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Após escândalo de trabalho escravo na BYD, funcionários protestam contra casos de assédio sexual a mulheres

Publicado 13/07/2026 • 12:15 | Atualizado há 9 minutos

KEY POINTS

  • Sindicato apresentou nesta segunda-feira pauta com reajuste salarial de 15%, vale-alimentação de R$ 850 e medidas contra assédio.
  • Entidade afirma ter recebido denúncias formais de assédio moral e sexual e questiona atuação da PM durante assembleia.
  • Histórico da unidade inclui resgate de 220 trabalhadores chineses, mais de 60 autos de infração e acordo de R$ 40 milhões.
Protesto funcionários da BYD

Sindicato dos Metalúrgicos da Bahia

Protesto dos funcionários da BYD em Camaçari

Depois de uma semana conturbada, a fábrica da BYD em Camaçari, na Bahia, volta ao centro de uma disputa trabalhista nesta segunda-feira (13). O Sindicato dos Metalúrgicos apresentou oficialmente à montadora a pauta da campanha salarial de 2026 e se reunirá com o Comando da Polícia Militar para discutir a atuação da corporação durante uma assembleia que terminou com a paralisação do primeiro turno.

No centro da mobilização estão a cobrança por reajuste salarial de 15%, aumento do vale-alimentação para R$ 850, redução dos custos do plano de saúde, maior liberdade para a atuação sindical e medidas urgentes contra casos de assédio moral e sexual que, segundo sindicalistas, foram formalmente denunciados por trabalhadores.

A assembleia da última quinta-feira (9) havia sido convocada pelo Sindicato dos Metalúrgicos de Camaçari para discutir e aprovar a pauta da data-base. O ato gerou tensão após a chegada de três viaturas da Polícia Militar.

Segundo o sindicato, representantes da BYD circularam entre os participantes e os portões da unidade foram mantidos abertos durante a assembleia, numa tentativa de reduzir a adesão dos trabalhadores.

Em entrevista ao Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC, Júlio Bonfim, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Camaçari, afirmou que o ato transcorria normalmente e só passou a ser tratado como paralisação após a chegada da PM.

De acordo com Bonfim, aproximadamente 14 policiais armados com fuzis permaneceram no local. O sindicalista atribuiu à BYD o acionamento da corporação e afirmou que trabalhadores se sentiram pressionados a interromper a assembleia e entrar na fábrica.

Leia também: Cota para elétricos que favorece a BYD expõe contradição do governo com plano de nova indústria

Vídeos mostram tensão em assembleia

Vídeos que circulam nas redes sociais mostram dirigentes sindicais criticando a presença policial e defendendo que os empregados não entrassem na fábrica enquanto as viaturas permanecessem diante da unidade.

Em uma das gravações, Bonfim critica o aparato policial no local. 

“Tivemos aqui a presença maciça da polícia, três viaturas com policiais armados com fuzis […], um desrespeito aos trabalhadores e trabalhadoras.”

O presidente do sindicato afirmou ainda que a entidade recebeu denúncias formais de assédio moral e sexual de lideranças chinesas e brasileiras da fábrica contra funcionárias da fábrica.

Bonfim não informou quantos casos foram registrados, quando teriam ocorrido ou se as denúncias já foram encaminhadas às autoridades. Segundo ele, o tema será levado à mesa de negociação da campanha salarial.

“A gente não vai admitir. Queremos discutir respeito com as mulheres que estão sendo assediadas sexualmente pelos chineses e também por lideranças e chefias brasileiras”, afirmou.

O dirigente disse também que o sindicato pretende procurar o Ministério Público e adotar medidas judiciais contra as práticas atribuídas à empresa.

Em outra gravação, um dos organizadores condiciona a entrada dos empregados à retirada das viaturas.

“Se a viatura não sair, nós não iremos entrar. E, se a viatura permanecer, nós vamos liberar todo mundo para casa.”

Segundo o sindicato, os trabalhadores do primeiro turno voltaram para casa após a assembleia. Os empregados dos turnos seguintes retomaram as atividades ainda na quinta-feira, enquanto o primeiro turno voltou ao trabalho na manhã de sexta-feira (10).  

Leia também: Fiesp acusa governo de alterar de surpresa as regras do jogo e penalizar indústria automotiva em benefício da BYD

Mobilização avança nesta segunda-feira

A Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) publicou uma manifestação de apoio da seção baiana aos trabalhadores e defendeu a liberdade de organização sindical e o direito à negociação coletiva.

A entidade também repercutiu a reivindicação de reajuste salarial e de vale-alimentação.  

Segundo Bonfim, a mobilização garantiu a abertura da mesa de negociação da campanha salarial. A pauta aprovada pelos trabalhadores será apresentada oficialmente à BYD nesta segunda-feira.

O documento também prevê redução dos custos do plano de saúde, ampliação do acesso do sindicato aos refeitórios e aos diferentes turnos e a criação de uma discussão permanente sobre prevenção e combate ao assédio moral e sexual.

