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E depois da caneta? O risco escondido de emagrecer com remédio sem mudar hábitos
Publicado 11/09/2026 • 12:00 | Atualizado há 2 horas
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Publicado 11/09/2026 • 12:00 | Atualizado há 2 horas
Popularmente chamados de “canetas emagrecedoras”, esses medicamentos são indicados para o tratamento da obesidade, e o termo simplifica uma abordagem terapêutica muito mais complexa. Fármacos que atuam na via do GLP-1, isoladamente ou em conjunto com outras vias hormonais relacionadas à fome e à saciedade, podem promover perdas de peso expressivas e benefícios à saúde quando bem indicados e acompanhados. Mas o sucesso do tratamento não deveria ser medido apenas pelos quilos eliminados.
Ao reduzir a fome e aumentar a saciedade, esses medicamentos fazem com que muitas pessoas passem a comer quantidades significativamente menores, cenário que exige ainda maior atenção nutricional. Comer menos não significa, necessariamente, comer melhor. Com a redução do volume alimentar, pode diminuir também a ingestão de proteínas, fibras, vitaminas e minerais, além de água. Por isso, é fundamental avaliar não apenas quanto o paciente come, mas a qualidade e a densidade nutricional do que permanece no prato.
Fibras e líquidos são importantes para a saúde intestinal, especialmente diante de sintomas gastrointestinais que podem ocorrer durante o tratamento. Vitaminas e minerais também precisam ser avaliados e, quando a alimentação não é suficiente para atender às necessidades nutricionais, a suplementação pode ser considerada. A deficiência de determinados nutrientes pode comprometer a imunidade e estar associada a sintomas como cansaço, dificuldade de concentração, queda de cabelo, unhas frágeis, entre outros. Por isso, tanto a alimentação quanto uma eventual suplementação devem ser individualizadas, considerando necessidades, rotina, preferências, sintomas e condições de saúde.
A Diretriz Brasileira Baseada em Evidências de 2025 para o Manejo da Obesidade chama atenção para o monitoramento da ingestão de nutrientes, especialmente proteínas, diante do uso de medicamentos de maior potência, como semaglutida e tirzepatida. Em emagrecimentos mais expressivos, preservar massa muscular vai muito além da estética: ela é fundamental para força, mobilidade, saúde metabólica e manutenção do gasto energético. Sua redução pode contribuir para a queda do gasto energético em repouso, tornando a manutenção do peso mais desafiadora e, somada a outros fatores, favorecendo o reganho. Por isso, adequar a ingestão proteica, avaliar a composição corporal e associar exercícios de força são cuidados importantes.
O acompanhamento nutricional tem ainda outro papel fundamental: aproveitar esse período como uma oportunidade para construir novos hábitos. O medicamento pode modificar a fome e a saciedade, mas
não organiza a rotina, não ensina a compor uma refeição, não melhora, sozinho, a qualidade da alimentação e não constrói hábitos sustentáveis. Para muitos pacientes, a redução da fome intensa e dos pensamentos recorrentes sobre comida pode, inclusive, abrir espaço para trabalhar a alimentação com mais tranquilidade e desenvolver estratégias possíveis de manter na vida real.
Medicamento e mudança de estilo de vida, portanto, não devem estar em lados opostos, mas fazer parte da mesma estratégia de cuidado. A diretriz reforça uma abordagem multiprofissional, envolvendo profissionais como nutricionista, educador físico e psicólogo, sem postergar o tratamento farmacológico quando indicado.
A duração desse tratamento é individualizada e deve ser definida e acompanhada pelo médico. Para alguns pacientes, o uso pode ser contínuo, enquanto houver indicação, benefício e segurança; para outros, a redução ou suspensão pode fazer parte do planejamento terapêutico. Em qualquer cenário, construir hábitos saudáveis é fundamental para potencializar os benefícios e favorecer a manutenção dos resultados.
Talvez a pergunta mais importante não seja apenas “quanto de peso essa pessoa perdeu?”, mas “como ela está emagrecendo? A alimentação tem qualidade? As necessidades nutricionais estão sendo atendidas? Houve melhora da composição corporal e da saúde metabólica? Quais hábitos estão sendo construídos ao longo desse caminho?”.
Os medicamentos mudaram a forma como tratamos a obesidade, e isso representa um avanço importante. O desafio é garantir que essa potência terapêutica seja acompanhada de cuidado nutricional e mudança de estilo de vida. Porque o melhor resultado não é apenas perder peso, mas transformar essa perda de peso em ganho de saúde.
Marcela Taleb Haddad - CRN-3 34985
Nutricionista
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