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Guilherme Carter

Fluxos, Fundos e Juros: os três sinais que desafiam o ciclo de cortes da SELIC 

Publicado 18/05/2026 • 13:00 | Atualizado há 14 minutos

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Guilherme Carter

Mestre pela FGV-EESP. Professor de Finanças na FGV. Coordenador dos programas de pós-graduação da B7 Business School. Managing Director da DataBay, fintech de inteligência de dados para o mercado de capitais. Presença constante na mídia sobre economia e gestão de patrimônio.

Arte - Times Brasil

A renda fixa adicionou aproximadamente R$ 14,2 bilhões de captação líquida em abril

Uma leitura integrada da captação de fundos, do fluxo da bolsa de valores e da curva de juros mostra que investidores ainda exigem prêmio adicional, mesmo após o início do ciclo de cortes do BC 

Em 2026, o Brasil tomou uma decisão que poucos países do mundo se permitiram tomar: iniciou um ciclo de cortes de juros. Em meio a um cenário global no qual a Zona do Euro, o Reino Unido, o Japão e boa parte da América Latina passaram a precificar elevações em suas curvas futuras, o Copom reduziu a Selic para 14,50% e sinalizou continuidade do movimento. O mercado local, contudo, não assimilou a tese sem questionamentos. O cruzamento dos fluxos de abril com o comportamento da estrutura a termo da taxa de juros revela um movimento de natureza inequívoca: a ponta curta cedeu alguns pontos-base, mas os vértices longos avançaram aproximadamente 70 bps em um único mês. O recado implícito nesse movimento é direto — quem precisa alocar capital no Brasil com horizonte de 2029, 2032 ou 2036 está exigindo um prêmio crescente para fazê-lo. 

A renda fixa mantém a dianteira na captação de fundos 

Os dados da indústria de fundos reforçam essa leitura. A renda fixa adicionou aproximadamente R$ 14,2 bilhões de captação líquida em abril, elevando o acumulado do ano para R$ 127,7 bilhões — um dos ritmos mais intensos registrados nos últimos anos. Ao mesmo tempo, os fundos multimercados permaneceram em terreno negativo, encerrando abril com saída de R$ 5,6 bilhões e acumulado anual próximo da estabilidade. Nos fundos de ações, março trouxe uma inflexão inicial, seguida por novo resultado positivo em abril; ainda assim, o saldo do ano permanece no campo negativo. O conjunto dos dados sugere que o investidor doméstico continua priorizando ativos de menor risco relativo em um ambiente de juros estruturalmente elevados. 

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Captação Líquida — Indústria de Fundos | YTD abril/2026 (em R$ milhões) 

Estratégia Janeiro Fevereiro Março Abril No ano 
Ações -3.949 -4.030 1.394 1.143 -5.443 
Cambial 253 -208 -129 712 629 
Multimercado 12.820 -5.542 -2.142 -5.599 -463 
Renda Fixa 44.340 57.290 11.797 14.240 127.668 

Fonte: Plataforma DataBay | Elaboração do autor para a CNBC 

Na Bolsa, a fuga do institucional doméstico persiste enquanto o capital estrangeiro perde fôlego 

Na Bolsa, a dicotomia que marcou o primeiro trimestre manteve-se em abril, acrescida de um elemento novo: o capital estrangeiro está desacelerando seu ritmo de alocação. Depois de aportes mensais de R$ 26,3 bilhões em janeiro, R$ 15,4 bilhões em fevereiro e R$ 11,7 bilhões em março, o investidor estrangeiro reduziu sua entrada para R$ 3,2 bilhões em abril. Trata-se ainda de fluxo positivo, mas a trajetória de desaceleração é evidente. No acumulado de 2026, o capital externo já aportou R$ 56,5 bilhões na renda variável brasileira. 

No lado oposto, o institucional doméstico segue na contramão. Em abril, foram mais R$ 9,4 bilhões em saída líquida, totalizando R$ 49,7 bilhões no ano. A Pessoa Física praticamente se neutralizou — entrada simbólica de R$ 33 milhões no mês —, enquanto as Instituições Financeiras retornaram ao campo positivo, com entrada de R$ 5,0 bilhões em abril. O quadro consolidado revela uma configuração estrutural preocupante: na renda variável, é o capital externo que sustenta a tese de alocação enquanto o investidor doméstico sistematicamente reduz posições. 

