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Taxa de juros: o que esperar do Banco Central do Brasil e do Fed
Publicado 22/06/2026 • 14:05 | Atualizado há 1 hora
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Publicado 22/06/2026 • 14:05 | Atualizado há 1 hora
Marcello Casal Jr. / Agência Brasil
O corte da Selic era esperado. O que importa não é o tamanho do movimento — é a credibilidade da comunicação do Banco Central.
O Copom cortou a Selic em 0,25 ponto, para 14,25% ao ano, por unanimidade. Nos Estados Unidos, o Federal Reserve manteve os juros entre 3,50% e 3,75% e sinalizou que o próximo passo pode ser uma alta. Duas respostas opostas ao mesmo pano de fundo: o choque de energia provocado pelo conflito no Oriente Médio. Mas, para o investidor brasileiro, a parte relevante não foi o corte em si, foi o recado que veio com ele.
Para justificar a continuidade da queda de juros com a inflação ainda acima do teto da meta, o Copom estendeu o "horizonte relevante" — a janela à frente sobre a qual projeta a inflação para calibrar a SELIC. O gesto dividiu o mercado.
Para uma parte dos economistas, alongar o horizonte foi uma forma de acomodar uma decisão já tomada. A lógica é simples: quanto mais distante a meta no tempo, menos disciplina o regime impõe sobre as decisões de hoje e mais frágil fica o compromisso com a convergência. Para outra parte, estender o prazo pode ser um instrumento legítimo de comunicação, desde que sirva para sinalizar cautela — e não para validar o que o comitê já queria fazer.
O ponto central é este: mexer no horizonte é tecnicamente defensável, mas tem um custo. Em regime de metas, a âncora não é só o número — é a confiança de que o Banco Central não muda a régua para chancelar a decisão que prefere. Quando o mercado desconfia da régua, o canal de expectativas perde força, e é preciso juro real ainda mais alto para obter o mesmo efeito.
O desconforto vem do descompasso entre os dados e a meta. Segundo levantamento da DataBay, o IPCA em 12 meses roda perto de 5,1%, acima do teto de 4,5% do regime de meta contínua de 3%. E o problema não está só nos preços voláteis: o núcleo de serviços acelerou para a casa de 6% ao ano, e choques adicionais — como o El Niño nas safras e o debate da escala 6x1 — ainda não foram totalmente incorporados.
Some-se a isso a atividade. Segundo dados da Plataforma DataBay, o PIB cresceu 1,1% no primeiro trimestre de 2026 ante o trimestre anterior, acima do esperado, puxado pelo investimento. A economia não está fraca — está resiliente. Isso tira do Copom o argumento mais confortável para cortar (o de afrouxar diante de uma demanda em queda) e o deixa apoiado numa aposta: a de que os efeitos defasados de um juro real ainda muito alto vão esfriar a economia adiante. É uma aposta legítima, mas ousada — e que, com a inflação acima do teto, pode passar a impressão de tolerância com a alta de preços.
Como o mercado recebeu
Não houve pânico, mas também não houve aplauso. A melhor evidência é a dispersão das projeções: parte do mercado ainda vê novos cortes no segundo semestre; outra parte aposta que junho foi o último corte, seguido de pausa. Quando casas sérias divergem entre "tem mais" e "acabou", o preço está dizendo que a função de reação do Banco Central ficou menos legível. E isso tem custo: mais prêmio de risco nos juros futuros e nos títulos atrelados à inflação.
O recado do Fed foi o oposto
Manter os juros nos EUA era esperado. O que pesou foi o gráfico de pontos: a mediana das projeções para o fim de 2026 subiu de 3,4% para 3,8%, ou seja, o comitê passou a embutir uma alta no ano. Nove dos dezoito membros agora projetam juros mais altos até o fim de 2026, e os cortes foram empurrados para 2027. A leitura é de um banco central disposto a parecer rigoroso demais para não correr o risco de parecer complacente — exatamente a credibilidade que o Copom arrisca gastar.
O elo entre as duas histórias é o diferencial de juros. Com o Brasil em 14,25% e os EUA abaixo de 4%, o prêmio para manter capital aqui segue alto, o que sustenta o real e ajuda a conter a inflação importada. O risco mora na convergência das trajetórias: se o Fed subir enquanto o BC corta, o diferencial encolhe, o câmbio pressiona e a inflação que o Copom tenta domar pode voltar. Em resumo, afrouxar no Brasil depende, em parte, de o Fed não ser agressivo demais — variável fora do controle de Brasília.
No Brasil, o mais provável é um ciclo curto: um último corte ou uma pausa, com a Selic terminando 2026 entre 13,5% e 14,25%, a depender de petróleo, fiscal e câmbio. Mas o nível importa menos do que a comunicação. O mercado quer ver o Copom reforçar o compromisso com a meta e condicionar os próximos passos à inflação — sem descartar manter ou até subir os juros. Sem isso, mais corte só compra mais prêmio de risco.
Nos EUA, a palavra é "alto por mais tempo": alta de volta à mesa e cortes só em 2027.
No fim, a divergência não está nas taxas — está nas escolhas de cada autoridade. O Fed decidiu blindar a âncora. O Banco Central, com a economia firme, apostou no juro real e moveu o horizonte para acomodar a aposta. Os dois podem estar certos. Mas o veredito não vem do comunicado: vem dos dados dos próximos meses.
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