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Sérgio Leverdi: Os efeitos colaterais da reeleição – 48 horas que o setor elétrico não vai esquecer

Publicado 28/10/2026 • 21:40 | Atualizado há 55 minutos

Foto de Sérgio Leverdi

Sérgio Leverdi

Advogado com mais de 30 anos de atuação, formado em Direito pela Universidade de Brasília (UnB), com especialização em Direito Econômico e Empresarial, pós-graduação pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Também é especialista em Direito Tributário e em regulação do setor de energia, tendo cursado Pós-Graduação tanto no IDP como na PUCPR, área em que atua na representação de grandes projetos de relevância nacional. Idealizador do LAWINFRA, iniciativa voltada ao diálogo entre o setor produtivo, reguladores e o sistema de justiça, Sérgio Leverdi é sócio do Observatório Internacional da Justiça e Arbitragem. Sua trajetória é marcada pela atuação estratégica em infraestrutura, energia, segurança jurídica e desenvolvimento econômico.

A Bolsa fez em dois dias o ajuste que o mercado de concessões fará em dois anos — e provavelmente em direção oposta.

Por Sérgio Leverdi — CEO do LAWINFRA

O circuit breaker

A segunda-feira, 26 de outubro, entrou para a história da bolsa: o Ibovespa caiu 13,88%, para 176.608 pontos, e acionou o circuit breaker pela primeira vez desde março de 2020. O dólar subiu 8,25%, a R$ 5,40. Foi a resposta de um mercado que, na sexta-feira anterior, havia fechado acima de 205 mil pontos apostando na troca de governo — e que acordou no domingo com a primeira virada entre turnos desde 1989.

O leitor desta coluna sabe que não escrevo sobre política partidária. Escrevo sobre regulação, contratos e previsibilidade. E é exatamente por isso que o setor elétrico merece um olhar à parte, porque ele foi um dos que mais caíram na segunda-feira, embora seja, pela natureza de seus contratos, um dos menos expostos a qualquer governo. Esse descolamento entre o preço e o fundamento jurídico é o tema deste texto.

A distinção que atravessa esta coluna

O mercado precifica expectativa fiscal; os contratos de concessão precificam regra. Os dois podem divergir por semanas. Raramente divergem por anos
.

As 48 horas em números

Sim, houve queda — e foi mais funda nas elétricas do que no índice. Em dois pregões, o Ibovespa acumulou perda de 14,32% (-13,88% na segunda e -0,51% na terça, fechando a 175.710 pontos, menor patamar desde 28 de agosto). O dólar devolveu parte do salto e encerrou a terça a R$ 5,35.

A leitura do gráfico mostra que as distribuidoras com maior alavancagem e mais dependentes do custo de capital doméstico — Energisa, Equatorial, Auren — perderam quase 30% em um único dia, mais que o dobro do índice. As geradoras e integradas com fluxo de caixa mais contratado — Copel, Axia, Cemig — caíram menos que o Ibovespa. A terça-feira foi de acomodação, com o índice praticamente de lado; a recuperação por setor ainda não está consolidada nas fontes públicas, e por isso o gráfico retrata apenas o pregão de segunda.

O que esse padrão revela não é uma rejeição ao setor elétrico. É uma reprecificação de juro longo. A elétrica é, no jargão do mercado, um bond proxy: quando a curva de juros sobe, ela cai, independentemente de quem ocupa o Planalto.

Por isso falamos tanto da necessidade de um plano de Estado para a energia elétrica, que é o motor econômico do Brasil e do mundo.

O que o preço está dizendo — e o que não está

O mercado devolveu um prêmio eleitoral que ele mesmo havia construído. Entre o fim de setembro e a véspera do segundo turno, o Ibovespa subiu de 183 mil para 205 mil pontos apostando numa agenda de ajuste fiscal e juros menores. A virada nas urnas não destruiu valor, mas retirou uma expectativa que nunca chegou a ser contrato.

A conta que os gestores fazem agora tem três variáveis, e nenhuma delas é regulatória. Já queremos saber quem ocupará a Fazenda, qual será o arcabouço fiscal do segundo mandato e como o Banco Central reagirá ao câmbio. Estrategistas ouvidos pela imprensa financeira nesta última semana foram unânimes em condicionar a estabilidade da Bolsa ao sinal fiscal e ao nome do ministro — não à ANEEL, não ao ONS, não à CCEE.

Isso importa para o setor elétrico por uma razão simples: a receita de uma distribuidora ou de uma transmissora não é votada. Ela está escrita em contrato de concessão, com revisão tarifária periódica, indexação definida e garantia de equilíbrio econômico-financeiro. O que oscila é o custo de capital que desconta essa receita. O que não oscila é a receita.

A queda de 30% da Energisa em um dia não é uma aposta de que a Energisa receberá 30% a menos. É uma aposta de que o dinheiro para financiar a Energisa ficará mais caro. São coisas diferentes, e o investidor que confunde as duas costuma vender no fundo.

Leilões e consultas em curso: a agenda não parou

Enquanto a Bolsa acionava o circuit breaker, a ANEEL seguia o calendário. Esse é o dado jurídico mais relevante das 48 horas, e passou despercebido no noticiário econômico.

Três observações de quem acompanha esses ritos há três décadas.

Como a estabilidade ajuda

A reeleição, por definição, não produz ruptura institucional. E no setor elétrico brasileiro isso tem um valor concreto, mensurável em custo de capital.

A Lei 15.269/2025, que converteu as medidas provisórias da reforma do setor elétrico, foi construída pelo governo que acaba de ser reconduzido. A abertura do mercado livre para consumidores residenciais, prevista para 2028, foi defendida pelo presidente reeleito em sabatina como instrumento de redução da conta de luz. A expansão da transmissão para escoar renováveis e atrair grandes cargas — data centers inclusive, com o regime do Redata sancionado em setembro — é agenda em execução, não em discussão.

Um interlocutor do setor resumiu a expectativa ao noticiário especializado nesta segunda: haverá mudanças, mas sem rupturas. Concordo com o diagnóstico, com uma ressalva de advogado: ruptura regulatória raramente vem de eleição. Vem de medida provisória editada em crise, de jabuti em lei de conversão, de decisão judicial que suspende leilão na véspera. Nenhum desses três riscos aumentou nas últimas 48 horas. Um deles — a previsibilidade de quem edita a MP — diminuiu.

Onde a estabilidade aparece

O investidor estrangeiro que avalia um lote de transmissão não compara o Brasil de ontem com o Brasil de amanhã; compara o Brasil com o México, com o Chile, com a Índia. O que ele precisa saber é se o contrato que assinar na sexta-feira será o mesmo contrato daqui a dez anos.

Para um governo que continua, a resposta é mais fácil de dar do que para um governo que começa. O prêmio por essa resposta não aparece no pregão de segunda; aparece no deságio do leilão de sexta.

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