Fluxo de investimentos na Bolsa | YTD abril/2026 (em R$ milhões) 

Período Estrangeiro Institucional Pessoa Física Inst. Financeiras Outros 
Janeiro 26.314 -17.538 -3.571 -4.686 -518 
Fevereiro 15.396 -12.788 -2.735 1.649 -1.522 
Março 11.655 -9.949 277 -4.768 2.785 
Abril 3.179 -9.445 33 4.988 1.197 
No ano 56.544 -49.720 -5.996 -2.817 745 

Fonte: Dados da Bolsa elaborados pela equipe DataBay 

O ponto mais substantivo do trimestre reside no comportamento da curva de juros futura. Quando comparada ao cenário desenhado em março de 2026, a curva não ratificou o pivô do Banco Central — revelou o oposto. A ponta curta recuou de forma modesta (de 14,53% para 14,40%), acompanhando o corte de 25 bps da Selic. A ponta longa, entretanto, justamente o trecho que incorpora expectativas de inflação e risco fiscal de médio e longo prazo, avançou de forma expressiva. Os vértices de 2029 a 2036, que em março navegavam entre 13,30% e 13,45%, acomodaram-se em torno de 14,05% a 14,17%, uma elevação de aproximadamente 74 pontos-base ao longo de toda a barriga e da cauda da curva. Em síntese: o mercado aceitou o corte do Copom, mas respondeu exigindo prêmio substancialmente maior para travar capital no longo prazo. 

Esse movimento de abertura da curva longa não constitui mero tecnicismo financeiro. Trata-se do termômetro mais sensível da credibilidade fiscal do país. Com o IPCA-15 de abril registrando 0,89% no mês — e o acumulado de doze meses subindo de 3,9% para 4,4% —, com a alimentação no domicílio avançando 1,77% e com uma defasagem de aproximadamente 50% nos preços domésticos da gasolina em relação à paridade internacional, segundo dados da Abicom, o mercado precifica que a conta da inflação importada e do risco fiscal será cobrada nos vértices longos. 

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O choque externo deixou de ser hipótese 

O conflito direto entre Estados Unidos, Israel e Irã, iniciado em 28 de fevereiro, completa dois meses sem desfecho, e o Estreito de Ormuz — por onde transita aproximadamente 20% do consumo global de petróleo — permanece fechado para navegação convencional. Segundo o cenário macro do UBS de maio, o Brent operava em torno de USD 111/bbl ao final de abril, e a projeção da instituição para o preço médio até março de 2027 segue acima de USD 85/bbl. O choque de oferta apresenta persistência estrutural, não perfil de pico transitório. 

O ambiente macroeconômico nos Estados Unidos adiciona complexidade ao quadro. O PIB americano cresceu 2,0% no primeiro trimestre, sustentado por consumo resiliente e investimento em inteligência artificial, enquanto o ISM Manufacturing de abril registrou o componente de preços pagos em 84,6 — o maior patamar desde maio de 2022. Custos industriais em alta e emprego industrial em enfraquecimento configuram um cenário de estagflação setorial. O FED manteve a faixa de 3,50% a 3,75% com quatro dissidências, o maior nível de divisão interna do ciclo. A transição de Jerome Powell para Kevin Warsh, agrega volatilidade institucional: na sabatina do Senado, Warsh sinalizou a intenção de abandonar o forward guidance e adotar postura mais "forward-looking" — expressão que, no léxico do FOMC, habitualmente sinaliza menor tolerância com a inflação corrente. 

Três verdades difíceis de conciliar 

O cenário consolidado em abril revela três conclusões que resistem à conciliação fácil. Primeiro, a renda fixa segue dominando as captações porque ainda representa a melhor relação risco-retorno disponível em um país com juros reais de quase 10% e fundamentos macro frágeis. Segundo, a curva de juros longa comunica com clareza matemática que o Copom pode iniciar e sustentar cortes, mas o mercado cobrará prêmio crescente no IPCA+ e no pré-fixado longo enquanto o lado fiscal — com déficit nominal acumulado próximo de 9% do PIB e dívida bruta caminhando para os 84% do PIB ao final de 2026. Terceiro, o cenário externo deixou de ser pano de fundo para tornar-se variável determinante: com o Brent persistindo acima de USD 100 e o FED em transição, a margem de manobra do Banco Central brasileiro para sustentar o ciclo de cortes se estreita a cada semana em que o Estreito de Ormuz permanece fechado. 

Para o investidor, o recado dos dados de abril é inequívoco: a curva longa brasileira já está precificando o que o discurso oficial ainda não admitiu. Com o fiscal deteriorado, a inflação importada pressionando e o FED em transição, o Banco Central pode cortar a Selic — mas não consegue cortar o risco. Quem ignorar essa distinção em 2026 vai aprender ela pelo preço. 

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