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Pix, vistos, agro e big techs: os possíveis impactos da classificação do PCC e CV como organizações terroristas

Publicado 30/05/2026 • 17:50 | Atualizado há 16 minutos

KEY POINTS

  • Classificação de PCC e CV como organizações terroristas pelos EUA pode aumentar custos de compliance e ampliar o alcance da jurisdição americana sobre operações ligadas ao Brasil.
  • Pix, bancos, vistos, investimentos, agronegócio e big techs podem enfrentar mais escrutínio, exigência de documentação e monitoramento de transações.
  • Especialistas veem risco de restrições ao acesso ao dólar, bloqueio de ativos e redução preventiva de exposição a setores brasileiros considerados vulneráveis.
Boletim focus Frente Corretora de Câmbio é liquidada: o que muda na prática após decisão do Banco Central

Foto: Leonardo Sá/Agência Senado

Banco Central

A decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras pode produzir efeitos sobre bancos, Pix, vistos, investimentos, agronegócio, big techs e empresas brasileiras com exposição ao sistema financeiro americano.

A medida foi anunciada na quinta-feira (28) pelo secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio. As facções foram classificadas como “Terroristas Globais Especialmente Designados” (SDGT, na sigla em inglês) e passarão a ser designadas como “Organizações Terroristas Estrangeiras” (FTO) a partir de 5 de junho.

A inclusão das facções na lista de sanções do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros do Tesouro dos EUA (OFAC, na sigla em inglês) amplia o alcance da jurisdição americana sobre transações, empresas e pessoas que tenham relação direta ou indireta com entidades ligadas aos grupos.

Mas o impacto vai além das organizações criminosas. Especialistas ouvidos pelo Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC afirmam que a decisão pode aumentar custos de compliance, gerar mais exigências em operações internacionais e elevar o risco de bloqueio de ativos, multas e restrições ao acesso ao dólar.

Sistema financeiro

Os efeitos mais imediatos devem recair sobre o sistema financeiro. Qualquer instituição que opere no sistema financeiro dos EUA fica proibida de realizar transações com as facções ou entidades associadas.

A medida é importante porque grande parte das transferências internacionais em dólar passa por bancos correspondentes nos Estados Unidos. Esse trânsito pode ser suficiente para submeter a operação à jurisdição americana.

“Operações que antes eram avaliadas sob a ótica de risco de crédito passam a ser lidas também sob a ótica de risco penal e de sanções. A mesma contraparte que ontem era um problema comercial pode hoje representar exposição criminal e administrativa perante o governo americano”, afirma Eduardo Bruzzi, sócio do BBL Advogados e especialista em direito bancário.

A responsabilidade prevista pela OFAC significa que a ausência de conhecimento ou intenção não basta necessariamente como defesa. As penalidades podem incluir multas, bloqueio de ativos nos EUA, impedimento de operar em dólar e, em casos mais graves, inclusão da própria instituição na lista de sanções.

Itaú, Bradesco, Banco do Brasil e Santander ainda não divulgaram planos de revisão de compliance em resposta à designação. O Banco Central também não se manifestou sobre possíveis exigências adicionais.

Entre as instituições financeiras, fintechs são vistas como o segmento mais vulnerável, especialmente após investigações apontarem o uso de plataformas menores pelo PCC para misturar recursos lícitos e ilícitos.

Leia também: Decisão dos EUA sobre PCC e CV pode afetar bancos brasileiros com exposição ao sistema financeiro americano

Pix

O sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central já estava sob investigação comercial nos Estados Unidos antes da designação, e a avaliação é que as conclusões dessa apuração podem ser usadas como justificativa para novas restrições americanas.

A reunião de emergência realizada nesta sexta-feira (29), com representantes da Fazenda, da Justiça, da Polícia Federal e do Itamaraty, tratou desse risco. O temor é que a velocidade das transações e a pulverização de contas sejam vistas por reguladores americanos como vulnerabilidades para lavagem de dinheiro por facções agora classificadas como terroristas.

Eventuais apurações ficariam sob responsabilidade do FinCEN, órgão americano de combate à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo.

Vistos 

Para a maioria dos brasileiros, o processo de concessão de visto americano não deve mudar de forma significativa, segundo especialistas. A designação mira PCC e CV, não a população brasileira em geral.

A avaliação, porém, pode passar a ser mais criteriosa para pessoas que atuam em setores considerados sensíveis, como combustíveis, transporte, comércio exterior, criptoativos, construção civil e operações em dinheiro vivo.

“Para o brasileiro médio e típico, não deve haver mudanças significativas no processo de emissão de visto. O que essa medida tende a provocar é um aumento do escrutínio sobre pessoas que, em tese, possam ter algum tipo de envolvimento com setores sensíveis”, afirma Marcelo Godke, sócio do Godke Advogados e especialista em direito internacional.

