Siga o Times Brasil - Licenciado Exclusivo CNBC no
Sérgio Leverdi: Os efeitos colaterais da reeleição – 48 horas que o setor elétrico não vai esquecer
Publicado 28/10/2026 • 21:40 | Atualizado há 55 minutos
Ações da Alphabet despencam 10% após empresa manter previsão de investimentos para 2026
Oracle dispara 13% após projetar receita de R$ 1,2 trilhão para 2030
Fed mantém juros entre 3,75% e 4% apesar da inflação persistente
Oracle integra ChatGPT e Codex a seus aplicativos e amplia linha de chips para computação em nuvem
Google muda estratégia na nuvem e recorre a parceiros para vender mais chips de IA
Publicado 28/10/2026 • 21:40 | Atualizado há 55 minutos
A Bolsa fez em dois dias o ajuste que o mercado de concessões fará em dois anos — e provavelmente em direção oposta.
Por Sérgio Leverdi — CEO do LAWINFRA

A segunda-feira, 26 de outubro, entrou para a história da bolsa: o Ibovespa caiu 13,88%, para 176.608 pontos, e acionou o circuit breaker pela primeira vez desde março de 2020. O dólar subiu 8,25%, a R$ 5,40. Foi a resposta de um mercado que, na sexta-feira anterior, havia fechado acima de 205 mil pontos apostando na troca de governo — e que acordou no domingo com a primeira virada entre turnos desde 1989.
O leitor desta coluna sabe que não escrevo sobre política partidária. Escrevo sobre regulação, contratos e previsibilidade. E é exatamente por isso que o setor elétrico merece um olhar à parte, porque ele foi um dos que mais caíram na segunda-feira, embora seja, pela natureza de seus contratos, um dos menos expostos a qualquer governo. Esse descolamento entre o preço e o fundamento jurídico é o tema deste texto.
A distinção que atravessa esta coluna
O mercado precifica expectativa fiscal; os contratos de concessão precificam regra. Os dois podem divergir por semanas. Raramente divergem por anos.
Sim, houve queda — e foi mais funda nas elétricas do que no índice. Em dois pregões, o Ibovespa acumulou perda de 14,32% (-13,88% na segunda e -0,51% na terça, fechando a 175.710 pontos, menor patamar desde 28 de agosto). O dólar devolveu parte do salto e encerrou a terça a R$ 5,35.

A leitura do gráfico mostra que as distribuidoras com maior alavancagem e mais dependentes do custo de capital doméstico — Energisa, Equatorial, Auren — perderam quase 30% em um único dia, mais que o dobro do índice. As geradoras e integradas com fluxo de caixa mais contratado — Copel, Axia, Cemig — caíram menos que o Ibovespa. A terça-feira foi de acomodação, com o índice praticamente de lado; a recuperação por setor ainda não está consolidada nas fontes públicas, e por isso o gráfico retrata apenas o pregão de segunda.
O que esse padrão revela não é uma rejeição ao setor elétrico. É uma reprecificação de juro longo. A elétrica é, no jargão do mercado, um bond proxy: quando a curva de juros sobe, ela cai, independentemente de quem ocupa o Planalto.
Por isso falamos tanto da necessidade de um plano de Estado para a energia elétrica, que é o motor econômico do Brasil e do mundo.
O mercado devolveu um prêmio eleitoral que ele mesmo havia construído. Entre o fim de setembro e a véspera do segundo turno, o Ibovespa subiu de 183 mil para 205 mil pontos apostando numa agenda de ajuste fiscal e juros menores. A virada nas urnas não destruiu valor, mas retirou uma expectativa que nunca chegou a ser contrato.
A conta que os gestores fazem agora tem três variáveis, e nenhuma delas é regulatória. Já queremos saber quem ocupará a Fazenda, qual será o arcabouço fiscal do segundo mandato e como o Banco Central reagirá ao câmbio. Estrategistas ouvidos pela imprensa financeira nesta última semana foram unânimes em condicionar a estabilidade da Bolsa ao sinal fiscal e ao nome do ministro — não à ANEEL, não ao ONS, não à CCEE.
Isso importa para o setor elétrico por uma razão simples: a receita de uma distribuidora ou de uma transmissora não é votada. Ela está escrita em contrato de concessão, com revisão tarifária periódica, indexação definida e garantia de equilíbrio econômico-financeiro. O que oscila é o custo de capital que desconta essa receita. O que não oscila é a receita.
A queda de 30% da Energisa em um dia não é uma aposta de que a Energisa receberá 30% a menos. É uma aposta de que o dinheiro para financiar a Energisa ficará mais caro. São coisas diferentes, e o investidor que confunde as duas costuma vender no fundo.
Enquanto a Bolsa acionava o circuit breaker, a ANEEL seguia o calendário. Esse é o dado jurídico mais relevante das 48 horas, e passou despercebido no noticiário econômico.


A reeleição, por definição, não produz ruptura institucional. E no setor elétrico brasileiro isso tem um valor concreto, mensurável em custo de capital.
A Lei 15.269/2025, que converteu as medidas provisórias da reforma do setor elétrico, foi construída pelo governo que acaba de ser reconduzido. A abertura do mercado livre para consumidores residenciais, prevista para 2028, foi defendida pelo presidente reeleito em sabatina como instrumento de redução da conta de luz. A expansão da transmissão para escoar renováveis e atrair grandes cargas — data centers inclusive, com o regime do Redata sancionado em setembro — é agenda em execução, não em discussão.
Um interlocutor do setor resumiu a expectativa ao noticiário especializado nesta segunda: haverá mudanças, mas sem rupturas. Concordo com o diagnóstico, com uma ressalva de advogado: ruptura regulatória raramente vem de eleição. Vem de medida provisória editada em crise, de jabuti em lei de conversão, de decisão judicial que suspende leilão na véspera. Nenhum desses três riscos aumentou nas últimas 48 horas. Um deles — a previsibilidade de quem edita a MP — diminuiu.
Onde a estabilidade aparece
O investidor estrangeiro que avalia um lote de transmissão não compara o Brasil de ontem com o Brasil de amanhã; compara o Brasil com o México, com o Chile, com a Índia. O que ele precisa saber é se o contrato que assinar na sexta-feira será o mesmo contrato daqui a dez anos.
Para um governo que continua, a resposta é mais fácil de dar do que para um governo que começa. O prêmio por essa resposta não aparece no pregão de segunda; aparece no deságio do leilão de sexta.

Maiores Audiências
1
Flávio Bolsonaro nos EUA: como funciona a extradição entre Brasil e Estados Unidos
2
Nos EUA, Flávio Bolsonaro diz que houve fraude na eleição
3
Flávio republica carta e retira trecho em que se dizia ‘verdadeiro presidente eleito’ do Brasil
4
Tarcísio diz que aconselhou Flávio a ficar no Brasil após derrota para Lula
5
Plano para Flávio Bolsonaro deixar o país foi articulado semanas antes do resultado do 2º turno