Siga o Times Brasil - Licenciado Exclusivo CNBC no
Alta performance, alto custo: quando a rotina da Faria Lima começa a cobrar da saúde
Publicado 11/08/2026 • 07:10 | Atualizado há 1 hora
OpenAI conclui venda de ações no valor de US$ 7 bilhões antes de possível IPO
Nvidia articula plano de US$ 500 bilhões para financiar infraestrutura de IA
Ações da SpaceX se recuperam e se aproximam do preço do IPO de US$ 135
OpenAI amplia iniciativa Daybreak de cibersegurança à medida que ameaças de agentes de IA evoluem
Negócio de licenciamento imobiliário de Trump no exterior dispara para US$ 59,5 milhões com pagamentos de incorporadoras do Golfo
Publicado 11/08/2026 • 07:10 | Atualizado há 1 hora
Pexels
A Faria Lima se tornou símbolo de crescimento profissional, metas ambiciosas e decisões tomadas sob pressão. Mas a rotina associada à alta performance também pode produzir um passivo que não aparece nos balanços: noites curtas, refeições desorganizadas, muitas horas sentado e pouco tempo de recuperação. Mais do que nunca, é necessário discutir o custo biológico de uma cultura que costuma medir resultados financeiros, mas ainda acompanha pouco os efeitos do trabalho sobre o corpo.
Sou médico com atuação em nutrologia e medicina preventiva. Na prática clínica, observo profissionais que controlam riscos, investimentos e indicadores diariamente, mas procuram atendimento apenas quando o cansaço, o ganho de peso, a pressão alta ou as alterações nos exames já começam a interferir na rotina.
O problema não é trabalhar com intensidade durante períodos específicos. O risco aparece quando a exceção se transforma em padrão e o organismo deixa de receber tempo suficiente para se recuperar. A Organização Mundial da Saúde e a Organização Internacional do Trabalho estimam que jornadas de 55 horas ou mais por semana estejam associadas a um risco 35% maior de acidente vascular cerebral e 17% maior de morte por doença cardíaca isquêmica, em comparação com jornadas de 35 a 40 horas. As entidades atribuíram 745 mil mortes por acidente vascular cerebral e doença cardíaca a longas jornadas em 2016.
Leia também: Você está sozinho ou só se sente assim? A diferença muda tudo, diz a ciência
O organismo não interpreta uma reunião importante, uma entrega ou o fechamento de uma operação como eventos corporativos. Ele responde à pressão por meio de mecanismos fisiológicos. Quando estresse, sono insuficiente e alimentação irregular se acumulam, podem surgir alterações de pressão arterial, glicemia, apetite, disposição e composição corporal.
Isso ajuda a explicar por que uma pessoa pode continuar produzindo e, ao mesmo tempo, estar perdendo saúde metabólica. O desempenho aparente pode permanecer elevado durante algum tempo, sustentado por café, estímulos e senso de urgência. Essa capacidade de adaptação, porém, não significa ausência de consequências.
Um dos erros mais comuns é tratar a prática de exercício como compensação para todo o restante. Treinar durante uma hora não anula automaticamente os efeitos de passar grande parte do dia sentado, dormir pouco, alimentar-se sem regularidade e conviver com estresse contínuo. Atividade física é fundamental, mas precisa integrar uma rotina que também contemple sono, recuperação e alimentação.
No universo corporativo, dormir pouco ainda pode ser interpretado como demonstração de comprometimento. Do ponto de vista médico, essa associação é equivocada. Adultos precisam, em geral, de pelo menos sete horas de sono por noite, e a insuficiência está relacionada a maior risco de hipertensão, doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, alterações de humor e dificuldade de concentração.
Uma declaração científica publicada pela American Heart Association em 2025 ampliou esse debate ao mostrar que a saúde do sono não depende apenas da duração. Regularidade, horário, continuidade, satisfação e funcionamento durante o dia também influenciam marcadores como gordura corporal, glicemia, colesterol e pressão arterial.
