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Análise: o fim da guerra com o Irã pode ser apenas o início de uma nova era de desigualdade nos EUA

Publicado 30/05/2026 • 19:30 | Atualizado há 18 minutos

KEY POINTS

  • O presidente Trump afirmou na sexta-feira que tomaria uma decisão final sobre um possível acordo com o Irã.
  • A guerra foi marcada por um mercado de ações em alta, mesmo com muitos americanos sofrendo impactos econômicos devido aos altos preços da energia.
  • Esse aumento da desigualdade representa um desafio para os republicanos nas eleições de meio de mandato e para ambos os partidos a longo prazo.

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Para alguns americanos, os impactos financeiros da guerra com o Irã terminaram quase tão rápido quanto começaram. Quem tem acesso ao mercado de ações — a maioria possui algum investimento, embora os ultrarricos concentrem a maior parte — viu o índice S&P 500 cair cerca de 8% no início do conflito, mas se recuperar em seguida com uma alta de 19% a partir de março. No acumulado do ano, o índice já sobe 10,7%, o que, se mantido, representaria o quarto ano consecutivo de ganhos de dois dígitos.

O presidente Donald Trump não perdeu tempo em comemorar os números. “Os 401(k)s [planos de aposentadoria] estão no nível mais alto da história, e isso acompanha o mercado de ações, que também está no maior patamar de todos os tempos”, disse em reunião televisionada de gabinete nesta semana. Para Trump, tudo isso acontece “apesar da guerra”.

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Mas, como qualquer motorista americano sabe, o peso real do conflito vai muito além dos gráficos de Wall Street. A guerra ampliou uma desconexão histórica entre quem consegue se beneficiar da prosperidade dos mercados financeiros e quem não tem acesso a ela. Esse abismo alimenta a frustração com o desempenho econômico do presidente e pode pesar contra os republicanos nas eleições legislativas de novembro.

Trump voltou à Casa Branca em grande parte por prometer controlar os preços ao consumidor — promessa que muitos eleitores podem considerar não cumprida quando forem às urnas.

Economia pressionada

Novos dados mostram que a economia dos EUA ainda sofre para se livrar dos efeitos da guerra. O poder de compra dos americanos caiu: a renda disponível real recuou 0,2% em março e mais 0,5% em abril, segundo o Bureau of Economic Analysis. Para enfrentar a alta dos custos de energia, famílias estão reduzindo suas reservas: a taxa de poupança pessoal despencou para 2,6%, um dos níveis mais baixos em décadas. O crescimento do PIB no primeiro trimestre foi revisado para apenas 1,6%.

Enquanto isso, grandes corporações seguem lucrando. O S&P 500 reflete justamente esse desempenho. Já os trabalhadores enfrentam dificuldades: a fatia da renda nacional destinada ao trabalho caiu para 51%, o menor nível em 79 anos, segundo o Wall Street Journal.

Desigualdade em alta

A guerra não criou a desigualdade americana, mas a aprofundou. Estudo do Federal Reserve de Nova York mostra que, desde o início do conflito, famílias no Nordeste com renda abaixo de US$ 40 mil reduziram em quase 10% o consumo de gasolina, enquanto quem ganha acima de US$ 125 mil manteve o ritmo, com sobra de renda.

No restante do país, onde o transporte público é escasso, muitos não têm alternativa senão pagar caro no posto. Segundo a Moody’s, os americanos já gastaram em média US$ 447 a mais com energia desde o início da guerra.

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O petróleo e o acordo

Nos últimos dias, os preços da gasolina caíram ligeiramente, com a perspectiva de um acordo entre EUA e Irã que reabriria o fluxo de petroleiros pelo Estreito de Ormuz. Hoje, cerca de 100 milhões de barris por dia estão bloqueados. Embora os EUA sejam o maior produtor de petróleo da história, estão presos às regras do mercado global. Quando o fechamento do estreito interrompeu o fornecimento de combustível de aviação para a Europa, refinarias americanas tiveram de redirecionar produção — solução que evitou colapso global, mas encareceu a vida dos consumidores locais.

Trump afirmou na sexta-feira que está prestes a tomar uma decisão final sobre o acordo. O mercado reagiu: o barril de Brent caiu para abaixo de US$ 92, e as bolsas seguiram em alta. Mas, como alertou o CEO da Chevron, Mike Wirth, levará “semanas e semanas” para liberar os navios presos no Golfo Pérsico. A normalização pode demorar meses.

Impactos políticos

Mesmo que um acordo seja firmado, os preços devem permanecer acima dos níveis pré-guerra. Se não houver acordo, a tendência é de nova escalada. Hoje, 60% dos americanos desaprovam a gestão de Trump, contra 37% que aprovam, segundo o agregador Strength in Numbers.

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As consequências, porém, vão além das eleições de meio de mandato. A desigualdade crescente também pressiona os democratas, divididos entre a ala progressista, crítica ao poder corporativo, e os defensores do livre mercado da era Clinton-Obama.

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O verdadeiro divisor de águas não é apenas a guerra distante, mas a sensação de exclusão de milhões de americanos diante de uma economia que favorece poucos. Essa alienação, afinal, foi parte do terreno fértil que permitiu a Trump iniciar o conflito.

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