Siga o Times Brasil - Licenciado Exclusivo CNBC no
Você economiza. O gato do vizinho, não.
Publicado 15/09/2026 • 22:01 | Atualizado há 59 minutos
Huang, da Nvidia, diverge dos CEOs da Anthropic e da OpenAI sobre segurança da IA na Dreamforce
Sarah Friar, diretora financeira da OpenAI, enfatiza a necessidade de levar a segurança a sério em relação aos riscos da IA
Musk pede que principais laboratórios de I.A e empresas chinesas testem modelos umas das outras em meio a pedidos de desaceleração
Wall Street avalia impacto de possível desaceleração da I.A na expansão de data centers
Rendimento dos Treasuries de 10 anos sobe ao maior nível desde 2007 com aumento das apostas em alta de juros pelo Fed
Publicado 15/09/2026 • 22:01 | Atualizado há 59 minutos
Wikimedia Commons
Itaipu devolveu R$ 872 milhões à conta de luz em agosto. O furto de energia levou R$ 7,9 bilhões no mesmo ano. Entenda por que o consumidor que paga em dia continua financiando quem não paga — e o que a matemática diz sobre isso.
Por LAWINFRA
Em agosto, milhões de brasileiros abriram a conta de luz e encontraram uma linha inesperada: "bônus ITAIPU". A Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) autorizou a devolução de R$ 872,1 milhões aos consumidores residenciais e rurais que gastaram menos de 350 quilowatts-hora em pelo menos um mês de 2025. O crédito, calculado a R$ 0,00747 por kWh, variou de R$ 2,69 a R$ 31,38 por unidade consumidora, dependendo do consumo — e beneficiou cerca de 84 milhões de unidades.
O dinheiro veio do saldo positivo da Conta de Comercialização de Energia de Itaipu, que fechou 2025 com R$ 1,29 bi de resultado. Enquanto R$ 524,4 milhões ficaram em reserva técnica, o restante voltou para quem paga a conta. É, em essência, o lucro de um ativo público sendo distribuído a quem consome pouco - um gesto raro no setor elétrico brasileiro: dinheiro descendo a cadeia, do gerador ao consumidor.
Agora compare com o que subiu a cadeia no sentido contrário, no mesmo período.

Segundo o relatório anual de perdas da ANEEL, os "gatos" — ligações clandestinas, medidores adulterados, desvios de rede — consumiram 45 TWh em 2025, o equivalente a 7,1% de toda a energia que entrou nas redes de distribuição do país. O custo real foi de aproximadamente R$ 11,5 bilhões. Desse total, a agência reconheceu R$ 7,9 bilhões como "perda eficiente" e os incorporou à tarifa. O resto, cerca de R$ 3,6 bilhões, ficou com os acionistas das distribuidoras.
Traduzindo: de cada R$ 100 que o consumidor regular paga, cerca de R$ 3 são para bancar a energia que outra pessoa furtou. A conta é da própria Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica, apresentada à Câmara dos Deputados em junho. O Tribunal de Contas da União (TCU) deu nome a isso em audiência pública: "imposto invisível".
Nos extremos, o imposto deixa de ser invisível. "A cada R$ 8 que o consumidor do Amazonas paga, R$ 1 vai para bancar o furto", afirmou a gerente de regulação econômica da ANEEL, Flávia Pederneiras. Segundo a gerente, a tarifa da Amazonas Energia poderia ser 13% menor sem o furto, enquanto a tarifa residencial da Light, no Rio, poderia chegar a até 9,1% de redução no preço.
A pergunta que o consumidor faz é legítima: se eu apago a luz, desligo o chuveiro elétrico e fico abaixo dos 350 kWh, estou de fato protegendo o meu bolso — ou só reduzindo a minha parte no rateio do furto alheio?
A resposta tem duas camadas, e é preciso separá-las.

O TCU descreveu exatamente essa dinâmica no Acórdão 2008/2025: as perdas encolhem o faturamento das distribuidoras, a base pagante fica menor para absorver os custos fixos, a tarifa sobe, e a tarifa mais alta induz novos furtos e mais fuga de consumidores — para a energia solar no telhado, para o mercado livre. O setor apelidou o ciclo de "espiral da morte".
