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Trump ameaça atacar importante aliado para assustar o inimigo de fato: o Irã
Publicado 18/08/2026 • 12:27 | Atualizado há 2 meses
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Publicado 18/08/2026 • 12:27 | Atualizado há 2 meses
Foto: AFP
Na segunda-feira, ao telefone com o correspondente na Casa Branca da Fox News, Donald Trump disse que os Estados Unidos bombardeariam Omã se o país "atrapalhar" as negociações sobre a reabertura do Estreito de Ormuz. A emissora não revelou nenhum áudio do presidente. A notícia se tornou pública quando o jornalista descreveu a conversa off the records. Horas depois, no Salão Oval, o próprio Trump repetiu o recado em versão sem censura. Segundo ele, Omã "não está se comportando muito bem". E que uma das possibilidades seria bombardear o país vizinho do Irã. Isto na análise das relações internacionais tem nome: dissuasão.
Convém lembrar quem é Omã. Aliado de Washington, cujos portos a Marinha americana usa como base avançada das forças navais de guerra no Oriente Médio, para fazer frente – justamente – ao Irã. No entanto, a relação EUA-Omã vai além das vias navegáveis. A Casa Branca conta com o governo omani para manter o chamado "Canal de Mascate". Embora o nome remeta a um braço de mar, o termo é exclusivamente diplomático. Mascate, a capital de Omã, é o ponto de conexão entre Washington e Teerã. É por esta linha que o governo americano conversa com os desafetos iranianos desde 2011.
Marc Sievers, embaixador americano em Omã entre 2016 e 2019, ofereceu à CNBC a leitura mais sóbria da ameaça de Trump em bombardear o pacato – e importante -aliado no Oriente Médio. Segundo o diplomata, trata-se de uma tentativa de "chamar a atenção" dos omanis, mais do que um ato de guerra. E é justamente aí que a coisa fica interessante, porque chamar a atenção não é efeito colateral do estilo de Trump. É o método.
Leia também: O bombeiro que ateou o fogo: Trump e a paz que ele mesmo precisava
A literatura sobre populismo contemporâneo descreve o fenômeno menos como um arcabouço de ideias e mais como uma forma de governar. O cientista político australiano Benjamin Moffitt se consagrou ao estudar a demagogia de grandes líderes. Ele fala em performance planejada, ao analisar o modus operandi de Trump: o presidente encena a crise permanente, adota os modos do homem comum e converte a quebra do protocolo em prova de autenticidade. Daí decorre a rejeição dos intermediários. Imprensa, partidos, burocracia e diplomatas de carreira aparecem como estorvo entre a vontade do líder e o resultado. Tal premissa explica por que Donald Trump não é unanimidade nem entre os Republicanos mais arraigados.
Ao transportar para a política externa, essa lógica "trampista" produz exatamente o que se viu, agora, contra Omã. O incômodo do Salão Oval não é com o que Omã faz, mas com o fato do quê Omã media. Segundo o embaixador Marc Sievers, a Casa Branca quer que os omanis saiam do caminho e deixem Washington conduzir sozinha a reabertura do estreito.
Na tipologia de Walter Russell Mead, professor na Universidade da Flórida e estrategista político, as atitudes de Trump, hoje, rementem à estratégia nacionalista de Andrew Jackson, que foi presidente dos EUA em 1830, e que entrou para a história por conta da ferrenha defesa da soberania nacional. O discurso contemporâneo "America First" não é mera coincidência. Na teoria, o trampismo e o jacksonismo andam de mãos dadas: honra, força e pouca paciência com aliados que atravessam o caminho. Voltando aos acontecimentos desta semana, nota-se que a ameaça não foi dirigida ao Irã. Foi dirigida ao aliado que conversa com o Irã.
O contexto ajuda a medir o custo. O prazo de 60 dias para um acordo entre Washington e Teerã venceu na segunda-feira sem avanço. O tráfego por Ormuz, rota de cerca de um quinto do petróleo e do gás consumidos no mundo antes da guerra, parou. Três navios cruzaram o estreito no domingo, segundo dados de rastreadores internacionais. Na terça, um cargueiro foi atingido por um projétil na passagem, com uma morte a bordo; quem socorreu a tripulação foi a Guarda Costeira de Omã. O Brent era negociado a US$ 91,12 o barril e o WTI, a US$ 85,02.
Ameaçar sai barato no plano doméstico e caro no externo. O ex-embaixador americano em Omã Marc Sievers diz não conseguir imaginar o Comando Central americano planejando ataques contra alvos daquele país. E acrescenta que Omã parece ter perdido o apoio dos Estados Unidos. As duas frases, somadas, descrevem o problema: a ameaça não é crível, mas o estrago é real. Se dentro de algumas semanas Washington precisar de um canal discreto com Teerã, terá de procurá-lo no mesmo endereço que acabou de ameaçar bombardear.
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