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Naskar: venda à gestora americana levanta suspeita de farsa e sócios estudam pedir recuperação judicial
Publicado 16/05/2026 • 06:00 | Atualizado há 4 minutos
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Publicado 16/05/2026 • 06:00 | Atualizado há 4 minutos
KEY POINTS
Foto: Montagem
Sem autorização do Banco Central e registrada em território insular, Azara Capital responde perguntas após as 23h enquanto Naskar negocia recuperação
Na tarde e noite de sexta-feira (15), enquanto 3 mil investidores lesados aguardavam notícias sobre a devolução de seus recursos, um dia após a notícia de uma venda salvadora para uma gestora americana, os três sócios da Naskar estavam reunidos num escritório de advocacia na Avenida Paulista, em São Paulo, especializado em reestruturação empresarial e recuperação judicial. A informação é de uma fonte próxima do caso.
A Naskar é investigada pela Polícia Civil do Distrito Federal pelo desaparecimento de aproximadamente R$ 1 bilhão pertencente a cerca de 3 mil clientes em todo o Brasil. A fintech prometia retornos de 2% ao mês, equivalente a 175% do CDI, e operava sem registro no Banco Central ou na Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
No início de maio, os pagamentos pararam, o aplicativo saiu do ar e os três sócios, Marcelo Liranco Arantes, Rogério Vieira e José Maurício Volpato, mais conhecido como Maurício Jahu, ex-apresentador da ESPN Brasil, cortaram qualquer comunicação com investidores e clientes.
Naquela semana, a empresa afirmou que estava em “auditoria interna” e que iriam restabelecer as atividades na semana atual, o que não ocorreu.
Na quinta-feira (14), a fintech e a Azara Capital divulgaram uma nota conjunta anunciando a compra das empresas Naskar, 7Trust e Next pela gestora americana, por aproximadamente R$ 1,2 bilhão. A promessa era de que as tratativas para a devolução do dinheiro aos investidores começariam na semana seguinte.
Uma operação salvadora. Uma gestora dos Estados Unidos estaria disposta a comprar uma fintech com sérios problemas financeiros e de credibilidade.
A Azara Capital LLC se apresentou como uma gestora norte-americana sediada em Miami, na Flórida. O site declara um endereço na 1000 Brickell Avenue, mas o Google Maps aponta o local para um edifício misto, residencial com comércio no térreo e uma agência do Ocean Bank, banco comercial independente que não tem qualquer relação com a empresa. Quando se busca “Azara Capital” em aplicativos de geolocalização, nenhum resultado aparece.
A empresa não consta nos registros da Securities and Exchange Commission (SEC, equivalente americano da CVM) nem da Financial Industry Regulatory Authority (FINRA, órgão de autorregulação do mercado financeiro dos Estados Unidos). Sem esse registro, a Azara Capital não pode legalmente gerir recursos de terceiros em território americano.
Em resposta ao Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC, a assessoria da Azara Capital afirmou que a empresa está “devidamente registrada em território insular americano” e que “não requer registro perante a SEC ou a FINRA” por operar exclusivamente com capital próprio.
A resposta levanta mais perguntas do que responde. Território insular americano não é Miami. Não é a Flórida. São jurisdições como Porto Rico e Ilhas Virgens dos Estados Unidos, conhecidas por oferecer regulação mais flexível do que a aplicada no território continental americano e frequentemente utilizadas para constituição de empresas com menor exposição à fiscalização federal. Além disso, a justificativa de operar com “capital próprio” não isenta nenhuma gestora de registro obrigatório. Nos Estados Unidos, qualquer empresa que opere ativos financeiros precisa de autorização regulatória independente da origem do capital.

Sobre o contrato de compra e venda da Naskar, a assessoria confirmou que o documento foi assinado em 13 de maio de 2026, um dia antes do anúncio público, mas afirmou que ele não pode ser compartilhado “por razões estritas de confidencialidade e cláusulas de sigilo corporativo”. Nenhum regulador, credor ou investidor teve acesso ao documento até o fechamento desta reportagem, segundo uma fonte próxima do caso que falou em condição de anonimato.