Isso é particularmente relevante para profissionais com horários instáveis, viagens frequentes, exposição prolongada a telas e refeições feitas tarde da noite. A entidade também alertou que alterações persistentes no ritmo circadiano podem elevar o risco de obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão e doenças cardiovasculares.
Sono não é uma interrupção da produtividade. É parte da estrutura biológica que sustenta atenção, memória, tomada de decisão e controle emocional. Quando ele é reduzido de forma recorrente, a pessoa pode levar mais tempo para resolver problemas, cometer erros que normalmente evitaria e responder pior à pressão.
A discussão não se limita ao bem-estar individual. A OMS estima que depressão e ansiedade provoquem a perda de 12 bilhões de dias de trabalho por ano e retirem cerca de US$ 1 trilhão da economia global em produtividade. A entidade inclui carga excessiva, baixa autonomia e insegurança profissional entre os fatores capazes de prejudicar a saúde mental no trabalho.
No Brasil, dados da Previdência Social mostram que os afastamentos por transtornos mentais ultrapassaram 400 mil em 2024, depois de 288.865 registros em 2023. Embora esses números não permitam isolar executivos ou profissionais do setor financeiro, eles mostram que a relação entre trabalho, saúde e capacidade produtiva deixou de ser um tema periférico.
Para quem atua sob pressão constante, prevenção não deveria significar apenas realizar uma bateria de exames uma vez por ano. O cuidado precisa avaliar a trajetória da saúde, considerando histórico familiar, pressão arterial, glicemia, colesterol, composição corporal, massa muscular, qualidade do sono, consumo de álcool, alimentação e prática de atividade física.
Wearables, sensores de glicose, suplementos e outras estratégias associadas ao biohacking podem gerar informações úteis em contextos específicos, mas não substituem uma avaliação clínica adequada. Um relógio pode indicar que o sono foi curto. Ele não explica sozinho por que isso acontece nem define qual intervenção é necessária.
Profissionais do mercado financeiro estão acostumados a identificar exposição, calcular perdas e construir proteção para diferentes cenários. A mesma lógica deveria ser aplicada à saúde. Pressão arterial elevada, aumento da gordura visceral, perda de massa muscular e deterioração do sono são riscos que podem se acumular silenciosamente durante anos. Por isso, uma avaliação integral deve considerar
alimentação, atividade física, qualidade do sono, saúde mental e os principais indicadores metabólicos, sempre de acordo com o histórico e os fatores de risco de cada paciente
Nem toda rotina intensa produzirá uma doença, assim como nenhum exame isolado prevê exatamente como uma pessoa envelhecerá. A medicina preventiva trabalha com probabilidades, fatores modificáveis e acompanhamento. Quanto mais cedo um risco é identificado, maior tende a ser a possibilidade de mudar sua trajetória.
A alta performance sustentável não depende apenas de trabalhar mais. Exige capacidade de recuperação, força física, equilíbrio metabólico, clareza mental e continuidade. Patrimônio pode ser reorganizado, uma carteira pode ser recomposta e uma estratégia profissional pode mudar. O tempo perdido de cuidado com a saúde é mais difícil de recuperar.
Lucas Rezende - CRM/SP 181835
Nutrologia, Medicina preventiva e Saúde Metabólica
Leia outras colunas de Brazil Health.
Maiores Audiências
1
Caso ‘Master capixaba’: mercado vê rombo multimilionário em operação da Apex Partners para compra da CVC
2
BYD processa portal jornalístico e tenta calar reportagem sobre origem chinesa da marca
3
PF pede bloqueio de bens da Gerdau após meses de contaminação em praia de Salvador
4
Futebol italiano perde espaço na elite europeia em meio a crise financeira e estrutural
5
Master Capixaba: Apex Partners – sócia da CVC – consegue proteção judicial para não pagar R$ 985 milhões em dívidas