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Análise: a aritmética do segundo turno continua desfavorável a Lula
Publicado 15/10/2026 • 19:24 | Atualizado há 19 minutos
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Publicado 15/10/2026 • 19:24 | Atualizado há 19 minutos
Foto: AFP
A principal novidade das pesquisas é a ausência de novidade. A Quaest mostra Flávio Bolsonaro com 46% das intenções de voto e Lula com 44%. Na última simulação antes do primeiro turno, os dois tinham 44% e 42%, respectivamente. Ambos avançaram na mesma proporção, e a distância permaneceu exatamente igual. Há empate técnico, mas não há, nessa comparação, sinal de aproximação do presidente. Confundir crescimento nas intenções de voto com redução da desvantagem é um equívoco básico de leitura eleitoral.
O Datafolha divulgado nesta quinta-feira reforça a percepção de estabilidade. Flávio aparece com 51% dos votos válidos, contra 49% de Lula, ante 52% a 48% na rodada anterior. A oscilação está dentro da margem de erro e não permite caracterizar uma mudança efetiva na disputa. O dado mais importante, porém, está na rigidez do voto. Na pesquisa anterior, 94% dos eleitores afirmavam estar totalmente decididos, enquanto apenas 6% admitiam a possibilidade de mudar de candidato. É um índice extraordinariamente elevado de cristalização das escolhas.
A rejeição também ajuda a explicar essa rigidez. Segundo os dados apresentados, 46% dizem que não votariam em Lula de maneira alguma, enquanto 44% afirmam o mesmo sobre Flávio. O eleitorado brasileiro está dividido em dois campos políticos profundamente consolidados, com baixa disposição para transitar entre eles. Em uma eleição na qual um dos candidatos precisa reverter milhões de votos, a ausência de volatilidade é uma notícia mais preocupante para quem está atrás.
O cenário mantém sua estrutura. Flávio saiu do primeiro turno com uma vantagem de aproximadamente 2,225 milhões de votos. Lula precisa superar essa diferença em uma disputa na qual os eleitores das candidaturas eliminadas também estão fazendo suas escolhas. É justamente nesse movimento que a Quaest apresenta um dado desfavorável ao candidato governista.
Entre os eleitores de Ronaldo Caiado, Flávio recebe 42%, contra 23% de Lula. Entre os de Renan Santos, são 40% para o candidato do PL e 14% para o petista. Lula aparece numericamente à frente entre os eleitores de Augusto Cury, mas por uma margem muito menor: 34% a 30%. A vantagem do presidente nesse último grupo não compensa o saldo favorável à oposição nos outros dois.
Aplicados aos votos que esses três candidatos receberam no primeiro turno, os percentuais indicam um saldo adicional de aproximadamente 1,05 milhão de votos para Flávio. Trata-se de uma simulação baseada em intenções declaradas em grupos pequenos da amostra, sujeita a maior incerteza. Ainda assim, o resultado aponta uma direção desfavorável a Lula: mantidas essas proporções e preservadas as bases dos dois finalistas, a diferença ultrapassaria 3,2 milhões de votos.
É por isso que a abstenção ganhou tanta importância no debate eleitoral. A campanha governista precisa encontrar votos em quantidade suficiente para compensar tanto a desvantagem inicial quanto o saldo de migração favorável ao adversário.
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Siga o Times | CNBCA Quaest identifica, entre os eleitores que se abstiveram, votaram em branco ou anularam o voto no primeiro turno, preferência de 43% por Lula e 38% por Flávio. Há duas informações essenciais nessa leitura. Primeiro, o recorte reúne comportamentos distintos: quem compareceu às urnas e anulou o voto não enfrenta necessariamente a mesma dificuldade de mobilização de quem ficou em casa. Segundo, os dois candidatos somam 81% das respostas desse grupo. Transformar toda essa preferência declarada em voto efetivo pressupõe uma conversão muito elevada.
Responder a uma pesquisa exige muito menos disposição do que sair de casa para votar. Um eleitor pode preferir Lula a Flávio, ou o contrário, e continuar sem motivação para comparecer às urnas. A preferência existe, mas sua transformação em voto depende da capacidade de mobilização das campanhas.
O histórico brasileiro recomenda prudência. Desde a redemocratização, somente em 2022 a abstenção presidencial caiu do primeiro para o segundo turno. Mesmo naquela eleição, excepcionalmente mobilizada, a redução foi de apenas 0,36 ponto percentual, de 20,95% para 20,59%, o que representou um aumento líquido de aproximadamente 570 mil votantes.
Esse saldo não significa que apenas 570 mil eleitores ausentes no primeiro turno retornaram às urnas. Houve pessoas que passaram a votar e outras que deixaram de comparecer. Ainda assim, o dado mostra a dificuldade de produzir uma expansão líquida expressiva da participação. A preferência declarada por milhões de eleitores que não deram voto válido não pode ser convertida automaticamente em milhões de votos novos.
Outro ponto de atenção para o governo é a dimensão da vantagem de Lula nesse público: cinco pontos percentuais. A eventual recuperação de eleitores também pode beneficiar Flávio. A cada cem pessoas desse grupo, as respostas indicam 43 votos para o presidente e 38 para o adversário. O ganho líquido para Lula seria de cinco votos, caso todas essas intenções se concretizassem. Para superar uma diferença de milhões, uma vantagem dessa dimensão exigiria mobilização expressiva.
As pesquisas mantêm a disputa aberta, mas oferecem pouco fundamento para uma narrativa de virada. Quaest e Datafolha, apesar das diferenças metodológicas, apontam para um cenário de forte polarização, votos consolidados e pouca movimentação entre os candidatos. A distância na série da Quaest permaneceu igual, a migração declarada dos principais candidatos eliminados favorece a oposição e a vantagem de Lula entre abstencionistas, eleitores que votaram em branco e nulos é estreita diante do desafio que precisa superar.
Flávio começa essa etapa à frente e encontra, nas transferências declaradas, espaço para ampliar sua vantagem. Lula precisa preservar a própria base, conquistar eleitores de outras candidaturas e mobilizar quem não deu voto válido no primeiro turno. A virada é possível, mas os números apresentados até aqui ainda não a demonstram. Em uma eleição com votos tão cristalizados, o tempo deixa de ser apenas um recurso de campanha e passa a ser um adversário de quem precisa mudar o cenário.
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