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Barreiras comerciais dificultam avanço do agro brasileiro no exterior, diz José Carlos Hausknecht, sócio em Agronegócios da EY Brasil
Publicado 30/09/2026 • 17:47 | Atualizado há 1 hora
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Publicado 30/09/2026 • 17:47 | Atualizado há 1 hora
KEY POINTS
Tarifas, cotas e outras medidas de proteção aos mercados domésticos estão entre os principais entraves para o agronegócio brasileiro ampliar sua presença internacional, segundo José Carlos Hausknecht, sócio em Agronegócios na EY Brasil. Para ele, a crescente preocupação dos países com o próprio abastecimento tornou o comércio de alimentos especialmente suscetível a restrições.
Em entrevista ao Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC, Hausknecht avaliou que o Brasil, apesar de ocupar uma posição relevante no fornecimento mundial de alimentos, sofre diretamente com o avanço do protecionismo.
“A gente está vendo, em termos globais, a questão geopolítica de estabelecimento de cotas e tarifas. Esse tipo de coisa tem sido muito utilizado pelos países para proteger os seus produtores. O agro é muito sensível, porque você está falando de alimentos, está falando do bem-estar da população”, explicou.
O resultado, segundo ele, é um ambiente de disputa cada vez mais intensa entre os países.
“A gente vê praticamente uma guerra comercial entre os países. O Brasil tem sofrido com isso e, por sermos grandes exportadores de uma série de commodities e produtos alimentares, a gente tem passado por restrições. Isso tem atrapalhado razoavelmente as nossas exportações”, acrescentou.
Nesse contexto, Hausknecht vê espaço para que discussões no G20 contribuam para a busca de regras mais previsíveis para o comércio. Um dos problemas, segundo ele, é a perda de efetividade dos mecanismos multilaterais que permitiam questionar medidas adotadas por outros países.
“Seria importante ter uma regulação. A gente perdeu o fórum que era a OMC, que não está mais funcional, e com isso se perdeu um ambiente onde você tinha uma regulação e podia questionar os países quando impunham taxações e cotas que não estavam de acordo com a legislação da OMC”, avaliou.
Sem um mecanismo internacional efetivo para arbitrar essas disputas, o executivo considera que o Brasil ficou mais dependente da capacidade de negociação direta com seus parceiros comerciais.
“Hoje a gente vive um ambiente em que você está sujeito aos interesses dos países sem nenhum regramento claro. Isso tem prejudicado bastante o Brasil, porque a gente não tem muita moeda de troca”, disse.
A consequência, acrescentou, é a necessidade de recorrer às relações diplomáticas e comerciais para tentar reverter obstáculos impostos aos produtos brasileiros.
“A gente está sujeito a essas regras que são impostas pelos outros países, não tem nem onde recorrer. Tem que tentar, através do relacionamento entre os países, baixar essas tarifas ou melhorar o acesso, e isso é muito difícil”, ressaltou.
A imposição de tarifas pelos Estados Unidos levou o agronegócio brasileiro a intensificar a procura por compradores em outros países. Hausknecht destacou, no entanto, que parte das tarifas americanas acabou retirada porque os próprios Estados Unidos tinham dificuldade para substituir determinados produtos fornecidos pelo Brasil.
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“A maior parte dessas tarifas para o agro brasileiro acabou sendo retirada, porque os Estados Unidos não tinham outro fornecedor, no caso de suco de laranja, café, esses produtos que, na prática, não têm de onde tirar se não for do Brasil. Tem outros países, mas eles não são suficientes para abastecer o mercado americano”, explicou.
A busca pela diversificação continuou, mas o executivo alertou que encontrar novos destinos não significa necessariamente conseguir substituir os principais mercados consumidores.
O exemplo mais evidente, segundo ele, está na carne bovina. O setor enfrenta atualmente restrições tanto na China quanto na União Europeia.
“A gente sempre está buscando novos mercados, mas muitas vezes você não consegue redirecionar as exportações, porque esses mercados são muito importantes. No caso da China, por exemplo, importava 50% da nossa carne bovina e a gente não tem como substituir totalmente esse mercado”, observou.
