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Corte da cota de açúcar pelos EUA afeta principalmente a região Nordeste; impacto em nível nacional é limitado, diz especialista

Publicado 11/08/2026 • 14:10 | Atualizado há 1 hora

KEY POINTS

  • Redução da cota de importação de açúcar brasileiro pelos EUA deve ter impacto mais concentrado no Nordeste do que sobre o setor brasileiro como um todo.
  • As usinas nordestinas são as principais afetadas porque a região responde pelo atendimento da cota preferencial destinada ao açúcar brasileiro nos Estados Unidos.
  • Negociação com os Estados Unidos continua sendo importante para as empresas nordestinas, diz especialista.

A redução da cota de importação de açúcar brasileiro pelos Estados Unidos deve ter impacto mais concentrado no Nordeste do que sobre o setor brasileiro como um todo, segundo o analista de mercado de açúcar e etanol Maurício Muruci.

Para o ano fiscal de 2027, que começa em 1º de outubro, os Estados Unidos reservaram até o momento 100 mil toneladas para o Brasil, abaixo das cerca de 156 mil toneladas tradicionalmente destinadas ao país.

A medida ocorre em meio às negociações comerciais entre Brasil e Estados Unidos. O governo americano condicionou uma eventual reversão da redução a propostas comerciais consideradas satisfatórias por Washington.

Durante entrevista exclusiva concedida durante o Real Time, Muruci afirmou diminuição da cota representa uma perda para produtores específicos, mas não altera de forma significativa o quadro das exportações brasileiras. O país embarca entre 30 milhões e 32 milhões de toneladas de açúcar por ano, segundo o analista.

“Essa redução não impacta de forma significativa as exportações do Brasil como um todo. Ela tem um impacto localizado no Nordeste”, afirmou.

Leia também: EUA cortam cota de açúcar do Brasil em 36% e reduzem acesso ao mercado americano

Nordeste concentra os efeitos

As usinas nordestinas são as principais afetadas porque a região responde pelo atendimento da cota preferencial destinada ao açúcar brasileiro nos Estados Unidos. A proximidade geográfica também favorece os embarques para o mercado americano, em comparação com regiões produtoras do Centro-Sul.

Apesar disso, Muruci avalia que a redução não representa um problema de grande proporção para a indústria brasileira. “Para o setor como um todo no Brasil, o impacto não será muito relevante ou grave”, disse.

O analista considera, porém, que a negociação com os Estados Unidos continua sendo importante para as empresas nordestinas. Segundo ele, a manutenção ou ampliação do acesso ao mercado americano interessa especialmente às usinas da região, que têm histórico de exportação.

Açúcar brasileiro não era o principal alvo

A mudança na política comercial americana ocorre depois de medidas que também atingiram o etanol brasileiro. Na avaliação de Muruci, a estratégia pode ter sido alterada porque as exportações brasileiras desses produtos não são grandes o suficiente para produzir efeitos expressivos sobre a economia nacional.

No caso do açúcar, o analista também questiona a relação entre a redução da cota brasileira e as reclamações dos produtores americanos sobre a proteção oferecida pelas tarifas de importação.

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Segundo ele, o açúcar brasileiro não vinha ampliando sua presença no mercado americano. “Se havia perda de proteção para os produtores dos Estados Unidos, era por causa do açúcar de outras origens, e não do Brasil”, afirmou.

China e Oriente Médio aparecem como alternativas

Caso o volume que deixaria de ser destinado aos Estados Unidos seja direcionado a outros compradores, a China e o Oriente Médio estão entre os mercados com maior capacidade de absorção, de acordo com Muruci.

A China é o principal comprador individual do açúcar brasileiro e pode adquirir cerca de 4 milhões de toneladas em determinados anos. A União Europeia também figura entre os grandes mercados, enquanto países asiáticos complementam a demanda, inclusive a Índia, um dos maiores produtores mundiais.

Na avaliação do analista, as 50 mil a 60 mil toneladas que deixariam de ser destinadas aos Estados Unidos poderiam ser absorvidas sem grandes dificuldades por outros mercados. “Não precisa de um bloco inteiro para absorver esse volume”, disse.

A maior participação chinesa, contudo, também reforça a concentração das exportações brasileiras em um número limitado de grandes compradores. A China produz internamente entre 11 milhões e 12 milhões de toneladas de açúcar por safra, mas ainda recorre às importações para complementar sua oferta.

Leia também: Exportações de carnes crescem no Brasil, enquanto açúcar recua em 2026

Chuvas devem pressionar oferta e preços

Além da questão comercial, o mercado brasileiro enfrenta um cenário de menor oferta relacionado às condições climáticas. Segundo Muruci, o excesso de chuvas sobre os canaviais do Centro-Sul deve antecipar o encerramento da atual safra e atrasar o início da próxima, ampliando o intervalo entre os ciclos.

Dados de produção referentes a junho já apontariam queda nos volumes processados em razão das chuvas acima do padrão para o período. Para o analista, a combinação entre uma entressafra mais longa e problemas climáticos em outras regiões produtoras pode sustentar os preços internacionais do açúcar.

“Isso significa preços mais altos no curto e no médio prazo”, afirmou.

O cenário de oferta mais restrita não estaria limitado ao Brasil. Muruci citou também problemas climáticos na Europa e níveis de chuva abaixo da média em partes da Ásia, regiões que influenciam a disponibilidade mundial do produto.

Nesse contexto, a redução da cota americana tende a ter peso menor sobre o mercado brasileiro, já que o volume envolvido é pequeno diante das exportações totais do país. A disputa comercial, entretanto, permanece relevante para as usinas nordestinas que dependem do acesso ao mercado dos Estados Unidos.

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