O sindicato informou ainda que o dia de paralisação do primeiro turno não será descontado. A jornada será compensada no último sábado de julho, com pagamento de hora extra de 80%.

Além da entrega formal da pauta, representantes da entidade se reunirão às 15h com o Comando da Polícia Militar da Bahia.

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Segundo Bonfim, o objetivo é preservar a relação institucional entre o sindicato e a corporação e evitar novos episódios semelhantes. A entidade afirma reconhecer o papel da PM na preservação da ordem pública, mas considera que não cabe aos agentes orientar funcionários a entrar na fábrica durante uma assembleia sindical.

Acordos anteriores não impediram novas manifestações

A nova mobilização ocorre poucas semanas depois de a BYD e o sindicato concluírem uma negociação sobre a Participação nos Lucros e Resultados de 2026.

O acordo prevê o pagamento de até R$ 10 mil aos trabalhadores. A primeira parcela, de R$ 5 mil, está prevista para julho e foi anunciada como garantida aos empregados contratados até 30 de junho. A segunda, que poderá chegar a R$ 5 mil, será calculada com base em indicadores de desempenho e paga em janeiro de 2027.

Em 2025, a montadora e o sindicato também haviam firmado o primeiro acordo salarial da unidade, com aumento progressivo do piso dos operadores de produção e logística.

Em entrevista ao Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC, Bonfim reconheceu que a BYD cumpriu a promessa de geração de empregos e afirmou que a maior parte da mão de obra da fábrica é composta por trabalhadores baianos. Na avaliação dele, porém, o principal desafio está na relação entre parte da gestão da empresa e os funcionários brasileiros.

Histórico de trabalho análogo à escravidão

A mobilização ocorre em uma fábrica marcada por um dos principais escândalos trabalhistas recentes da indústria automobilística brasileira.

Em dezembro de 2024, uma força-tarefa resgatou inicialmente 163 trabalhadores chineses que atuavam na construção do complexo da BYD em Camaçari. O grupo estava vinculado à empreiteira Jinjiang, contratada para participar das obras.

Segundo o Ministério Público do Trabalho, os empregados estavam alojados em condições degradantes, com camas sem colchões, poucos banheiros, ambientes superlotados e falta de condições mínimas de higiene. Em um dos alojamentos, havia apenas um sanitário para 31 trabalhadores.

A fiscalização também apontou retenção de passaportes, jornadas excessivas, ausência de descanso semanal, vigilância armada e retenção de até 70% dos salários.

Os trabalhadores ainda eram obrigados a pagar caução e podiam perder os valores retidos caso encerrassem antecipadamente o contrato e decidissem retornar à China.

O número de trabalhadores alcançados pela investigação subiu posteriormente para 220. Segundo o MPT, todos entraram no Brasil com vistos destinados a serviços especializados diferentes das atividades que efetivamente exerciam na obra.

O Ministério do Trabalho lavrou mais de 60 autos de infração durante as fiscalizações e também apontou irregularidades na entrada de centenas de trabalhadores chineses no país.

Em maio de 2025, o MPT ajuizou uma ação civil pública contra a BYD, a Jinjiang e a Tecmonta. O processo acusava as empresas de trabalho análogo à escravidão e tráfico internacional de pessoas.

O órgão pediu inicialmente R$ 257 milhões em indenizações por danos morais coletivos, além de compensações individuais, verbas trabalhistas e medidas destinadas a impedir novas violações.

As partes chegaram posteriormente a um acordo de R$ 40 milhões. Metade do valor foi destinada aos trabalhadores resgatados e a outra parte ao pagamento de dano moral coletivo. A BYD ficou como garantidora do acordo caso as empreiteiras não cumprissem os pagamentos.

A montadora contestou a responsabilização pelo caso e afirmou que não tolerava desrespeito à legislação brasileira ou à dignidade humana.

Protestos foram retomados em 2025

Em dezembro de 2025, o Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC revelou novas manifestações no complexo industrial da BYD.

Na ocasião, trabalhadores brasileiros contratados por empresas terceirizadas denunciaram falta de higiene, problemas nos banheiros, ausência de vestiários, dificuldades no acesso à água e à alimentação, atrasos salariais e falhas no transporte.

Um representante do Movimento Luta de Classes afirmou que havia apenas seis banheiros para cerca de 2 mil empregados no canteiro de obras.

A BYD contestou o número e informou que havia 230 banheiros masculinos e femininos distribuídos pela área. A montadora também afirmou que as principais reivindicações já haviam sido atendidas e que acompanhava as condições oferecidas pelas empresas contratadas.  

Os protestos anteriores partiram principalmente de trabalhadores terceirizados ligados às obras e à expansão do complexo. Desta vez, a campanha é conduzida pelo sindicato que representa os metalúrgicos da unidade.

Procuradas ainda no domingo (12) pelo Times Brasil | CNBC para comentar as denúncias e os novos desdobramentos da mobilização, a BYD e a Polícia Militar da Bahia não se manifestaram até a publicação desta reportagem.

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