Por isso, a estratégia de diversificação reduz riscos, mas não elimina a dependência de grandes compradores.
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“A gente tem trabalhado, tem diminuído a dependência, tem diversificado constantemente, aberto novos mercados, mas muitas vezes esses países são muito difíceis de substituir totalmente”, ponderou.
Além de tarifas e cotas, exigências ambientais, sanitárias e de rastreabilidade ganharam peso no acesso aos mercados internacionais. Hausknecht reconheceu que parte dessas medidas responde a preocupações legítimas, mas apontou que elas também podem ser utilizadas para limitar importações.
“Cada vez mais a gente está vendo esse tipo de medida sendo usada, seja por interesse legítimo, às vezes de querer rastreabilidade para não ter problema ligado a desmatamento, mas muitas vezes sendo usada de uma maneira não muito correta”, avaliou.
Segundo ele, empresas brasileiras vêm investindo no monitoramento de suas cadeias. O movimento inclui frigoríficos e companhias ligadas à soja, um dos principais produtos da pauta exportadora do país.
“Você vê os frigoríficos fazendo esse trabalho de rastreabilidade com a sua cadeia. Muitas vezes eles não conseguem chegar a 100%, porque a cadeia é muito comprida, às vezes tem desvios. Mas tem crescido esse controle e o Brasil tem evoluído bastante”, destacou.
Na soja, Hausknecht citou iniciativas adotadas pelas tradings para acompanhar a origem dos produtos adquiridos de fornecedores.
“A nossa cadeia de soja, por exemplo, que é o nosso principal produto, já tem programas das tradings para fazer a rastreabilidade dos seus fornecedores. Isso é muito positivo e eu acho que o Brasil está bem posicionado”, afirmou.
O desafio, segundo ele, é reduzir ao máximo as lacunas restantes. Mesmo ocorrências pequenas podem provocar reações de países importadores e servir de fundamento para novas restrições.
“O sistema não é 100%. Às vezes você não consegue fazer uma rastreabilidade de tudo e tem alguns problemas localizados e pequenos, mas às vezes isso já leva a uma reação dos outros países. Então isso tem que melhorar ainda mais para a gente evitar qualquer tipo de retaliação ou barreira”, explicou.
As motivações por trás das barreiras também variam de acordo com o mercado. Na avaliação de Hausknecht, a cota chinesa para a carne bovina teve como objetivo proteger os produtores locais diante do crescimento das exportações brasileiras.
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“No caso da China, essa cota das carnes foi basicamente uma medida para proteger o mercado interno dela, os produtores de lá. Não tem nenhuma justificativa, eles não deram nenhuma justificativa. É basicamente uma salvaguarda”, disse.
Segundo o executivo, o avanço do produto brasileiro no mercado chinês contribuiu para a decisão. “O Brasil cresceu muito as exportações de carne bovina para a China nos últimos anos e eles quiseram proteger o seu mercado interno, seus produtores”, acrescentou.
Na União Europeia, Hausknecht apontou uma situação diferente. Nesse caso, a restrição envolveu exigências relacionadas ao uso de antimicrobianos na produção, e o Brasil não conseguiu apresentar a rastreabilidade exigida pelos europeus.
“No caso da Europa, existe uma restrição ao uso de antimicrobianos na produção e essa é a justificativa que foi dada pelos europeus. A gente realmente não tinha uma rastreabilidade disso e não conseguiu mostrar para eles”, explicou.
Hausknecht ponderou que é possível discutir a proporcionalidade da restrição e a existência de evidências de risco sanitário, mas ressaltou que, independentemente desse debate, o requisito europeu não foi cumprido pelo Brasil.
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“Você pode questionar até se é justificável parar a importação por conta disso, porque é difícil provar que isso tem algum problema sanitário ou que cause problema para a saúde pública. Mas é a regra que eles impuseram e a gente não conseguiu atender”, concluiu.
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