CNBC
Shein

CNBCShein mira IPO de US$ 27 bilhões em Hong Kong — uma fração de sua avaliação de 2022

Análise Exclusiva Marcelo Favalli

Depois de Teerã, Ottawa: os EUA reencontram os limites da pressão 

Publicado 24/08/2026 • 12:11 | Atualizado há 1 hora

Foto de Marcelo Favalli

Marcelo Favalli

Marcelo Favalli além de jornalista é Mestre em Relações Internacionais pela PUC e professor nos cursos de pós-graduação de Política Contemporânea, da FAAP e do MBA em Comunicação e Política da USP. Dos 27 anos de profissão, na imprensa, dedicou 18 deles à cobertura estrangeira. Foi correspondente na América Latina e no Estados Unidos.

Foto: Pexels

Washington apostou que a dor econômica faria o Canadá cair de joelhos perante a administração Trump, assim como a Casa Branca apostou que os bombardeios dobrariam o Irã. Nos dois casos, a conta chegou primeiro para o consumidor americano. 
 
Na madrugada de sábado, 22, entraram em vigor as tarifas de 50% sobre cerca de US$ 20 bilhões em produtos canadenses. Horas depois, Mark Carney anunciou a retaliação "dólar por dólar", a partir de 8 de setembro. O primeiro-ministro resumiu a situação sem rodeios: “você está em guerra quando é atacado, e nós fomos atacados”. 

Ambas decisões já foram noticiadas. O que ainda está no campo das hipóteses é a natureza da aposta que Washington fez. Os primeiros desobramentos da mais recente rodada do tarifaço trampista indica que o presidente dos Estados Unidos perdeu pela segunda vez em seis meses. O parelelo, de novo, é com a confronto com o Irã. 

O instrumento já entrega o jogo 

As tarifas da semana passada contra o Canadá não vieram por decreto de emergência. Estão baseadas na Seção 338 do Tariff Act de 1930, isto é, pela lei Smoot-Hawley. O dispositivo nunca havia sido usado por presidente algum. A medida permite taxar em até 50% qualquer país considerado "discriminatório" contra o comércio americano, sem investigação prévia, sem aval do Congresso e, se o presidente entender que a discriminação persiste, autoriza o embargo total. Foi neste mesmo balaio que o Brasil foi incerido. 

A escolha do instrumento não foi aleatória. Em fevereiro, a Suprema Corte derrubou o uso da IEEPA, a lei de poderes emergenciais, como base para tarifas. Sem este argumento, a Casa Branca foi buscar no porão jurídico uma norma que ninguém testou em tribunal — justamente porque não há jurisprudência para derrubá-la. É uma jogada engenhosa e frágil ao mesmo tempo, como costumam ser as jogadas feitas com pressa. 

Repare no que ficou de fora da taxação: energia, potássio para fertilizantes, minerais críticos e pescado. Washington sobretaxou eletrônicos, laticínios, máquinas e automóveis. Resumidamente, poupou exatamente aquilo que não consegue substituir. A lista de exceções é a confissão mais honesta do documento. Mede, item por item, até onde vai a alavanca americana de persuasão. 

O manual que não funciona 

Robert Pape, da Universidade de Chicago, transpôs estratégia de guerra tanto o mundo dos negócios quanto para a administração pública. O cientista político examinou 33 bombardeios aéreos entre 1917 e 1991 e chegou a uma conclusão desconfortável para quem gosta de atalhos: estratégias de punição. As munições que atingiram a população civil e a economia, para que os ataques pressionassem o governo inimigo falharam em todos os casos em que foram a via principal do ataque. Punir de fora costuma endurecer, e não amolecer, a resistência de dentro. Robert Pape estendeu depois o mesmo diagnóstico às sanções econômicas. A lógica é idêntica; muda o "armamento". 

O Irã foi o teste recente. A guerra começou em 28 de fevereiro com a expectativa de que os aiatolás negociassem sob fogo. Teerã respondeu fechando o Estreito de Ormuz, por onde passavam cerca de 20 milhões de barris por dia. O Brent subiu cerca de 50% nas primeiras semanas de guerra, ultrapassou US$ 115 em março e fechou a semana passada perto de US$ 94, quase 40% acima de um ano atrás. Segundo estimativas de mercado citadas pela CNBC, o mundo ainda perde algo como 8 milhões de barris diários por causa da guerra. Seis meses depois, não há acordo, não há rendição e há analistas descrevendo a situação como um limbo permanente. O regime que deveria ceder descobriu que tinha uma "torneira de dissuasão" na mão. 

Assemelha-se a um bumerangue: a arma voltou para o lançador. A gasolina mais cara alimentou a inflação americana, que fechou julho em 3,4%. A aprovação de Trump na economia está em 36%, a pior de seus dois mandatos, segundo Reuters/Ipsos. Há eleições de meio de mandato em novembro. O voto de protestos para os adversários democratas é o medo silencioso dos republicanos. 

Ottawa leu a mesma pesquisa 

Com o Canadá, o roteiro se repete em outra chave. A pressão deveria produzir concessão; produziu unanimidade. Pierre Poilievre, líder conservador que teve o apoio explícito de Trump na eleição passada, saiu em defesa do adversário que o derrotou. Governos de províncias, sindicatos e imprensa fizeram o mesmo. Pesquisa do instituro Leger da semana anterior indicava 56% dos canadenses a favor de não ceder mais nada. As lojas do país tiraram o uísque americano das prateleiras e o boicote turístico já custou US$ 2,35 bilhões em receita de viagens aos Estados Unidos. 

A assimetria é brutal: cerca de 70% das exportações canadenses vão para o vizinho, e a taxação atinge apenas uns 5% desse total. Ninguém em Ottawa acha que a conta será leve. Mas dependência só vira poder quando o dependente não tem para onde ir, e o Canadá começou a procurar outros endereços. As vendas para mercados fora dos EUA subiram 11,1% em 2025 e chegaram a 32,8% do total exportado: a maior fatia em mais de quatro décadas. O próprio setor privado canadense reconhece que o movimento é concentrado em ouro, petróleo e minerais críticos, e que algumas cidades industriais seguem sangrando. A diversificação é lenta, desigual e irreversível. Essa combinação é a pior possível para quem apostava num recuo rápido. 

Há um detalhe que une Teerã e Ottawa, e não se trata de ideologia. Os dois governos chegaram à mesma leitura do calendário americano: quem está sob pressão calcula que o custo político da escalada, em novembro, será maior para quem pressiona. Geoffrey Blainey, escritor e professor nas universidades de Harvard e Melbourne, escreveu que as guerras terminam quando os dois lados finalmente concordam sobre quem é mais forte. Enquanto essa conta não fecha, ninguém recua. Por ora, o Irã acha que aguenta mais, o Canadá acha que aguenta mais, e o eleitor americano é quem paga a diferença.

Leia outras colunas de Marcelo Favalli.

Siga o Times Brasil - Licenciado Exclusivo CNBC no

MAIS EM Marcelo Favalli