CNBC
Amazon

CNBCQualcomm e Amazon assinam acordo de parceria de infraestrutura de IA

Raphael Coraccini

Raphael Coraccini: Interferência inédita na Polícia Federal pode interromper sequência de investigações sobre crimes no mercado financeiro 

Publicado 08/09/2026 • 21:42 | Atualizado há 3 horas

Foto de Raphael Coraccini

Raphael Coraccini

Analista e repórter de mercado, economia e negócios, Raphael Coraccini é jornalista, especializado em jornalismo econômico e mercado financeiro, mestre e pesquisador em Ciência Social com foco em Ciência Política. Atua na cobertura de autoridades monetárias, autoridades econômicas, resultados corporativos, M&A, mercado de capitais, impostos e tarifas, regulação e outros assuntos relacionados a economia e política.

A Polícia Federal deflagrou operações de combate ao crime organizado nos últimos dois anos, incluindo desmantelamento de esquemas bilionários que usaram o mercado financeiro como escoadouro de dinheiro ilícito e instrumento de fraudes. Os destaques são os casos Reag e Master, esquemas criminosos que foram desbaratados pelas operações Carbono Oculto, Compliance Zero e seus desdobramentos. As operações foram conduzidas pela Polícia Federal e contaram com a parceria de órgãos como Receita Federal, Ministério Público e Banco Central do Brasil. 

Andrei Rodrigues, o diretor-geral da PF afastado por André Mendonça,  havia assumido o posto no dia 2 de janeiro de 2023 e encabeçou as ações recentes que levaram ao fechamento do Master, ao desmembramento da Reag e outros efeitos. Agora, com a decisão do ministro do STF, a autarquia fica na mão de William Marcel Murad. Não se sabe até quando. A repórter Talita Laurino, do Times Brasil, licenciado exclusivo CNBC,  destacou a manifestação pública de Murad e uma dezena de outros diretores a Rodrigues, o que mostra alguma coesão dentro da PF em favor do diretor-geral afastado. Apesar disso, é esperada definitiva exclusão de Andrei se houver mudança de governo. 

Sob gestão de Rodrigues, a Polícia Federal, na companhia de outros órgãos, atuou diretamente no esquema do Master, que tirou mais de R$ 60 bilhões dos brasileiros após alegadas fraudes e crimes contra o Sistema Financeiro Nacional. No caso da Reag, os valores são incertos, mas os indícios são de que que a gestora de fundos era usada como entreposto para lavagem de dinheiro. Segundo as investigações da PF, o dinheiro ilícito, fruto de atividades do crime organizado, entrava principalmente via postos de gasolina e depois tinham seus vestígios apagados por meio da utilização de fundos exclusivos e outras ferramentas operadas pela Reag, de João Carlos Mansur. Depois, a PF indicou ainda que os esquemas Master e Reag estavam entrelaçados. O banco de Vorcaro transferiu ao menos R$ 3,6 bilhões em créditos de dívidas para fundos administrados pela empresa de Mansur.

As investigações lideradas pela PF também permitiram a liquidação de instituições que, segundo as apurações, faziam parte do ecossistema de lavagem de dinheiro e fraudes contra o sistema financeiro nacional. São os casos do Will Bank, da Fictor e das distribuidoras de valores mobiliários que pertenciam ao ex-sócio de Vorcaro, Maurício Quadrado, Banvox e Trustee. Essa última foi alvo da Operação Carbono Oculto por suspeita de aquisição e ocultação de bens para o grupo criminoso de Vorcaro. Ambas as empresas operavam fundos relacionados ao Master. 

Nesta terça-feira (8), o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça afastou o diretor-geral da Polícia Federal por alegar que havia "arapongagem institucional" liderada por Rodrigues contra figuras como o próprio Mendonça e o advogado-geral da União, Jorge Messias, que tentou vaga ao Supremo e perdeu na votação no Senado. Segundo Mendonça, Rodrigues e seu diretor de Inteligência, Leandro Almada, que também foi afastado, produziam relatórios apócrifos (não oficiais) contra o ministro do STF e o AGU no âmbito das investigações sobre Fake News. André Mendonça menciona ainda que os relatórios de Rodrigues teriam exposto investigações sigilosas sobre duas figuras importantes da República: Antônio Rueda, presidente do União Brasil, e ACM Neto, também do União Brasil e candidato a governador pela Bahia.

Vaazamentos divulgados pela imprensa mostram que Andrei Rodrigues também teria sido mencionado por Vorcaro em mensagens com Alexandre de Moraes. Os vazamentos apontam que o ex-banqueiro havia mencionado o diretor-geral da PF como uma das possibilidades para atrasar a investigação sobre o Master. Vorcaro foi preso pela Polícia Federal dias depois. Houve a antecipação das ações da PF no âmbito da Compliance Zero porque, segundo a polícia, estava havendo vazamento de informações. 

A medida de afastamento do diretor-geral da PF por um ministro do STF é inédita na história da institucionalidade brasileira. O receio agora é que as investigações na Polícia Federal em casos como do Master e da Reag sejam interrompidas ou prejudicadas, jogando no lixo os avanços no combate ao crime organizado e a utilização do mercado financeiro como escoadouro do dinheiro ilícito fruto das atividades de grupos criminosos. 

Além disso, pesa o agravamento da crise institucional no país, que serve como motor de volatilidade, favorecendo especuladores e afastando investimentos diretos, ou seja, aqueles que vêm para ficar e que de fato podem contribuir para um ganho de produtividade e eficiência do Brasil, assunto que deveria ser uma das prioridades agora, na pré-eleição, mas que está soterrado pelas pautas relacionadas a Vorcaro e sua rede de influência.

Siga o Times Brasil - Licenciado Exclusivo CNBC no

MAIS EM Raphael Coraccini