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CNBCEleições nos EUA: primeiras urnas fecham enquanto o controle da Câmara e do Senado permanece indefinido

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Sérgio Leverdi: Nos EUA, o data center foi parar na urna. O Brasil ainda pode chegar antes da conta

Publicado 03/11/2026 • 21:27 | Atualizado há 3 horas

Foto de Sérgio Leverdi

Sérgio Leverdi

Advogado com mais de 30 anos de atuação, formado em Direito pela Universidade de Brasília (UnB), com especialização em Direito Econômico e Empresarial, pós-graduação pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Também é especialista em Direito Tributário e em regulação do setor de energia, tendo cursado Pós-Graduação tanto no IDP como na PUCPR, área em que atua na representação de grandes projetos de relevância nacional. Idealizador do LAWINFRA, iniciativa voltada ao diálogo entre o setor produtivo, reguladores e o sistema de justiça, Sérgio Leverdi é sócio do Observatório Internacional da Justiça e Arbitragem. Sua trajetória é marcada pela atuação estratégica em infraestrutura, energia, segurança jurídica e desenvolvimento econômico.

Foto: Divulgação/OpenAI

A lição para o Brasil não é recuar — é regular antes, e regular bem.

Por Sérgio Leverdi  —  CEO do LAWINFRA

Escrevo dos Estados Unidos, no dia em que os americanos foram às urnas nas eleições de meio de mandato. Quem acompanha a campanha daqui percebe rapidamente que um dos temas que mais mobilizam o eleitor não está nos manuais tradicionais de política externa ou de costumes: está na conta de luz. E, no centro da discussão sobre a conta de luz, está um tipo de empreendimento que até pouco tempo atrás era celebrado sem ressalvas: o data center.

Não se trata de impressão de viajante. Segundo a Ballotpedia, há ao menos 41 iniciativas sobre data centers submetidas ao voto popular nesta terça-feira, em estados que vão da Califórnia ao Maine. Só em Ohio são 21 medidas pendentes, onze delas para proibir novas construções ou impor uma pausa no setor. Na pequena Piqua, também em Ohio, os eleitores decidem se destituem o prefeito e dois vereadores que apoiaram um data center de cerca de US$ 1 bilhão. Em nove estados, há assentos em disputa nas comissões estaduais que regulam as concessionárias de energia.

No Brasil, o tema chegou pelo caminho oposto. Em seu discurso de vitória, em 25 de outubro, o presidente Lula afirmou: “Nós temos que aproveitar o potencial energético de um país que talvez seja o que tenha mais capacidade de energia renovável para trazer para cá os data centers”. E acrescentou que “essa gente vai ter que deixar uma parte do data center para as informações brasileiras”.

Os dois países olham para o mesmo empreendimento a partir de pontos muito diferentes. O americano olha com desconfiança, depois de sentir o efeito no bolso. O brasileiro olha como oportunidade. A pergunta desta coluna é simples: como o Brasil pode abraçar os data centers sem repetir os erros que os Estados Unidos estão pagando agora?

O que deu errado por aqui

O diagnóstico americano começa no preço. Dados da Agência de Informação de Energia dos EUA, citados pela Forbes, indicam que a eletricidade residencial subiu mais de 10% desde 2024. Uma análise do Federal Reserve de Dallas estimou que a demanda dos data centers elevou o preço da energia no atacado em 6,9% no país, com altas locais de até 15% no norte da Virgínia e no noroeste do Pacífico. Na região atendida pela PJM, o maior operador de rede do país, o monitor independente do mercado estima que os consumidores pagarão US$ 7,3 bilhões adicionais em encargos de capacidade neste ano por causa dos data centers. Em Ohio e em Maryland, isso representou algo entre US$ 16 e US$ 18 a mais por mês na conta média residencial.

O efeito político veio na sequência. Uma pesquisa do POLITICO, publicada em 25 de outubro, mostra que metade dos americanos se opõe a um data center a menos de cinco quilômetros de casa — em janeiro, eram 28%. Levantamento da Electric Choice contabiliza mais de 570 restrições locais, proibições de zoneamento ou moratórias em 46 estados. Nova York adotou moratória estadual para novos data centers de grande porte. No Texas, o governador passou, em poucos meses, do incentivo à construção acelerada para uma auditoria da fila de conexão à rede. Na Pensilvânia, o governo passou a exigir que os empreendedores tragam a própria geração e arquem com os custos da rede.

O erro americano não foi atrair data centers. Foi atraí-los sem antes decidir quem paga a rede que eles exigem. Quando essa resposta chega depois, chega pela urna — e chega como moratória.

Há um dado que torna essa lição ainda mais valiosa. Segundo levantamento citado pela Forbes, mais de 60% do aumento nos custos de capacidade é atribuído à demanda projetada dos data centers. Ou seja, o consumidor residencial passou a financiar, na sua conta, a expansão necessária para atender cargas que, em boa parte, ainda nem foram ligadas. É a socialização de um custo privado. Nenhuma política industrial sobrevive politicamente a isso por muito tempo.