Aqui a intuição popular precisa de correção. O rateio das perdas não é nacional, mas sim por área de concessão: o furto no Complexo da Maré é pago pelo consumidor da Light; o furto em Manaus, pelo consumidor da Amazonas Energia. Quem mora em Florianópolis ou Curitiba paga pelas perdas de sua própria distribuidora — muito menores — e não pelas do Rio. É por isso que as tarifas do norte e do sudeste metropolitano são pressionadas de forma tão desigual.
Mas há uma porta pela qual o custo se nacionaliza. As Leis 13.299/2016 e 13.360/2016 elevaram as perdas regulatórias das concessões do Amazonas, Amapá, Roraima, Alagoas, Piauí, Rondônia e Acre — ou seja, mandaram reconhecer mais furto na tarifa daqueles estados. E parte das perdas dos sistemas isolados é coberta pela Conta de Consumo de Combustíveis, que o próprio relatório da ANEEL exclui de seus R$ 7,9 bi, financiada pela Conta de Desenvolvimento Energético, paga por todos os consumidores do país. Quando a Amazonas Energia entrou em colapso, o socorro veio via medida provisória federal e transferência de controle, com investimentos de R$ 2,3 bilhões anunciados pela nova controladora.
Em resumo: o furto é pago localmente até o limite que a distribuidora aguenta. Quando a distribuidora quebra, o custo vira nacional.
O contraste é instrutivo. O bônus de Itaipu prova que existe mecanismo, base legal e capacidade operacional para fazer dinheiro chegar diretamente à fatura de 84 milhões de unidades consumidoras, com critério de renda implícito (o teto de 350 kWh) e sem que ninguém precise pedir. É um crédito único, não uma redução permanente — a própria Fundação Getúlio Vargas (FGV) alertou que a conta de setembro volta ao normal. Mas a máquina funciona.
A pergunta é: por que a mesma máquina não é usada no sentido inverso? Recursos do próprio setor — da CDE, do BNDES — poderiam ser aliados ao combate às perdas nas dez distribuidoras que concentram 76,2% do furto nacional, com liberação condicionada a resultado verificado. Essa foi a tática utilizada pela Índia através de um programa federal que só libera dinheiro quando a perda cai. Desta forma, o país reduziu suas perdas de distribuição de 21,9% para 16,2% em quatro anos, e suas distribuidoras estaduais tiveram lucro coletivo pela primeira vez em mais de uma década.
O Brasil tem, hoje, o diagnóstico mais completo que já teve: relatório anual da ANEEL, acórdão do TCU com recomendações expressas ao Ministério de Minas e Energia, tomada de subsídios aberta para rever a metodologia (TS 25/2026), decreto de renovação das concessões exigindo planos de perdas, duas leis novas endurecendo penas. O que não tem é um programa com meta, dinheiro e cobrança.
▪ Que a ANEEL publique, por bairro, quanto da tarifa de cada distribuidora é furto — para que o "imposto invisível" deixe de ser invisível.
▪ Que as áreas onde nem o Estado entra sejam tratadas como problema de Estado, com pacto entre União, governo estadual e município — e não como falha de gestão da distribuidora, punida com glosa e resolvida com recuperação judicial.
▪ Que o combate às perdas ganhe um programa nacional nos moldes do bônus de Itaipu: dinheiro que chega aonde precisa, com regra clara e verificação pública.
Até lá, o conselho continua válido: economize. Você paga menos. Só não espere que o vizinho faça o mesmo — ele não recebe a conta.
Maiores Audiências
1
Além da esposa de Moraes, Vorcaro também pagou Temer, Mantega, Lewandowski, Jaques Wagner, ACM Neto e Ratinho Jr
2
Quebra de sigilo coloca em xeque notas oficiais de Moraes
3
Fachin avalia abrir investigação contra Moraes antes de levar afastamento ao plenário
4
iOS 27 é lançado hoje: veja quais iPhones recebem a nova atualização da Apple
5
No evento do Iphone Duo protagonista, a Apple apresentou a Siri com um recurso assustador embarcado no Apple Watch