Redes sociais, que já fazem parte da análise migratória americana, também podem ganhar mais peso. “Aqui nos Estados Unidos, a rede social é uma arma muito forte para a imigração. Eles podem ver algo na sua mídia que possa levantar alguma dúvida”, diz Ingrid Domingues-McConville, advogada especialista em imigração nos EUA.

Leia também: Classificação de PCC e CV como terroristas pode afetar turismo corporativo no Brasil

Turismo corporativo

A designação ocorre após o Brasil registrar 9,3 milhões de turistas estrangeiros em 2025, alta de 37,1% em relação ao ano anterior e maior volume da série histórica iniciada em 1970.

Para especialistas, o impacto mais imediato tende a recair sobre o turismo corporativo, e não sobre o turista de lazer.

“Essa classificação como terrorista chega exatamente nesse pico”, afirma Gustavo Goes, fundador da São Roque Invest e especialista em turismo.

Segundo ele, executivos, investidores e participantes de eventos de negócios podem ser os primeiros afetados caso alertas consulares sejam emitidos.

“O CFO americano que ia vir para São Paulo para uma reunião de investimentos, o executivo que ia participar de uma feira setorial — esse é o primeiro a cancelar. Quando sobe um alerta consular, o sistema mesmo bloqueia”, diz Goes.

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Investimentos e câmbio

Para investidores com ativos ou operações no exterior, a designação pode gerar efeitos concretos a partir de 5 de junho, quando a classificação FTO entra em vigor.

Brasileiros com contas ou investimentos nos EUA podem enfrentar processos mais rigorosos de KYC, sigla em inglês para “conheça seu cliente”. Isso significa mais exigência de documentos, mais perguntas e prazos mais longos para operações.

Na bolsa, os setores mais expostos são bancos, meios de pagamento, varejo e logística. A percepção de risco também pode pressionar o real.

“O real deve enfrentar pressão vendedora à medida que investidores reduzem exposição a ativos brasileiros por receio de complicações regulatórias nos Estados Unidos. Bancos globais podem adotar postura mais cautelosa, elevando spreads ou reduzindo linhas de crédito para contrapartes locais”, afirma Leonel Oliveira Matos, analista de inteligência de mercados da Stonex.

O principal risco apontado por especialistas é o chamado “de-risking”, quando instituições estrangeiras reduzem preventivamente a exposição a clientes, setores ou operações para evitar problemas futuros com reguladores americanos.

Leia também: Decisão dos EUA sobre PCC e CV pode afetar brasileiros que pedem visto; especialistas explicam

Agronegócio

O escritório americano Paul Hastings, em análise publicada para clientes sobre os riscos da designação, aponta que a definição de “apoio material” prevista na legislação americana é ampla o suficiente para atingir empresas que conduzam negócios com entidades controladas por uma organização terrorista estrangeira, mesmo sem conhecimento direto do vínculo.

Isso cria o que especialistas chamam de “zona de contaminação”: uma empresa agroindustrial ou trading que utilize transportadoras, fornecedores ou intermediários com vínculos ao PCC ou ao CV (ainda que sem saber) pode ser enquadrada como facilitadora de uma organização terrorista perante a Justiça americana.

O escritório King & Spalding, em alerta específico publicado sobre a designação do PCC e do CV, reforça que empresas com cadeias de fornecimento transfronteiriças no Brasil estão expostas à responsabilidade criminal e civil nos EUA. Uma identificação desse tipo pelo Departamento de Estado pode resultar em bloqueio de exportações para o mercado americano e corte de linhas de crédito em Wall Street, sem condenação judicial prévia.

O setor de transportes e logística rural é apontado como o elo mais frágil da cadeia, por sua exposição histórica ao crime organizado. Quando os cartéis mexicanos foram designados como terroristas em 2025, multinacionais com operações no país precisaram redesenhar auditorias inteiras para provar que nenhum recurso havia sido repassado como pedágio ao crime.

Big techs e plataformas digitais

Empresas americanas de tecnologia que operam no Brasil (como Apple, Google, Meta e Amazon) e plataformas de pagamento como PayPal, Apple Pay e Google Pay também estão sujeitas às obrigações impostas pela OFAC. Como empresas dos EUA são proibidas de manter transações com entidades listadas na SDN.

O escritório Skadden, em análise sobre riscos de compliance decorrentes das designações de FTO, alerta que conduzir ou facilitar uma transação em nome de uma organização designada, inclusive por omissão ou desconhecimento deliberado, pode gerar responsabilidade criminal. A avaliação se aplica a qualquer empresa americana com presença no Brasil, independentemente do setor.

O efeito mais imediato tende a ser sentido nas plataformas de pagamento, que podem ser pressionadas a reforçar mecanismos de monitoramento e filtragem de transações realizadas por usuários brasileiros, especialmente em regiões ou setores com maior histórico de infiltração das facções.

Nenhuma das principais plataformas se pronunciou até agora sobre medidas específicas em relação ao Brasil.

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