O Brasil começa de um lugar melhor

É aqui que a comparação favorece o Brasil, e convém dizer isso com clareza. O problema central do setor elétrico americano hoje é a falta de energia firme e barata para atender a nova demanda. O problema do setor elétrico brasileiro é, em boa medida, o inverso: sobra energia renovável em determinadas horas e regiões, e falta rede para escoá-la. Em 2025, segundo dados da ANEEL, o corte de geração atingiu 20,6% da capacidade das usinas eólicas e solares integradas ao sistema, com forte concentração no Nordeste.

Um data center é uma carga grande, contínua e previsível, instalada exatamente onde se decide instalá-la. Bem localizado, perto de onde a energia renovável hoje é desperdiçada, ele pode transformar parte do corte de geração em consumo produtivo, em vez de disputar com o consumidor residencial a energia escassa de uma região congestionada. O que nos Estados Unidos virou fonte de pressão sobre a tarifa pode, no Brasil, ajudar a resolver uma ineficiência que já custa caro.

O país também começa com regras que os americanos estão tentando construir às pressas. A Política Nacional de Acesso ao Sistema de Transmissão, instituída pelo Decreto nº 12.772/2025, substituiu a lógica da fila por temporadas de acesso conduzidas pelo ONS, com processo competitivo quando a demanda supera a capacidade disponível e exigência de garantias. Em fevereiro deste ano, o ONS aceitou 38 pedidos de conexão de data centers, somando cerca de 7 GW. Trata-se de demanda organizada, com garantia financeira, e não de uma corrida desordenada à rede.

E há, desde setembro, um marco tributário com contrapartidas. A Lei nº 15.504/2026, que instituiu o Redata, suspende tributos federais sobre equipamentos e, em troca, exige que a energia consumida venha de fontes renováveis ou de baixa emissão, que pelo menos 10% da capacidade de processamento atenda o mercado brasileiro, que 2% do valor dos bens incentivados sejam aplicados em pesquisa e inovação e que a eficiência hídrica seja de até 0,05 litro por kWh. Água, por sinal, é outro tema que alimenta a resistência das comunidades americanas. A exigência de capacidade para o mercado interno é, em linguagem jurídica, a mesma ideia que o presidente expressou no discurso de vitória.

Os Estados Unidos estão regulando os data centers depois da reação do eleitor. O Brasil tem a chance rara de regular antes — e de transformar a regra em vantagem competitiva, não em barreira.

Cinco lições para não repetir o erro

A primeira é a mais importante: quem causa o custo deve pagá-lo. A conexão e os reforços de rede exigidos por uma grande carga precisam ser alocados, de forma clara e prévia, ao empreendimento que os demanda, e não diluídos na tarifa do consumidor cativo. Isso não afasta o investidor. Ao contrário, regra clara de alocação é o que permite precificar o projeto. O que afasta o investidor é a mudança de regra no meio do caminho, como os americanos estão vendo agora.

A segunda é usar o sinal locacional. O Brasil já aprendeu isso no leilão de baterias, que bonifica projetos onde a rede está congestionada ou onde há corte de geração. A mesma lógica deveria orientar a conexão de data centers: estimular a instalação onde há energia sobrando e rede disponível, e encarecer onde ela é escassa. Hoje, segundo os dados do ONS, a maior parte dos pedidos aceitos está no Sudeste, sobretudo em São Paulo. A política pública pode e deve induzir outra geografia.

A terceira é tratar o data center como carga flexível. Nos Estados Unidos, um acordo da OpenAI com a Georgia Power prevê até 1 GW de redução flexível de demanda em momentos de estresse da rede. Uma carga que se modula ajuda o sistema em vez de pressioná-lo. A regulação brasileira de resposta da demanda pode incorporar esse tipo de compromisso como condição ou como benefício.

A quarta é a licença social. Boa parte da reação americana nasceu no município, não em Washington. No Brasil, o licenciamento é fragmentado, como já apontou análise publicada na ConJur, e falta uma avaliação integrada dos impactos regionais sobre água, rede e território. Um procedimento coordenado, com benefícios locais visíveis como emprego, arrecadação e conectividade, é o melhor antídoto contra a moratória.

A quinta é a estabilidade da própria regra. O Redata nasce com um problema que precisa ser resolvido logo: o PIS e a Cofins deixam de existir em 31 de dezembro de 2026, substituídos pela CBS, e a lei não traz mecanismo de transição. Sem ajuste, o principal benefício pode se esvaziar já no primeiro ano. Para quem decide um investimento de bilhões com horizonte de décadas, um incentivo que pode durar poucos meses não é incentivo: é incerteza.

O que está em jogo

A eletricidade virou o sistema operacional da economia, e os data centers são a parte mais visível dessa transformação. Os americanos estão descobrindo, na urna, que não basta atrair o investimento: é preciso decidir antes como ele se encaixa na rede, na tarifa e na comunidade. O resultado das votações de hoje ainda não é conhecido, mas o recado já foi dado. Quando a regra chega depois da conta, ela chega como reação.

O Brasil está mais bem posicionado do que qualquer outro grande país para receber essa onda: tem energia renovável abundante, um marco de acesso à transmissão já em funcionamento e uma lei de incentivos com contrapartidas definidas. O que falta é coerência entre essas peças e firmeza para mantê-las de pé.

Segurança jurídica é infraestrutura. Nos Estados Unidos, a ausência dela está sendo decidida hoje, voto a voto, município a município. No Brasil, ainda dá tempo de escrevê-la antes. E a vantagem de quem escreve primeiro é poder escrever melhor.

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