No Brasil, existe registrada como Azara Instituição de Pagamento Ltda, CNPJ 65.032.964/0001-67, aberta em 4 de fevereiro de 2026, exatamente 100 dias antes do anúncio da compra da Naskar. A Receita Federal classifica a empresa como Empresa de Pequeno Porte, com capital social de R$ 13 milhões. Seu CNAE é genérico e não autoriza gestão de ativos nem captação de recursos de investidores.
🔍 SEC e FINRA: nos Estados Unidos, qualquer empresa que gerencie recursos de terceiros ou opere no mercado financeiro precisa de registro obrigatório nesses dois órgãos reguladores. Atuar sem esse cadastro é ilegal.
A empresa também afirmou ter “cinco escritórios operacionais estrategicamente localizados”, sendo três nos Estados Unidos, um no Brasil e um nos Emirados Árabes Unidos, na cidade de Ras Al-Khaimah. Nenhum endereço foi informado. Ras Al-Khaimah é um emirado amplamente utilizado para constituição de empresas offshore, conhecido pela baixa exigência de transparência societária.
A infraestrutura digital da Azara Capital diz mais sobre a empresa do que qualquer nota de imprensa. O site azara.capital é uma página única, sem subpáginas, sem histórico de operações, sem equipe identificada, sem relatórios, sem clientes listados e sem qualquer evidência de que a empresa já fez alguma coisa antes de aparecer no noticiário.
O domínio foi registrado pela Hostinger, serviço de hospedagem barata com planos a partir de US$ 2,99 por mês. O servidor está na Amazon Web Services (AWS), em Ohio, o mesmo tipo de infraestrutura que qualquer pessoa contrata em minutos com um cartão de crédito, sem verificação de identidade, por menos de US$ 10 por mês.
Os servidores de e-mail divulgado no site como canal oficial funcionam numa caixa da Hostinger. Não há servidor corporativo, não há domínio próprio de e-mail, não há infraestrutura de empresa real.
O detalhe mais revelador está no registro técnico do domínio: o arquivo de configuração foi atualizado em 14 de maio de 2026, o mesmo dia em que a nota de compra da Naskar foi divulgada à imprensa. O custo estimado de toda a infraestrutura digital da gestora que prometeu pagar R$ 1 bilhão a 3 mil investidores não chega a US$ 50 por ano.
Uma reportagem de William Matos, do portal Metrópoles, mostrou na tarde desta sexta-feira (15) que o perfil da Azara Capital no Instagram foi criado há apenas três meses. A partir desse ponto, a investigação do Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC levantou que a empresa não tem conta no LinkedIn. Após a repercussão da notícia de Matos, o perfil apagou uma publicação que prometia “capital rápido para negócios imobiliários”, deixou de seguir todas as contas que seguia e bloqueou a opção de comentários.
O site da Azara Capital traz uma promessa em destaque: “US$ 100 milhões financiados em imóveis”, com atuação “por todo o território dos Estados Unidos”. A afirmação contradiz a própria assessoria da empresa, que confirmou ao Times Brasil | CNBC que a Azara está registrada não no território continental americano, mas em jurisdição insular. Os US$ 100 milhões em operações imobiliárias, se existirem, deixariam rastro público em escrituras, cartórios e registros de financiamento. Nenhum desses registros foi localizado. Veja abaixo.

O site diz que a empresa também oferece “soluções bancárias inovadoras e confiáveis” para investidores imobiliários e empresários. A Azara Capital, porém, não é banco. Não tem registro na SEC nem na FINRA nos Estados Unidos, não tem autorização do Banco Central do Brasil e a Azara IP sequer protocolou o pedido para funcionar como instituição de pagamento. Oferecer soluções bancárias sem ser regulado como instituição financeira em nenhum país configura, no mínimo, publicidade enganosa.
O site vai além e descreve uma estrutura operacional completa: “equipe dedicada, suporte bancário diário e tempo médio de resposta de 48 horas”. Nenhum membro dessa equipe é identificado no site. Nenhum nome, nenhum cargo, nenhuma foto. A única pessoa publicamente associada à Azara Capital é Douglas Silva de Oliveira Azara, de 25 anos, morador de Uberlândia.

