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Vida nas organizações Joaquim Santini

O Nascimento da Liderança Pós-Humana: Como gerenciar equipes de humanos e IA

Publicado 11/06/2026 • 21:35 | Atualizado há 5 horas

Foto de Joaquim Santini

Joaquim Santini

Pesquisador e palestrante internacional, diplomado em Psicologia Clínica Organizacional e mestre em Consulting and Coaching for Change no Insead ( european business school, na França), graduado e mestre em Engenharia Mecânica pela Unicamp. Fundador da EXO - Excelência Organizacional.

Ilustração digital mostra rosto feminino dividido ao meio: lado esquerdo em foto realista e lado direito em malha de pontos luminosos e circuitos de dados, com linha de escaneamento dourada cruzando o rosto em ambiente de código binário

Imagem gerada pela inteligência artificial Nano Banana 2 com prompt de Allan Ravagnani

Durante mais de um século, a liderança corporativa operou sobre uma premissa inquestionável: pessoas lideram pessoas. Atravessamos revoluções industriais, a digitalização e a globalização. Mudaram as tecnologias e os modelos de negócio, mas a matéria-prima da gestão permaneceu essencialmente a mesma: seres humanos coordenando outros seres humanos.

Essa premissa acaba de ser rompida. E não por uma nova teoria administrativa ou reestruturação organizacional, mas pela chegada de um novo integrante definitivo às equipes: os agentes autônos de inteligência artificial.

Esse fenômeno foi mapeado de forma cirúrgica por Suraj Srinivasan, professor da Harvard Business School, e Vivienne Wei, executiva da Salesforce, no artigo "To Thrive in the AI Era, Companies Need Agent Managers", publicado pela Harvard Business Review. Eles descrevem o surgimento de uma nova figura organizacional: profissionais responsáveis por escolher, treinar e supervisionar agentes de IA que já executam trabalho real e tomam decisões de negócios.

O surgimento do chamado Agent Manager não é apenas uma adaptação técnica ou a criação de um novo cargo. Ele sinaliza o nascimento da liderança pós-humana.

É fundamental esclarecer: esse conceito não significa a eliminação da humanidade ou um cenário onde máquinas assumirão o topo das empresas. Pelo

contrário. A liderança pós-humana define a gestão de um ecossistema híbrido. Pela primeira vez na história, o papel do líder deixa de ser estritamente antropocêntrico: sua missão não é mais gerenciar indivíduos isolados, mas sim capitanear equipes mistas onde o fluxo de valor transita de forma invisível entre humanos e sistemas autônomos.

Quando a inteligência artificial deixa de ser ferramenta

Durante décadas, tratamos softwares como ferramentas. Eles automatizavam tarefas e ampliavam a produtividade, mas permaneciam subordinados às decisões humanas. Os agentes de IA mudaram radicalmente essa lógica.

Empresas de vanguarda não usam mais a IA apenas para gerar textos ou imagens sob demanda; elas operam estruturas onde agentes inteligentes interagem diretamente com clientes, qualificam oportunidades comerciais, resolvem problemas complexos de suporte e colaboram entre si para atingir objetivos de negócios.

Não estamos mais falando de automação. Estamos falando de trabalho. A diferença é conceitual e prática:

· Uma calculadora não trabalha.

· Um sistema de ERP não trabalha.

· Um CRM tradicional não trabalha.

Agentes inteligentes, por outro lado, trabalham. Eles ocupam espaços tradicionalmente reservados às atividades cognitivas humanas. Produzem análises, executam fluxos operacionais autônomos e participam diretamente da geração de receita. Quando a máquina deixa de ser um instrumento e ganha agência, a organização enfrenta uma questão inédita: Quem coordena essa nova força de trabalho híbrida?

O nascimento da inteligência híbrida

O conceito-chave para os negócios hoje é a inteligência híbrida. Deixamos para trás a visão binária e simplista de que as máquinas simplesmente substituiriam os humanos em massa. O que o mercado consolidou foi um modelo de simbiose.

Na própria Salesforce, a introdução de agentes virtuais autônomos para a triagem, prospecção e nutrição inicial de leads fez a capacidade de geração de oportunidades comerciais escalar exponencialmente. O resultado não foi a demissão em massa da equipe de vendas, mas sim uma redistribuição do trabalho. Liberados da carga operacional massiva, os profissionais humanos puderam focar sua energia onde o toque humano continua insubstituível:

negociações complexas, construção de relacionamento de longo prazo e tomada de decisão estratégica sob pressão.

Essa transformação converge com o conceito de Frontier Firm (a Empresa de Fronteira), destacado em estudos globais sobre o futuro do trabalho. Entramos na geração de organizações onde humanos e agentes digitais compartilham responsabilidades e entregas diariamente. A inteligência tornou-se um recurso fluido, distribuído entre pessoas e sistemas.

Assim como a Revolução Industrial exigiu supervisores para gerenciar as linhas de montagem mecânicas, o ecossistema pós-humano exige líderes capazes de orquestrar essas duas formas distintas de inteligência.

A redistribuição silenciosa da autoridade (e do risco)

Essa mudança na arquitetura das empresas altera profundamente a dinâmica do poder organizacional. Historicamente, a autoridade de um gestor foi construída sobre a posse e a retenção de conhecimento e experiência. Quem detinha a informação controlava o processo e exercia influência.

A inteligência artificial democratizou e descentralizou esse ativo. A informação tornou-se abundante, as análises de mercado tornaram-se instantâneas e diagnósticos complexos ficaram acessíveis a qualquer nível da hierarquia. Como consequência, a autoridade baseada exclusivamente no conhecimento técnico perdeu força. O valor do líder deslocou-se do controle para a interpretação; da supervisão técnica para a orquestração de talentos; da resposta pronta para a capacidade de fazer a pergunta certa.

Contudo, gerenciar equipes híbridas traz um fardo inédito: a responsabilidade fiduciária e moral pelos atos da máquina. Se um agente de IA toma uma decisão automatizada que resulta em viés discriminatório, quebra de compliance ou prejuízo financeiro, o algoritmo não pode ser demitido ou processado. O líder pós-humano é quem absorve o risco, atuando como a última linha de defesa ética, legal e técnica da operação.

O que sobra da liderança quando as máquinas pensam?

Se agentes conseguem produzir análises macroeconômicas, gerar recomendações de investimento e executar atividades cognitivas sofisticadas, qual passa a ser o verdadeiro diferencial dos líderes?

O grande paradoxo da liderança pós-humana é que, quanto mais o ecossistema se apoia na inteligência artificial, mais profundamente humana a liderança precisa ser.

· Algoritmos processam dados na velocidade da luz, mas não constroem confiança.

· Reconhecem padrões comportamentais, mas não medeiam conflitos de ego, cultura e vaidade.

· Produzem respostas exatas, mas não geram sentido coletivo ou propósito.

O desafio definitivo da liderança não é tecnológico; é social. Toda tecnologia que reorganiza vínculos gera ansiedade, e toda ansiedade gera resistência. A corrida da IA não será vencida pelas empresas com os maiores modelos de linguagem ou maior capacidade de computação, mas sim por aquelas capazes de construir pontes de colaboração segura entre seus colaboradores de carne e osso e suas ferramentas autônomas.

O Agent Manager é apenas o primeiro personagem visível dessa transição. O futuro dos negócios não será definido pela vitória das pessoas sobre as máquinas, nem das máquinas sobre as pessoas. Ele será determinado pela maturidade do líder em gerenciar a intersecção entre ambas. Essa é a verdadeira essência da liderança pós-humana.

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