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Mercado de títulos do Japão está de volta à ativa após décadas de estagnação

Publicado 13/07/2026 • 21:13 | Atualizado há 1 hora

KEY POINTS

  • Os rendimentos dos títulos do governo japonês atingiram os níveis mais altos em várias décadas.
  • Na última quinta-feira, o rendimento dos títulos do governo japonês (JGB) com vencimento em 10 anos atingiu 2,901%.
  • Especialistas dizem que os JGBs merecem uma segunda análise, embora alguns alertem para possíveis problemas.

Foto: 123RF

Os rendimentos dos títulos do governo japonês (JGBs) vêm alcançando os maiores níveis em décadas. Na semana passada, o rendimento do título de referência de 10 anos atingiu o patamar mais alto desde 1996.

Embora os títulos japoneses tenham sofrido pressão devido à normalização da política monetária pelo Banco do Japão (BoJ) e às preocupações com os planos de gastos da primeira-ministra Sanae Takaichi, especialistas afirmam que a classe de ativos voltou a se tornar atrativa para investidores globais.

Segundo Masahiko Loo, estrategista sênior de renda fixa da State Street Investment Management, os JGBs estão deixando de ser considerados “ininvestíveis” para voltar a integrar o radar dos investidores internacionais.

“O investidor finalmente está sendo remunerado para manter títulos japoneses novamente”, afirmou.

O rendimento do JGB de 10 anos chegou a 2,901% na última quinta-feira e atualmente gira em torno de 2,781%, alta superior a 70 pontos-base desde o início do ano. Já o rendimento dos títulos de 20 anos atingiu 3,901%, também no maior nível em décadas.

Durante anos, os JGBs foram afetados pela política de controle da curva de juros do Banco do Japão, que mantinha o rendimento do título de 10 anos próximo de zero para estimular a economia. O país abandonou essa estratégia em março de 2024 como parte do processo de normalização da política monetária.

Para Charles Gave, cofundador da consultoria Gavekal, os rendimentos dos títulos japoneses estão acima do que deveriam e representam uma oportunidade.

“O ativo para comprar no Japão é justamente aquele que quase ninguém possui: títulos públicos japoneses, especialmente os de longo prazo. Hoje, esse é provavelmente o mercado de renda fixa mais atrativo do mundo.”

Ele recomenda que investidores sem exposição ao Japão adotem uma carteira equilibrada, composta por 50% em ações japonesas e 50% em títulos públicos japoneses. Para quem já investe no país, sugere substituir parte das posições em títulos europeus, americanos e até em ouro por títulos japoneses de longo prazo.

Segundo Gave, os rendimentos deverão cair nos próximos meses, enquanto o iene tende a se fortalecer, principalmente se os preços do petróleo permanecerem estáveis.

“Os títulos japoneses de longo prazo devem superar significativamente o desempenho do ouro em termos de iene no futuro previsível”, afirmou.

Nem todos concordam

Nem todos os gestores compartilham desse otimismo.

Henning Potstada, chefe global de multiativos da gestora alemã DWS, avalia que os títulos europeus continuam oferecendo uma relação risco-retorno mais favorável, principalmente porque o Banco Central Europeu (BCE) mantém juros de 2,25%, acima da taxa de 1% do Banco do Japão.

Ele também destacou que a sustentabilidade da dívida pública japonesa continua sendo um desafio. A dívida do Japão supera 200% do PIB, enquanto a média da União Europeia é de aproximadamente 81,7%.

“Se o investidor já possui posições na Europa, nossa recomendação é mantê-las ou até ampliá-las, pois a Europa oferece maior estabilidade diante das questões relacionadas à dívida pública.”

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Impactos globais

Para Lauren Hyslop, gestora de investimentos da Mattioli Woods, os investidores estrangeiros voltaram a comprar títulos japoneses de forma seletiva.

Segundo ela, apenas em 2025, houve entrada recorde de 9,3 trilhões de ienes em títulos japoneses com vencimentos entre 20 e 30 anos, à medida que os rendimentos ultrapassaram 3,5%.

Na avaliação da gestora, o rendimento dos títulos de 10 anos, atualmente próximo de 2,87%, já se aproxima do valor considerado justo por grande parte do mercado, refletindo as perspectivas de crescimento econômico e inflação do Japão.

Apesar disso, ela alerta para riscos nos títulos de prazo muito longo.

Caso o rendimento dos papéis de 30 anos ultrapasse 4,5%, seguradoras japonesas poderão ser forçadas a vender esses ativos, aumentando a volatilidade.

Ao mesmo tempo, o Government Pension Investment Fund (GPIF), maior fundo de pensão do mundo, pode atuar como um importante comprador caso direcione parte de seus cerca de US$ 1,8 trilhão em ativos para títulos domésticos.

Na sexta-feira, a ministra das Finanças do Japão, Satsuki Katayama, afirmou que o governo pretende incentivar fundos de pensão, incluindo o GPIF, a ampliar significativamente seus investimentos em ativos financeiros japoneses.

Embora o governo estude mecanismos para estimular esse movimento, ainda não há mudanças imediatas nas diretrizes de investimento do fundo, segundo a Reuters.

Mudança no fluxo global de capitais

Segundo Hyslop, o aumento dos rendimentos no Japão representa uma mudança estrutural para os mercados financeiros globais.

“Durante duas décadas, o Japão foi um financiador silencioso do baixo custo de financiamento mundial. Essa era acabou.”

Com os juros domésticos mais elevados, investidores japoneses passaram a repatriar recursos. Apenas no primeiro trimestre de 2026, venderam US$ 29,6 bilhões em títulos do Tesouro americano, retirando do mercado um dos compradores mais consistentes da dívida dos Estados Unidos.

John Sidawi, gestor sênior de renda fixa global da Federated Hermes, afirmou que, apesar dos rendimentos elevados, ainda existe cautela entre os investidores.

Segundo ele, a combinação de incertezas fiscais no Japão, dúvidas sobre o ritmo de alta dos juros pelo Banco do Japão e as tensões geopolíticas no Oriente Médio continuam pressionando os mercados de renda fixa e elevando os rendimentos globalmente.

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