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Tarifaço: primeiro dia tem corrida por novos mercados e investidor cauteloso; empresas pressionam por crédito e governo fala em negociação

Publicado 22/07/2026 • 21:06 | Atualizado há 1 dia

KEY POINTS

  • Ibovespa subiu 2,44% e o dólar caiu 0,43%, em um pregão guiado por balanços, commodities e entrada de capital estrangeiro.
  • Exportadores começaram a renegociar preços, preservar encomendas e buscar compradores em outros países.
  • Planalto mantém a reciprocidade como alternativa, mas prioriza retomada das negociações com os EUA.

O primeiro dia do tarifaço imposto por Donald Trump ao Brasil terminou com uma imagem que, à primeira vista, parecia contraditória. Enquanto exportadores começavam a operar sob uma sobretaxa adicional de 25% nos Estados Unidos, o dólar caiu para R$ 5,05 e o Ibovespa subiu 2,44%, de volta aos 177 mil pontos.

Nesta quarta-feira (22), os investidores olharam mais para o balanço da WEG, para a produção da Vale, para a alta do petróleo e para o retorno do capital estrangeiro. As empresas atingidas pelas tarifas, por outro lado, começaram um processo que pode levar semanas ou meses até aparecer nos números: renegociar preços, decidir quem absorve a sobretaxa, preservar encomendas, buscar crédito e encontrar outros compradores.

Foi também por isso que a principal reação do governo não veio na forma de uma retaliação imediata. O Palácio do Planalto anunciou R$ 18,5 bilhões em novas linhas de financiamento, prometeu regras específicas para cada setor e manteve a Lei da Reciprocidade como um instrumento disponível, mas que não parece ter a pretensão de acionar.

Leia também: Tarifaço dos EUA pressiona empresas brasileiras a rever contratos

Bolsa e dólar olharam para outros fatores

O Ibovespa avançou 2,44%, aos 177.547,57 pontos, puxado por empresas que têm grande peso no índice. A WEG disparou 10,05% após divulgar resultados acima das expectativas. A Vale subiu 3,96% com uma prévia operacional bem recebida, e a Petrobras acompanhou a alta do petróleo.

Parte da alta também veio do retorno de investidores estrangeiros. Felipe Corleta, sócio da Brazil Wealth, disse ao Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC que o mercado começou a observar compras mais recorrentes por parte desses investidores.

Esse capital costuma entrar por fundos que acompanham índices e distribuem os recursos entre as maiores empresas da bolsa. Assim, Vale, Petrobras e bancos podem subir mesmo num dia marcado pelo início de uma medida negativa para parte da indústria exportadora.

No câmbio, o dólar caiu 0,43%, a R$ 5,0517, no terceiro recuo consecutivo. A entrada de recursos externos em ações e renda fixa favoreceu o real, assim como a alta do petróleo, que costuma beneficiar moedas de países exportadores de commodities.

A própria pressão do petróleo sobre a inflação também reforçou a percepção de que o BC pode reduzir o ritmo dos cortes de juros. Taxas mais altas por mais tempo tornam os ativos brasileiros mais atraentes para parte dos investidores estrangeiros.

Impacto começou fora da bolsa

Para as empresas exportadoras, o problema aparece primeiro na planilha de custos. A sobretaxa pode ser absorvida pelo importador americano, pelo exportador brasileiro ou dividida entre os dois. Em alguns casos, a empresa pode reduzir margem para preservar o cliente. Em outros, o produto deixa de ser competitivo e a encomenda é suspensa ou transferida para um fornecedor de outro país.

Esse processo é especialmente delicado para companhias menores, que têm menos caixa para atravessar meses de vendas reduzidas e menos estrutura comercial para abrir novos mercados rapidamente.

O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Márcio Elias Rosa, afirmou que o governo ouviu 22 setores entre terça (21) e esta quarta-feira. Segundo ele, houve uma demanda comum por linhas de crédito que sustentem o capital de giro enquanto as empresas tentam reorganizar as vendas.

