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Agro

Carlo Pereira: Brasil deve tratar plano chinês para reduzir importações de soja como aviso ao agro

Publicado 10/06/2026 • 23:15 | Atualizado há 1 hora

KEY POINTS

  • Carlo Pereira disse que a meta chinesa de reduzir importações de soja exige planejamento do agro brasileiro.
  • Ele afirmou que um corte de 25% nas compras chinesas representaria 23,5 milhões de toneladas de soja.
  • Pereira também alertou que barreiras europeias exigem mais rastreabilidade, certificação e comprovação da produção brasileira.

O plano da China de reduzir importações de soja deve ser tratado pelo Brasil como um aviso, e não como blefe, afirmou Carlo Pereira, especialista em sustentabilidade e Notável do Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC.

Em participação no quadro Capital Sustentável, Pereira disse que Pequim tem histórico de executar os planos estratégicos que anuncia. Segundo ele, a segurança alimentar ganhou peso no 15º plano quinquenal chinês e deve afetar diretamente o agronegócio brasileiro.

“A gente sabe que o que os chineses planejam, eles implementam”, afirmou.

Segundo Pereira, a China concentra cerca de 17% da população mundial e tem entre 11% e 12% das terras aráveis. Embora seja difícil imaginar o país deixando de depender do Brasil no curto prazo, a redução planejada nas compras de soja teria impacto relevante para os produtores brasileiros.

O Notável lembrou que 71% da soja produzida pelo Brasil tem como destino a China. Se Pequim cortar as importações em 25% até 2030, como sinalizado, o impacto seria de 23,5 milhões de toneladas.

“A gente não tem onde colocar isso. Não tem outro mercado”, disse.

Para Pereira, o setor precisa se antecipar ao movimento chinês, avaliar riscos de concentração e considerar alternativas de cultivo e planejamento de longo prazo.

Leia também: Carlo Pereira: Bélgica pode ser porta de entrada do Brasil na União Europeia

Tarifas podem mudar mercados de forma irreversível

Pereira também comentou o risco de novas tarifas envolvendo produtos brasileiros e citou episódios históricos em que restrições comerciais acabaram alterando cadeias globais.

Ele lembrou a decisão dos Estados Unidos, em 1973, de restringir exportações de soja para o Japão durante o governo Richard Nixon. Segundo Pereira, a medida levou os japoneses a buscar alternativas e a apoiar o desenvolvimento da produção agrícola no Cerrado brasileiro.

“Quando a gente fecha a porta de uma maneira, é claro que os produtores vão tentar se recolocar em outro mercado e o comprador também vai tentar buscar de outros lugares”, afirmou.

Na avaliação dele, decisões comerciais tomadas por razões políticas podem se transformar em efeitos econômicos duradouros.

“Muitas vezes isso é irreversível”, disse.

Pereira afirmou que o Brasil também deve ter cuidado ao discutir eventuais retaliações comerciais. Para ele, medidas desse tipo podem gerar efeitos que vão além da disputa inicial.

“O que bate e o que toma o tapa, a gente sabe e nunca esquece”, afirmou.

Leia também: Carlo Pereira: Brasil é exemplo contra trabalho escravo e não deve virar alvo dos EUA

Europa exige comprovação

Ao tratar da União Europeia, Pereira afirmou que o bloco costuma combinar acordos comerciais com exigências regulatórias e barreiras não tarifárias, especialmente no setor agrícola.

Segundo o Notável, esse movimento aparece em meio ao acordo entre União Europeia e Mercosul e às novas restrições europeias sobre produtos brasileiros, como carne bovina, frango, pescado e mel.

“Esse é um clássico dos europeus”, afirmou. “Está fechado, só que daí começa a apertar em barreiras não tarifárias.”

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Pereira disse que, em questões agrícolas, a tendência histórica é de pouca disposição europeia para recuar. Por isso, afirmou, o Brasil precisa se preparar para cumprir exigências de rastreabilidade, certificação, segregação e governança.

Ele citou discussões recentes no setor agropecuário e afirmou que o Brasil avançou na produção, mas ainda precisa melhorar a capacidade de comprovar como produz.

“O Brasil se tornou campeão da produção, mas está atrasado na comprovação do que produz”, disse, citando avaliação debatida no setor. “Vamos ter que ser também campeões de comprovação.”

Segundo Pereira, o desafio não é apenas defender a reputação da proteína animal brasileira, mas transformar essa reputação em evidências oficiais e verificáveis.

Ele afirmou que o setor precisa se organizar melhor, tanto internamente quanto na relação com o governo e órgãos reguladores.

“O setor não está se conversando e o setor não conversa também com o governo e outros órgãos”, disse.

Para Pereira, países concorrentes já avançaram mais nessa agenda. Ele citou o Uruguai como exemplo de país que fez a “lição de casa” em rastreabilidade.

“O Uruguai já fez a lição de casa, a gente está ficando de fora e certamente vai pagar um preço”, afirmou.

O Notável também alertou que o impacto das barreiras europeias não deve ser minimizado pelo fato de envolver uma parcela menor das exportações. Segundo ele, mesmo quando a fatia parece limitada, os efeitos podem recair sobre pequenos produtores.

“Quem vai sofrer são pequenos produtores”, disse.

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