Nenhum produto tem taxa, prazo, valor mínimo ou processo de contratação descritos. Não há área do cliente, não há login, não há formulário funcional. É a linguagem padrão de templates de sites financeiros vendidos por US$ 19 em plataformas de design – copiável em uma tarde, sem nenhum produto real por trás.

A única página do site lista quatro linhas de produtos: financiamento de aquisições, contas empresariais, planejamento de capital e proteção de risco digital. Juntos, os quatro serviços descrevem praticamente tudo que um banco regulado oferece. Nenhum tem taxa, prazo, valor mínimo ou processo de contratação descrito.
A ironia está no último item: a empresa que promete “processos digitais seguros para proteger transações” é a mesma que solicitou documentos pessoais de 3 mil investidores por e-mail, sem autorização do Banco Central, sem regulação em nenhum país e com toda a infraestrutura digital custando menos de US$ 50 por ano.
A assessoria afirmou que o acesso aos dados dos investidores está restrito a uma equipe de 18 profissionais especializados em compliance e gestão de crise. O site da empresa, de página única, não identifica nenhum deles.
O único sócio-administrador da Azara Instituição de Pagamento Ltda é Douglas Silva de Oliveira Azara, de 25 anos. Em seu perfil pessoal no Instagram, ele se declarava fundador e diretor da Azara Capital. A informação foi removida horas após o anúncio da compra da Naskar.
Questionado pelo Times Brasil | CNBC, o próprio Douglas respondeu em primeira pessoa, confirmando ser o “único proprietário e principal executivo responsável pela gestão e direção estratégica” da Azara Capital LLC e da Azara IP. Na única resposta redigida em primeira pessoa.

O levantamento feito pelo Times Brasil | CNBC com base em dados públicos e documentos de compliance revela um perfil que não combina, nem de longe, com o de alguém à frente de uma gestora bilionária. Douglas tem renda declarada de R$ 1,7 mil por mês. Seu endereço residencial principal fica no Residencial Parque das Árvores, em Uberlândia (MG), um conjunto habitacional popular com apartamentos de 59 a 89 metros quadrados, aluguel médio de R$ 2,5 mil e valor de venda médio de R$ 320 mil.

Segundo sites de compliance e pesquisas de reputação consultados pelo Times Brasil | CNBC, Douglas Silva de Oliveira Azara apresenta alto risco de crédito e alto risco jurídico. Tem 24 protestos ativos em cartório, totalizando R$ 386 mil, e responde a mais de 15 processos por estelionato e crimes contra o patrimônio. Múltiplas ações cíveis com execuções em andamento foram identificadas em seu nome.
Para explicar a origem do capital integralizado nas 12 empresas, somando mais de R$ 2,4 bilhões, Douglas afirmou, por meio de sua assessoria, que os recursos são de “origem familiar judaica e decorrentes de herança”, posteriormente valorizados por meio de “alocações estruturadas no mercado de criptoativos durante o período compreendido entre os anos de 2016 e 2022”. Douglas nasceu em 22 de maio de 2000. Em 2016, tinha 15 anos. Em 2022, tinha 21. Nenhuma documentação foi apresentada.
A cronologia também não fecha. Douglas alegou ter valorizado a herança em criptoativos entre 2016 e 2022. As primeiras empresas da teia societária foram abertas em janeiro de 2024, dois anos após o fim do período de valorização alegado. O que aconteceu com o patrimônio entre 2022 e 2024 não foi explicado.
Ao mesmo tempo, esse mesmo nome figura como sócio-administrador de outras 11 empresas brasileiras com capital social somado superior a R$ 2,4 bilhões, todas abertas entre janeiro de 2024 e fevereiro de 2026, quando tinha entre 23 e 25 anos. Entre elas está a Jabuti Capital Venture Group Ltda, com nome fantasia Banco Phoenix, capital social de R$ 1,07 bilhão e atividade de securitização de créditos, sediada em Barueri, São Paulo. Há ainda quatro fazendas com capitais entre R$ 27 milhões e R$ 285 milhões, duas transportadoras, um posto de combustíveis e uma empresa de armazéns gerais autorizada a emitir warrant, todas ativas, todas com Douglas como administrador único.
