ambos os países se aproximam, ainda, de ciclos eleitorais relevantes — eleições de meio de mandato nos Estados Unidos em novembro e eleições gerais no Brasil em outubro —, o que tende a adicionar um prêmio de incerteza política aos vencimentos mais longos das duas curvas.
A decisão do Federal Reserve refletiu um quadro de inflação ao consumidor em 3,4% em agosto e núcleo do PCE em 3,7% em julho, mercado de trabalho ainda resiliente — com criação de 162 mil vagas em agosto — e pressões adicionais sobre o preço do petróleo, negociado acima de US$ 100 o barril em meio ao conflito no Oriente Médio e às tarifas comerciais americanas. O desafio do Federal Reserve não é apenas escolher entre crescimento e inflação, mas preservar a credibilidade da própria instituição: dados fortes deixam de ser lidos somente como sinal de prosperidade e passam a alimentar expectativas de juros mais altos, o que exige do banco central firmeza suficiente para ancorar expectativas sem, no entanto, sugerir o início de um ciclo de aperto mais longo e severo do que o necessário — um equilíbrio que a sinalização de nova alta ainda em 2026 tensiona.
Segundo Fernando Moscoso Leal, AVP Relationship Officer em Miami, um dos aspectos mais particulares do momento é que essa tensão se concentra nos títulos soberanos, enquanto o crédito corporativo de melhor qualidade permanece relativamente estável. Mesmo com a recente venda de dívida pública, avalia Fernando Moscoso Leal, os spreads de crédito investment grade nos Estados Unidos seguem próximos de mínimas de várias décadas — em 10 de setembro, o spread ajustado por opções do ICE BofA US Corporate Index, que acompanha dívida corporativa americana em dólar classificada como investment grade (BBB ou superior), estava em 0,80%, ou 80 pontos-base acima da curva de Treasuries —, ao mesmo tempo em que os yields totais desses títulos se aproximam dos níveis mais altos desde a crise financeira global, em razão do patamar elevado da própria taxa livre de risco. Para o executivo, o contraste reflete fundamentos corporativos ainda favoráveis e balanços que conseguiram se alongar em condições atrativas, mas também sugere que parte do mercado está, neste momento, mais preocupada com a trajetória fiscal dos governos do que com a capacidade de pagamento das empresas de melhor qualidade: o ativo tecnicamente livre de risco de crédito deixou de ser livre de volatilidade.
Os dados compilados pela DataBay ajudam a dimensionar essa divergência, resumida no quadro abaixo.
O juro real brasileiro, ainda acima de 9 pontos percentuais mesmo após cinco cortes consecutivos da Selic desde março, segue entre os mais altos do mundo. Esse diferencial — mais do que a direção isolada de cada banco central — ajuda a explicar por que o real permanece relativamente atrativo para operações de carry trade, ainda sob o prêmio de risco fiscal que a curva brasileira continua a precificar.
Quando a curva de juros se abre, o que está em jogo não são apenas linhas subindo em um terminal financeiro, mas o custo do capital para empresas, famílias e governos: projetos de investimento tornam-se menos atrativos, o crédito ao consumidor encarece e o financiamento da dívida pública fica mais oneroso. A sessão da quarta-feira passada reuniu, de um lado, a confirmação de que o Federal Reserve retoma o aperto monetário após mais de três anos e, de outro, a manutenção de um ciclo de cortes no Brasil que convive com um prêmio de risco fiscal que a própria Selic não tem poder de reduzir. Ambos os movimentos, ainda que em direções opostas, apontam para a mesma conclusão: o custo do dinheiro, em um caso e no outro, permanece determinado menos pela vontade dos bancos centrais do que pela combinação de inflação persistente, incerteza fiscal e proximidade de ciclos eleitorais que caracteriza o momento atual da economia global.
Artigo elaborado com colaboração de Antonio Pavesi Neto, economista e especialista em investimentos internacionais com MBA pela B7 Business School
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