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Estilista Weider Silveiro troca multimarcas pelo sob medida e expõe o negócio da moda autoral
Publicado 20/10/2026 • 13:14 | Atualizado há 32 minutos
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Publicado 20/10/2026 • 13:14 | Atualizado há 32 minutos
KEY POINTS
Foto: Divulgação/Acervo pessoal
Após décadas de carreira, Weider Silveiro revela os desafios financeiros de manter uma marca independente no Brasil.
O reconhecimento nas passarelas nem sempre se traduz em estabilidade financeira. Depois de décadas dedicadas à moda brasileira, o estilista Weider Silveiro admite que nunca alcançou conforto financeiro com a profissão. Sua trajetória expõe um dos principais desafios enfrentados por criadores independentes: transformar identidade artística, exclusividade e trabalho artesanal em um negócio capaz de se sustentar.
“Creio que nesse tempo todo, nunca tive um conforto financeiro que explicasse o fato de me manter no mercado”, afirmou Weider em entrevista exclusiva ao Times Brasil | Licenciado Exclusivo CNBC.
A declaração ajuda a compreender uma escolha que passou a orientar sua atuação comercial. Depois de experiências em lojas multimarcas e plataformas digitais, o estilista encontrou na produção sob medida um modelo que considera mais viável para preservar a identidade de seu trabalho e atender consumidoras interessadas em peças exclusivas.
“Meu trabalho é sob medida, que é o modelo mais viável pra mim. Já estive em multimarcas e sites, foi uma ótima experiência, mas em determinado momento senti que estava perdendo a essência do meu trabalho”, explica.
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A mudança representa uma decisão importante para qualquer marca de moda. Enquanto a presença em diferentes canais de venda pode ampliar o alcance comercial, a produção personalizada privilegia a relação direta com o consumidor e a diferenciação do produto. Nesse formato, o crescimento não depende necessariamente de vender mais unidades, mas também da capacidade de agregar valor a cada criação.
No caso de Weider, o público é formado por mulheres que valorizam o design, a feminilidade e a expressão artística. A exclusividade, portanto, não aparece apenas como característica estética, mas como parte da proposta comercial da marca.
“Creio que o meu comercial é exatamente o que as pessoas não fazem por temer a não venda. A minha cliente não espera algo comum de mim”, afirma.
O mercado da exclusividade
A aposta em peças personalizadas acompanha oportunidades identificadas no mercado de consumo premium. Segundo levantamento do Sebrae-RJ, as vendas de produtos de luxo no Brasil cresceram 26% entre 2022 e 2024, em um cenário de valorização da autenticidade, da personalização e das experiências de compra.
O estudo aponta que coleções limitadas, produção artesanal e serviços sob medida estão entre os caminhos disponíveis para pequenos negócios construírem diferenciação sem depender de grandes escalas de produção.
Embora o mercado de luxo seja mais amplo e não represente diretamente o desempenho das marcas autorais, essas características ajudam a explicar o espaço comercial ocupado por criadores que trabalham com produtos exclusivos.
A estratégia exige, porém, uma estrutura financeira própria. Diferentemente da produção industrial, que pode distribuir custos entre grandes quantidades de peças, o trabalho sob medida depende de mão de obra especializada, tempo de execução e materiais selecionados para cada criação.
A precificação precisa considerar esses fatores, além do valor atribuído à identidade do estilista. Uma peça exclusiva pode alcançar um posicionamento comercial diferenciado, mas isso não significa, necessariamente, margens de lucro maiores.
Weider não divulgou dados de faturamento, preços ou rentabilidade de sua operação. Sua avaliação sobre a viabilidade do sob medida está associada, sobretudo, à possibilidade de manter um modelo de trabalho coerente com sua proposta criativa.
Essa mesma preocupação esteve presente em sua decisão de realizar uma apresentação independente ao lado de Walério Araújo, amigo há mais de 25 anos. Em 12 de outubro, os estilistas dividiram o Arquivo Histórico Municipal de São Paulo para apresentar coleções individuais, após trajetórias que incluem participações na Casa de Criadores e na São Paulo Fashion Week (SPFW).
A iniciativa não representou a criação de uma marca conjunta, mas uma nova forma de organizar suas apresentações e assumir maior controle sobre os próprios calendários.
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Siga o Times | CNBC“Neste ano, eu e Walério identificamos com clareza que, para preservar a autoralidade que define nosso trabalho, precisaríamos abraçar um momento de mudança”, conta Weider.
Segundo ele, processos que envolvem trabalho manual, modelagens específicas e acabamentos elaborados exigem um tempo de desenvolvimento que nem sempre acompanha o ritmo dos calendários tradicionais.
A união também não surgiu, segundo o estilista, de um planejamento comercial para ampliar a divulgação das marcas ou reduzir despesas.
“Não houve uma estratégia no sentido de crescimento e divulgação, decidimos fazer juntos naturalmente, talvez como uma forma de nos apoiarmos mutuamente”, afirma.
As coleções apresentadas traduziram essa valorização da identidade criativa. Em Aboio, Weider retomou referências de sua infância no Piauí e da cultura dos vaqueiros nordestinos, reinterpretadas em peças estruturadas, volumes e drapeados. Walério, conhecido pelo maximalismo, transformou experiências de sua participação no reality show A Fazenda, em 2025, em uma coleção marcada por elementos performáticos e construções elaboradas.
Embora a apresentação tenha reunido os dois estilistas, cada um preservou sua linguagem e identidade, características fundamentais para o posicionamento de suas marcas.
Criatividade também exige gestão
A busca por autonomia revela uma discussão mais ampla sobre a estrutura empresarial da moda autoral brasileira. Para pequenos criadores, além de desenvolver coleções e conquistar consumidores, é necessário administrar fornecedores, custos de produção, estratégias comerciais e investimentos em divulgação.
O reconhecimento dessas particularidades levou o Sebrae-SP a criar, em 2025, o programa Crie Moda Autoral, voltado ao fortalecimento de negócios independentes. A iniciativa oferece capacitação em gestão, inovação e acesso ao mercado, com atenção a características como produção fora de série, identidade criativa e sustentabilidade.
A primeira turma de desenvolvimento de negócios reuniu 40 participantes em São Paulo. Em 2026, o programa também avançou para cidades do interior paulista, com ações de formação e apoio a empreendedores.
Para Weider, a disponibilidade de recursos e incentivos continua sendo um dos principais desafios do setor. O estilista reconhece que a concorrência com empresas de maior capacidade financeira impõe limites, embora não considere essa disputa uma prioridade para sua marca.
“São poucos fomentos e incentivos. É praticamente impossível concorrer com marcas capitalizadas, mas no meu caso, isso não é uma preocupação”, declara.
Sua trajetória evidencia que a sustentabilidade da moda autoral não depende apenas de ampliar vendas ou conquistar espaço nas passarelas. Envolve definir que tipo de negócio se deseja construir, quais consumidores atender e de que maneira remunerar processos criativos que não seguem necessariamente a lógica da produção em massa.
Ao lado de Walério, a apresentação independente representa mais uma etapa dessa busca por autonomia. Já na operação comercial, o sob medida permanece como a principal aposta de Weider para conciliar identidade artística e viabilidade do negócio.
“Moda é a minha paixão, calculei pouco o que já ganhei e o que já perdi, só sigo fazendo”, afirma.
A experiência dos estilistas mostra que, em um mercado marcado pela disputa por escala e visibilidade, a diferenciação também pode orientar estratégias comerciais. Para marcas independentes, o desafio é fazer com que o valor reconhecido nas passarelas seja igualmente percebido pelo consumidor e se traduza em receita.
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