A Azara Instituição de Pagamento Ltda também apresenta alto risco de crédito e alto risco jurídico, apesar de ter apenas 100 dias de existência.
Parte das empresas de Douglas tem como sócia a TRX Investimentos SA, CNPJ 39.232.481/0001-04, aberta em setembro de 2020. O CNAE declarado da TRX é criação de bovinos para corte, uma empresa registrada como pecuária que aparece como sócia em empreendimentos do setor financeiro. A TRX tem 96 protestos ativos somando R$ 870 mil e figura em processos que incluem menções a estelionato, sem condenação definitiva. A presidente da TRX é Célia de Fátima Ferreira, cujas conexões com os demais envolvidos ainda estão sendo investigadas.
No mesmo dia em que abriu a Azara IP, em 4 de fevereiro de 2026, Douglas constituiu também a Phoenix Instituição de Pagamento Ltda, com nome fantasia Phoenix Capital IP. Mesma data, mesmo endereço em Brasília, mesmo capital social de R$ 13 milhões, mesmo CNAE genérico. Duas instituições de pagamento idênticas abertas simultaneamente, sem explicação pública.
A nota que anunciou a compra foi divulgada conjuntamente pela Naskar e pela Azara Capital. Em aquisições legítimas, quem anuncia a compra é o comprador. Neste caso, a empresa investigada pelo desaparecimento de R$ 1 bilhão participou ativamente da redação e divulgação da nota que anunciava sua própria venda.
A assessoria da Azara informou que os primeiros contatos com os sócios da Naskar foram estabelecidos em abril, “por intermédio de uma consultoria especializada em prospecção de negócios”. A empresa não identificou o nome da consultoria.
Para Bruno Boris, sócio fundador do Bruno Boris Advogados, o anúncio representa, do ponto de vista jurídico, “um nada”. “Deve-se aguardar a efetiva concretização do alegado negócio”, afirmou o advogado, consultado pelo Times Brasil | CNBC.
Rafael Mortari, sócio do Mortari Bolico Sociedade de Advogados, vai além. Para ele, a preocupação legítima é que esse tipo de declaração sirva como instrumento de gestão do tempo, desacelerando ações judiciais enquanto ativos são movimentados ou diluídos. A orientação técnica, segundo o advogado, é que nenhum investidor deveria suspender medidas judiciais já em curso, especialmente bloqueios e cautelares, com base exclusivamente em uma nota pública.
Uma fonte próxima do caso confirmou ao Times Brasil | CNBC que os três sócios da Naskar estudam entrar com pedido de recuperação judicial. Rogério Vieira é presidente da 7Trust, empresa incluída no pacote da suposta aquisição. Maurício Jahu é diretor da mesma empresa.
Eduardo Terashima, sócio do NHM Advogados, alerta para um padrão recorrente em casos brasileiros de captação irregular de recursos. Segundo ele, às vésperas ou no início do colapso de esquemas financeiros, é comum surgir o anúncio de um comprador internacional ou de uma fusão que supostamente vai honrar os passivos. Esse tipo de anúncio, avalia o advogado, cumpre três funções: deslocar o caso da esfera criminal para a cível, sob a narrativa de inadimplemento e não de fraude; ganhar tempo, desestimulando investidores a renovar medidas cautelares e manter o ritmo das ações em curso; e abrir uma janela para eventual dissipação patrimonial, com transferências e ocultação de bens.
Terashima ressalva que não há elementos para afirmar que esse seja o caso da Naskar, mas recomenda que investidores que pausaram suas ações retomem imediatamente as estratégias processuais, sem subordiná-las a anúncios sem respaldo em documentação verificável.
A assessoria de imprensa da Naskar afirmou que a empresa não vai comentar. A assessoria de imprensa da Azara respondeu após as 23h. Sobre a responsabilidade jurídica pelos pagamentos prometidos aos investidores, a Azara afirmou que “assumiu a sucessão integral dos ativos e passivos” da Naskar. Sobre a autorização do Banco Central para operar como instituição de pagamento, confirmou que a Azara IP “encontra-se em fase de estruturação técnica e operacional”, sem previsão de autorização para este ano. Uma empresa sem autorização do Banco Central não pode captar recursos nem gerir dinheiro de terceiros em território brasileiro.
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