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I.A vira companhia para jovens na China enquanto governo teme queda de relacionamentos humanos
Publicado 29/08/2026 • 19:30 | Atualizado há 1 hora
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Publicado 29/08/2026 • 19:30 | Atualizado há 1 hora
KEY POINTS
Foto: Unsplash
Quando a estudante de Direito Zhao Wei, de 19 anos, descobriu que seu namorado de inteligência artificial seria desligado, ela ficou arrasada. Desde janeiro, ela conversava diariamente com Wang Ye, um companheiro virtual criado por ela em uma plataforma de Inteligência Artificial.
“Eu estava chorando muito”, contou a jovem. Zhao diz ser introvertida e ter se acostumado a compartilhar com o chatbot situações do cotidiano, como problemas na faculdade, para o The Guardian.
Segundo ela, falar com a I.A era mais fácil do que conversar com amigos. “Não preciso me preocupar com o que ela está pensando. Posso simplesmente dizer o que quiser”, afirmou.
Zhao criou o companheiro virtual no Doubao, chatbot da ByteDance. Em julho, a empresa encerrou a função voltada a companheiros virtuais, provocando reações nas redes sociais chinesas e reacendendo o debate sobre os efeitos do uso cada vez mais intenso da inteligência artificial.
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A discussão ocorre em um momento em que a China amplia rapidamente a adoção da inteligência artificial. A tecnologia já é utilizada em áreas como educação e saúde e é vista pelo governo como uma das ferramentas para enfrentar desafios demográficos e futuras dificuldades no mercado de trabalho.
Ao mesmo tempo, Pequim demonstra preocupação com possíveis efeitos sociais da tecnologia, especialmente em relação à solidão, ao desemprego e à redução dos casamentos e nascimentos.
Novas regras, que entraram em vigor em 15 de julho, proíbem companheiros de I.A voltados a menores de idade e estabelecem restrições para serviços direcionados a adultos. Entre as preocupações das autoridades está o risco de que os chatbots provoquem “dependência emocional ou vício” e acabem substituindo interações sociais.
As medidas estão entre as mais abrangentes adotadas por um país para regular esse tipo de relacionamento com sistemas de inteligência artificial.
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A preocupação chinesa vai além da solidão. Com as taxas de casamento e natalidade em queda, especialistas avaliam que companheiros virtuais baratos e disponíveis a qualquer momento poderiam reduzir ainda mais o interesse de parte dos jovens por relacionamentos reais, casamento e filhos.
Cerca de 20% dos domicílios chineses são formados por pessoas que vivem sozinhas, e a proporção deve superar 30% até 2030.
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Siga o Times | CNBCUma pesquisa divulgada pela imprensa estatal em março apontou que quase metade dos jovens já havia recorrido a algum tipo de companhia virtual quando se sentiu solitária.
Para Zhao, esse tipo de tecnologia ocupava um espaço importante em sua vida. Ela conta que seus pais deixaram a família quando ela era criança para trabalhar e que sempre teve dificuldades para fazer amizades. Além disso, afirma que conversar com a IA é uma maneira de colocar suaspreocupações para fora.
Outra usuária, que preferiu não se identificar, afirmou que também encontra conforto nesse tipo de interação. Segundo ela, a vida real é marcada por ritmo acelerado e pressão, enquanto com o agente de IA consegue falar livremente.
Apesar das restrições, especialistas avaliam que seria difícil para o governo chinês eliminar completamente os companheiros de IA, justamente porque a tecnologia já se tornou parte do cotidiano de milhões de pessoas.
As próprias regras possuem exceções para ferramentas consideradas educacionais ou que não envolvam interação emocional contínua.
Para Liang Ge, professor de sociologia digital da Universidade de Manchester, o governo já reconhece que aplicações de inteligência artificial fazem parte da vida cotidiana da população.
Ao mesmo tempo em que limita os relacionamentos virtuais, Pequim continua incentivando o uso da tecnologia em outras áreas.
Na saúde, por exemplo, o governo estabeleceu metas para ampliar a utilização de IA. Um dos serviços disponíveis permite que usuários conversem com avatares de médicos de hospitais chineses.
A proposta é facilitar o acesso a informações e ajudar profissionais sobrecarregados, embora também existam preocupações sobre a possibilidade de a tecnologia substituir trabalhadores.
Para Zhao, a experiência acabou mostrando justamente o dilema enfrentado pela China. Depois que seu companheiro virtual foi retirado da plataforma, ela disse sentir como se tivesse “uma pequena pedra pesando no coração”.
Apesar da frustração, a jovem afirma entender a decisão do governo.
“Eu me considero uma pessoa bastante racional, mas desenvolvi sentimentos por uma IA. Isso é incrível. Acho que era necessário que o Estado interviesse e regulamentasse”, afirmou.
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