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Guilherme Carter

The day after: a reação da bolsa, do câmbio, dos juros e do crédito à reeleição de Lula

Publicado 27/10/2026 • 20:05 | Atualizado há 8 horas

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Guilherme Carter

Mestre pela FGV-EESP. Professor de Finanças na FGV. Coordenador dos programas de pós-graduação da B7 Business School. Managing Director da DataBay, fintech de inteligência de dados para o mercado de capitais. Presença constante na mídia sobre economia e gestão de patrimônio.

No primeiro pregão depois do segundo turno, as empresas listadas na Bolsa de Valores perderam R$ 734 bilhões em valor de mercado, o dólar teve a maior alta diária desde 1999 e a curva de juros passou a embutir alta da Selic

O primeiro pregão depois da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi o quinto pior da história do Ibovespa. O índice fechou a segunda-feira (26) em queda de 13,88%, aos 176.608 pontos, a maior baixa diária desde março de 2020, depois de acionar o circuit breaker na abertura, pela primeira vez desde 2020, e de chegar a cair 17,34% pela manhã, aos 169.516 pontos. O volume negociado, de R$ 88,6 bilhões, foi cerca de três vezes e meia a média diária, e 68 das 76 ações da carteira teórica terminaram o dia em queda.

A dimensão do ajuste reflete o posicionamento do mercado na véspera. Depois do primeiro turno, os preços dos ativos brasileiros passaram a incorporar a vitória de Flávio Bolsonaro (PL), a quem os mercados de previsão Polymarket e Kalshi atribuíam cerca de 80% de chance no sábado. Em outubro, até sexta-feira, o Ibovespa acumulava alta de 10,1%. Depois da queda de segunda-feira, passou a acumular perda de 5,2% no mês e voltou ao menor nível de fechamento desde 31 de agosto.

As empresas listadas perderam R$ 734 bilhões em valor de mercado

O valor de mercado das empresas listadas na Bolsa de Valores encolheu R$ 734 bilhões em um único pregão. Para o investidor estrangeiro, a perda foi maior, porque se somou à desvalorização do real: medido em dólares pelo câmbio de fechamento de cada dia, o Ibovespa caiu de cerca de 41,1 mil para 32,7 mil pontos, um recuo de 20,4%.

As perdas se concentraram nos setores mais dependentes de crédito, de juros domésticos e de renda das famílias. Banco do Brasil caiu 29,33%, BTG Pactual, 24,83%, Bradesco, 21,70%, e Itaú Unibanco, 13,66%, e a própria B3 recuou 36,28%. Magazine Luiza (58,23%), Vamos (56,79%) e Hapvida (54,93%) perderam mais da metade do valor, e o índice imobiliário da B3 caiu cerca de 29%, com Cyrela em baixa de 44,81%. No sentido oposto, exportadoras subiram com o câmbio: Suzano avançou 10,08%, Embraer, 8,89%, e Vale, 4,01%.

O dólar teve a maior alta diária desde 1999

O dólar comercial fechou em alta de 8,21%, a R$ 5,40, depois de chegar a R$ 5,60 pela manhã, a maior valorização diária desde 13 de janeiro de 1999. Na sexta-feira, a moeda americana valia R$ 4,99, e mesmo depois da alta ainda acumula queda de cerca de 1,5% em 2026. O prêmio de risco soberano acompanhou o câmbio: o CDS de cinco anos do Brasil, que havia fechado a sexta-feira em 120,2 pontos-base, chegou a 151,7 pontos na manhã de segunda-feira, alta de 26%.

A curva de juros passou a embutir alta da Selic

No mercado de juros, a reação se concentrou nos vencimentos intermediários e longos. A taxa do DI para janeiro de 2029 subiu de 12,64% para 15,22% ao ano, e a de janeiro de 2031, de 12,64% para 15,28%, altas de cerca de 2,6 pontos percentuais, enquanto o vencimento de janeiro de 2027 avançou 0,23 ponto, para 13,70%. A curva, que na sexta-feira era invertida, com as taxas longas cerca de 0,8 ponto abaixo das curtas, terminou a segunda-feira positivamente inclinada, com as longas 1,6 ponto acima (Gráfico 1).