Das cerca de 2.400 empresas brasileiras que exportam para os Estados Unidos, 73% já vendem para outros mercados, segundo o ministro. Isso ajuda, mas não resolve automaticamente o problema. Um produto vendido aos americanos nem sempre encontra, em outro país, o mesmo preço, volume, exigência técnica ou estrutura logística.

Diversificar mercados também custa dinheiro e leva tempo.

“Esse é um caminho sem volta”, disse Elias Rosa. “Podem impor tarifas, podem criar dificuldades, porque o Brasil é mais forte.”

Crédito para comprar tempo

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A terceira etapa do Plano Brasil Soberano terá R$ 18,5 bilhões, dos quais R$ 13,5 bilhões virão do Tesouro Nacional e R$ 5 bilhões do BNDES.

As empresas atingidas pelas tarifas americanas poderão acessar linhas para capital de giro, produção destinada à exportação, compra de máquinas e investimentos. Os recursos também poderão financiar adaptações de produtos e processos e a prospecção de novos mercados.

O custo financeiro irá de 3%, na linha voltada à transformação de minerais críticos, a 9,8%, no capital de giro para grandes empresas. Micro, pequenas e médias empresas terão linha de giro a 8,3%.

Mas o programa ainda não está inteiramente pronto. O BNDES vai elaborar o plano de aplicação, e um conselho interministerial definirá como o dinheiro será distribuído. As condições e contrapartidas também variarão conforme o setor.

“Como temos concepções diversas sobre os setores diferentes — os afetados por tarifas, os estratégicos, os afetados por conflitos —, vamos regulamentar cada uma das linhas com requisitos diferentes”, afirmou o ministro do Planejamento, Bruno Moretti.

Segundo ele, a regulamentação ocorrerá no “curtíssimo prazo”. Mas essa velocidade será decisiva. Para uma empresa que perde um pedido ou precisa reduzir preços imediatamente, um programa de crédito só funciona se o dinheiro chegar antes do problema se transformar em demissão, paralisação de produção ou cancelamento de investimentos.

O governo afirma que o valor é suficiente e que o programa aproveita a experiência das duas fases anteriores. No Brasil Soberano II, R$ 19,5 bilhões dos R$ 21 bilhões disponíveis já haviam sido solicitados, dos quais R$ 10,6 bilhões foram aprovados pelo BNDES.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, apresentou a nova fase como uma resposta construída desde o início das disputas comerciais.

“Não estamos começando agora a falar com os setores. Desde julho do ano passado, quando teve a primeira tarifa anunciada, temos sentado com os setores e entendido deles a importância de dialogar e achar soluções”, afirmou.

Leia também: Tarifaço: governo libera crédito de R$ 18,5 bilhões a setores afetados por sobretaxa de Trump

Reciprocidade fica na gaveta

A Lei da Reciprocidade permite que o Brasil responda a medidas comerciais consideradas injustificadas, mas o Planalto decidiu, por enquanto, preservar o espaço para negociação.

“O governo não recuou um centímetro”, afirmou Elias Rosa. Segundo ele, a existência da lei não significa que o instrumento precise ser usado imediatamente.

“Se houver necessidade, na forma e adequação necessária, a lei será empregada”, disse. “Como não há agora a necessidade de aplicação de nenhuma medida, acabamos de ouvir o presidente Lula falando que é preciso negociar.”

A cautela decorre também do risco de uma reação produzir mais prejuízos no Brasil do que nos Estados Unidos. Uma tarifa de reciprocidade pode elevar custos para empresas brasileiras que dependem de máquinas, componentes ou insumos americanos.

“A lei não nos dá o direito de perder a razão”, afirmou Elias Rosa. “Se você for adotar a reciprocidade, você precisa ferir o adversário. Não apenas irritá-lo, porque senão você perde o controle e o domínio da negociação.”

O governo trabalha agora com novas datas que podem alterar o cenário. Na sexta-feira (24), os Estados Unidos devem apresentar outra decisão relacionada à investigação comercial, desta vez sobre trabalho forçado. No dia 29, termina o prazo de transição para mercadorias que já estavam em trânsito.

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