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Juros altos empurram empresas menores para recuperação judicial
Publicado 31/08/2026 • 16:19 | Atualizado há 51 minutos
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Publicado 31/08/2026 • 16:19 | Atualizado há 51 minutos
KEY POINTS
Os juros elevados e a restrição ao crédito têm pesado especialmente sobre empresas menores, que dispõem de menos alternativas para refinanciar dívidas diante de dificuldades financeiras. A avaliação é de Gabriel Pina, coordenador e professor do curso de Recuperação de Empresas da ESA/OAB-RJ, ao analisar o avanço das recuperações judiciais no Brasil.
Em entrevista nesta segunda-feira (31) ao Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC, Pina afirmou que o patamar elevado da Selic aparece de forma recorrente entre as justificativas apresentadas pelas companhias que recorrem à recuperação judicial. Para ele, o crescimento dos casos está mais relacionado às condições financeiras enfrentadas pelas empresas do que a uma eventual facilidade maior para ingressar com o processo.
“O que a gente tem visto é que, na maioria dos pedidos, o elevado patamar da taxa Selic vem sendo uma razão da crise”, afirmou. Segundo Pina, a pressão não vem isoladamente: “As empresas não estão conseguindo suportar os custos da sua dívida. E, aliado a isso, uma redução do consumo vem atrapalhando bastante o faturamento dessas empresas.”
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Em 2025, 2.466 empresas entraram em recuperação judicial, maior número da série histórica da Serasa Experian. Já no primeiro trimestre de 2026, o Monitor RGF contabilizou 5.931 companhias em recuperação judicial, ante 4.881 no mesmo período do ano anterior.
Para Pina, setores que normalmente operam com maior nível de alavancagem ficam particularmente vulneráveis quando os juros permanecem elevados por períodos prolongados. A dívida fica mais cara ao mesmo tempo que diminui a possibilidade de contratar novos financiamentos em condições favoráveis.
“Como são setores que geralmente trabalham muito alavancados, a manutenção dessa taxa de juros alta por muito tempo tem batido muito no custo da dívida”, explicou. Nesse cenário, uma redução do faturamento ou outro problema operacional pode deixar a companhia sem espaço para recorrer ao refinanciamento.
O impacto aparece, segundo o professor, em segmentos que dependem continuamente de crédito. “Empresas grandes do varejo que dependem do financiamento contínuo para capital de giro estão sofrendo muito”, ressaltou Pina.
A recuperação judicial, porém, tornou-se uma alternativa mais estruturada para empresas economicamente viáveis. Pina lembrou que a legislação passou por mudanças em 2020, ampliando a segurança jurídica para diferentes participantes do processo.
“A lei hoje é uma lei mais robusta, que traz mais segurança jurídica aos devedores e aos credores. Então, essa é uma opção que tem se mostrado viável e proveitosa para preservar atividades econômicas que são viáveis”, afirmou.
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Siga o Times | CNBCO avanço das recuperações entre negócios de menor porte também chama atenção. Para Pina, entretanto, atribuir esse movimento principalmente a problemas de gestão seria uma interpretação equivocada. A diferença fundamental está no acesso a instrumentos de financiamento disponíveis para enfrentar períodos de dificuldade.
“Eu não diria que o problema necessariamente seria gestão. Talvez me pareça, da análise dos últimos pedidos de recuperação judicial, que a restrição ao crédito afete mais a empresa que é pequena, que tem menos opções no mercado”, pontuou.
Grandes companhias podem recorrer a mecanismos que normalmente estão fora do alcance dos pequenos negócios. “Elas não têm a opção de uma emissão de debêntures, não têm uma opção de um CRI, de um CRA. Então, talvez essas empresas menores fiquem mais suscetíveis a erros, porque qualquer erro não pode ser sanado com um refinanciamento”, explicou.
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Pina destacou que problemas administrativos podem ocorrer independentemente do tamanho da companhia. A diferença é a capacidade financeira de atravessar essas dificuldades. “As falhas na gestão ocorrem nas empresas grandes e nas pequenas, mas a diferença é que, nas maiores, os instrumentos de captação de recursos são maiores, a credibilidade do mercado é muito maior”, disse.
Outro obstáculo enfrentado pelas pequenas e médias empresas está na disponibilidade de garantias para conseguir crédito. Com menos ativos para oferecer às instituições financeiras, muitas recorrem aos fluxos futuros de recebíveis como garantia das operações.
“Geralmente, as pequenas e médias empresas não são empresas com ativo circulante pujante, com diversas opções de garantia. Elas acabam ficando presas à concessão de garantias atreladas aos seus fluxos de recebíveis”, apontou Pina.
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O problema pode se intensificar quando a empresa ingressa em recuperação judicial. Segundo o professor, determinados créditos garantidos por cessão fiduciária de recebíveis não entram no processo, permitindo que os credores continuem retendo esses recursos.
“Isso acaba gerando uma bola de neve”, afirmou Pina. Para ele, a combinação entre crédito restrito, poucas alternativas de financiamento, dificuldade para oferecer garantias e comprometimento dos recebíveis ajuda a explicar por que o quadro se mostra mais preocupante entre negócios de menor porte.
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