A decomposição da curva em taxas a termo mostra o que mudou nas expectativas. Na sexta-feira, a taxa média do CDI implícita para 2027 era de 12,75% ao ano, quase um ponto abaixo do CDI atual, de 13,65%, o que equivalia a precificar a continuidade dos cortes da Selic, hoje em 13,75%. Na segunda-feira, a taxa implícita para 2027 passou a 15,03%, e a de 2028, a 15,70%, 1,4 e 2 pontos acima do CDI atual. O mercado deixou de esperar cortes e passou a embutir alta dos juros nos próximos dois anos, além de um prêmio maior pelo risco fiscal nos prazos mais longos.

O Tesouro Nacional cancelou os leilões de títulos prefixados e de NTN-B previstos para a semana e fez recompras extraordinárias de 8,4 milhões de NTN-F, com vencimentos em 2031, 2033 e 2037, por cerca de R$ 7,1 bilhões, e de 1,76 milhão de NTN-B. O Tesouro Direto saiu do ar pela manhã e, na reabertura, pouco depois do meio-dia, o Tesouro Prefixado 2032 pagava 15,78% ao ano, contra 12,89% na sexta-feira, e o Tesouro IPCA+ 2050, IPCA mais 7,64%, contra 6,42%. A alta diária das taxas prefixadas superou o recorde anterior, de 2,06 pontos, registrado no início da pandemia.

O crédito imobiliário ficou mais caro no mesmo dia

O efeito chegou rapidamente ao crédito das famílias. Na noite de segunda-feira, passou a circular a nova tabela de taxas do financiamento imobiliário do Bradesco, que aparecia também no simulador do banco: a linha principal subiu de TR mais 11,70% para TR mais 15% ao ano, alta de 3,3 pontos, a linha private passou a TR mais 13,60%, e o financiamento de lotes urbanos, a TR mais 18,50%. Em setembro, segundo o Banco Central, a taxa média cobrada pelo banco nos financiamentos do Sistema Financeiro da Habitação havia sido de 11,77% ao ano.

Em um financiamento de R$ 300 mil pelo sistema SAC, com prazo de 30 anos, a primeira parcela, sem TR, seguros e tarifas, passa de cerca de R$ 3.612 para R$ 4.348, um aumento de 20,4%. Com o comprometimento máximo de 30% da renda que os bancos costumam exigir, a renda mínima para contratar o mesmo financiamento sobe de aproximadamente R$ 12 mil para R$ 14,5 mil por mês. Como o crédito imobiliário com recursos de mercado depende de captações como as LCIs, cujo custo acompanha a curva de juros, a pressão atinge todo o sistema.

A resposta do governo e o que acompanhar

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou no início da noite de segunda-feira que o governo pretende ampliar o superávit primário em 2027 e mudar as regras para perseguir o centro da meta fiscal, e não apenas o limite inferior da banda, e que parte das medidas de crédito subsidiado e de estímulo adotadas em 2026 pode não ser renovada. A meta de 2027 é de superávit de 0,5% do PIB, e o projeto de Orçamento enviado ao Congresso em agosto projeta resultado de cerca de 0,13% do PIB, o que dá a dimensão do esforço a ser detalhado. Durigan disse ter conversado com Lula, com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e com o Tesouro, autorizado a atuar no mercado secundário para restabelecer a liquidez dos títulos.

Nos próximos dias, três indicadores devem mostrar se o pregão de segunda-feira foi um desmonte de posições ou o início de uma nova precificação do risco brasileiro: as taxas que o Tesouro aceitar pagar na retomada dos leilões, a inclinação da curva de DI entre 2027 e 2029, que hoje embute alta da Selic, e a eventual revisão das tabelas de crédito imobiliário dos demais grandes bancos.

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