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Assembleia da ONU expõe crise da ordem global e disputa entre EUA e China

Publicado 22/09/2026 • 17:10 | Atualizado há 1 hora

KEY POINTS

  • Pedro Costa Júnior avalia que ataques de Donald Trump a organismos internacionais aprofundam uma crise do multilateralismo construída ao longo das últimas décadas.
  • Analista afirma que a disputa entre Estados Unidos e China pelo poder global deve marcar os próximos 25 anos, com comércio e minerais críticos no centro das tensões.
  • China defende instituições multilaterais, mas também constrói estruturas próprias para ampliar sua influência, como Brics, Organização de Cooperação de Xangai e Nova Rota da Seda.

Os discursos que abriram a Assembleia Geral da ONU nesta terça-feira (22) evidenciaram uma transformação mais profunda na ordem internacional, marcada pelo enfraquecimento das instituições multilaterais e pela crescente disputa de poder entre Estados Unidos e China. A avaliação é de Pedro Costa Júnior, doutor em Ciência Política e analista de Relações Internacionais, em entrevista nesta terça-feira (22) ao Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC.

Para Costa Júnior, a postura do presidente americano, Donald Trump, diante das organizações internacionais representa uma ruptura particularmente significativa porque parte justamente dos Estados Unidos, país que ajudou a estruturar a ordem construída depois da Segunda Guerra Mundial. “Essa ordem que prevaleceu no mundo nas últimas oito décadas e foi reafirmada depois da vitória dos Estados Unidos na Guerra Fria sobre a União Soviética, no começo dos anos 90, está ruindo, está desmoronando diante dos nossos pés”, afirmou.

Trump e a ruptura da ordem internacional

Na avaliação do analista, a Organização das Nações Unidas é a principal expressão do sistema multilateral desenvolvido nas últimas oito décadas, mas outras instituições e organismos também enfrentam pressões crescentes.

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“O Trump ataca deliberadamente todas as instituições internacionais, a ONU, a OMC, a União Europeia, todas as organizações que foram surgindo ao longo do tempo”, disse Costa Júnior.

Segundo ele, o mundo atravessa uma transição na qual a estrutura anterior perdeu força, enquanto um novo arranjo internacional ainda não se consolidou. O discurso de Trump na Assembleia Geral, em sua avaliação, deve ser entendido dentro desse movimento.

“Nós temos, de um lado, uma ordem que acabou e uma nova ordem que ainda não nasceu. Esse interregno produz monstros. E o que Trump mostra no seu discurso? Que ele quer uma nova ordem, a nova ordem mundial trumpista”, afirmou.

EUA e China disputam poder global

Costa Júnior considera que a rivalidade entre Washington e Pequim será determinante para a configuração internacional das próximas décadas. Para ele, os próximos 25 anos serão marcados pelo que define como uma “luta pelo poder global” entre as duas potências.

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“O segundo quartel do século XXI, os próximos anos até 2050, é o que eu chamo de luta pelo poder global. Essa luta se dá entre esses dois atores, entre Estados Unidos de um lado e China do outro”, afirmou.

Nesse cenário, as disputas comerciais ocupam apenas uma parte do confronto. Costa Júnior destacou as tarifas impostas por Trump e a estratégia chinesa de responder de maneira mais direcionada, utilizando setores nos quais Pequim possui vantagens estratégicas.

Um dos exemplos são as terras raras e os minerais críticos, cuja oferta chinesa tem importância tanto para a economia americana quanto para seu complexo industrial militar.

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“A resposta chinesa não é na mesma medida dos Estados Unidos, de tarifar indiscriminadamente os produtos americanos. É uma resposta cirúrgica, dificultando, por exemplo, a exportação chinesa de terras raras e minerais críticos para os Estados Unidos”, explicou.

O analista também colocou o Brasil dentro dessa disputa por recursos estratégicos, ao destacar a posição do país entre os detentores de reservas de terras raras.

Ausências também enviam sinais

Para Costa Júnior, a ausência de Xi Jinping da Assembleia Geral também possui significado político, especialmente em um momento no qual a China procura se apresentar como defensora do multilateralismo.

A ausência do presidente chinês, somada à de Vladimir Putin, segundo o analista, reforça os sinais de esvaziamento das instituições multilaterais, mesmo entre países que criticam a postura americana.

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“A China, no discurso, apoia essas instituições multilaterais. Hoje ela se tornou uma espécie de porta-voz e guardiã do multilateralismo. Há nuances. A própria ausência de Xi Jinping está dizendo: ‘Nós apoiamos, mas não damos tanta importância’”, avaliou.

China constrói estruturas próprias

O avanço chinês, porém, não ocorre apenas pela ocupação dos espaços deixados pelos Estados Unidos nas instituições existentes. Costa Júnior avalia que Pequim vem desenvolvendo organizações e mecanismos próprios capazes de funcionar dentro da ordem internacional e, ao mesmo tempo, como alternativas a estruturas lideradas pelo Ocidente.

“A China vai construindo suas próprias instituições, seus próprios organismos, organismos reformistas dentro dessa ordem e também contra essa ordem”, afirmou.

Entre os exemplos, o analista citou os Brics, a Organização de Cooperação de Xangai e a iniciativa Cinturão e Rota. “É o caso, por exemplo, dos Brics, que nos diz respeito, que é uma alternativa, claro, ao Fundo Monetário Internacional e ao Banco Mundial”, disse.

Costa Júnior também apontou a Organização de Cooperação de Xangai como um contraponto eurasiático à Otan e destacou o alcance da estratégia chinesa de infraestrutura. “É o caso, por fim, das novas rotas da seda, a iniciativa Cinturão e Rota, que hoje já envolve mais de 150 países do mundo”, afirmou.

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Segundo Costa Júnior, esse movimento mostra como a China procura ocupar espaços no sistema internacional ao mesmo tempo em que desenvolve instituições próprias, em meio ao que ele considera uma disputa crescente por poder global entre Pequim e Washington.

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